O Manuelinho de Évora: Edição para o ELTeC romance histórico (1637) Barata, António Francisco (1836-1910) Criação do HTML original Inês Lucas Codificação segundo as normas do ELTeC Diana Santos 47374 COST Action "Distant Reading for European Literary History" (CA16204) Zenodo.org ELTeC ELTeC release 1.1.0 ELTeC-por ELTeC-por release 2.0.0 O Manuelinho de Évora: romance histórico (1637) António Francisco Barata O Manuelinho de Évora: romance histórico (1637) António Francisco Barata Imprensa Litteraria Coimbra 1873

português de Portugal Converted by checkUp script for new release Adicionado à coleção ELTeC

O

MANUELINHO DE EVORA

ROMANCE HISTORICO

(1637)

POR

António Francisco Barata

COIMBRA

IMPRENSA LITTERARIA

1873

«...não ha maior gosto que tratar cõ Philosophos, & cõ homês doutos; porq estes sabe disculpar a eleição da materia, a brevidade dos discursos, a pobreza dos conceitos, o estilo comu, os erros da pena, os erros da impressão».

FR. PEDRO DE s. JOÃO PINTO. Vida espiritual do homem. Ao leitor.

AO DISTINCTISSIMO ADVOGADO DE BARCELLOS

RODRIGO AUGUSTO CERQUEIRA VELLOSO

COMO PUBLICO TESTEMUNHO DE AMIZADE

Dizia Thales de Mileto, aquelle dos sete sabios, cuja empreza era o -- conhece-te a ti mesmo -- que nos deviamos lembrar dos amigos ausentes como dos presentes; porque, sendo a amizade concordia de almas, que a distancia não póde apartar, feio e ingrato fôra esquecel-os, para só lembrar os presentes.

Não me conheço: presumo apenas que levantei, haverá bons dez annos, um altar em meu peito, onde sacrifico á amizade do amigo ausente, a quem por mais de uma razão offereço o Manuelinho.

Possivel é que nos sobreviva a mim e a elle este livro, sem embargo do pouco merecimento que tem, quer na proficiencia dos conceitos, quer no florído da imaginação, quer nas galas do estylo: se o lograr, como desejo, conheçam nossos filhos, saibam os que depois de nós ficarem, que n'esta pagina permanece o testemunho do meu animo agradecido á magnanimidade de um grande coração.

Evora, Novembro de 1872.

Antonio Francisco Barata.

O MANUELINHO

CHRONICA EBORENSE

I

O romeiro de Santiago

«Ouvi se quereis.»

GIL VICENTE.

Vagarosamente passava para Portugal o anno do Senhor de 1637. E vagarosamente passava porque a patria de D. João I desde 1581 era escrava de Castella, podendo e devendo ser a parte mais dilecta dos monarchas hespanhoes na Peninsula. O seu clima, o seu uberrimo solo, seus famosos portos, notoriamente o de Lisboa e o genio esforçado de seus naturaes, não menos que Andaluzia lhe davam jus, se não a reino independente com leis proprias e costumes seus, ao menos a ser a primeira provincia que desde os pyrineus ao Estreito devia merecer os cuidados dos governantes castelhanos. Grave erro foi a administração de Castella com respeito a Portugal, que os Governadores do reino depois que expirára D. Henrique, criminosamente agrilhoaram ao carro triumphante do Demonio do meio dia. É-nos porém lisongeira a ferrea dominação de Castella. Os valentes de mil combates, os dominadores do mar, deviam inspirar serios cuidados ao leão Gastelhano. A raça de Viriato era muito para temer.

Acrysolado o patrio amor no longo captiveiro ia prestes rebentar como vulcão destruidor. Breve sacudiria, no mais audacioso feito d'armas que narram historias, o jugo estrangeiro, floreando mais uma vez ao vento da liberdade as quinas de Affonso Henriques.

Se mais humana fôra a politica de Gastella quiçá não fosse mister aquelle despertar de gigantes. Ainda hoje podiam viver unidos os dous povos com maior respeitabilidade de seu nome, e sem perda das proprias tradições. Camões e Cervantes, Colombo e Gama hão de bastar sempre a eternisal-as.

Mas a politica da Hespanha sobrecarregou Portugal de tributos vexatorios, mandou para Catalunha e Flandres os fortes corpos de seu exercito e poz á frente do governo d'este reino ministros como Miguel de Vasconcellos. Poderiamos ser hoje uma só potentissima nação. Não teriamos tido, é certo, mais glorias militares no reinado de Affonso VI; mas bastantes haviamos já. Não contariamos os notaveis reinados de D. João V e de D. José; mas, não presenciariamos a decadencia d'esta esforçada nação depois de 1820, nem córariamos de vergonha contemplando, inermes, insultos ao nosso brio e ao nosso direito, como o da esquadra do vencedor de Magenta e vencido de Sedan. Deixemos, porém, o destino d'este povo á fatal sequencia dos destinos europeus, e historiemos o primeiro rebate de liberdade portugueza em 1637, tres annos antes de raiar o 1.° de dezembro de 1640.

Estamos em Evora, na corte dos reis D. João II e D. Manoel, na patria de muitos homens importantes nas letras e nas armas.

Sôa na cathedral de D. Paio a ultima badalada das nove botas da manhã do dia dous de fevereiro de 1637.

Pessoas de ambos os sexos começam de entrar para a egreja ao convite do repicar dos sinos da grande cathedral. É o dia em que a egreja eborense celebra a festa da Purificação de Nossa Senhora.

Dous homens passeiam á porta do templo, ou, antes, no comprido adro d'elle. O parar contínuo, o gesticular impetuoso dos dous patenteiam discussão acalorada sobre um ponto perfilhado de ambos ou repulsado de um.

Vejamos, leitor, como eu curioso, se podemos ouvir suas falas.

-- Mas não podemos nós nem devemos consentir em tantos vexames, sr. Sizenando Rodrigues.

-- Concordes estamos n'essa parte, João Barradas. A nós, os representantes do povo, cabe o fiscalizar e zelar seus direitos e interesses.

-- Que certeza, porém, haverá no lançamento de tão grande contribuição? A fé, que pelo exorbitante, não creio em tal.

-- Não credes em tal? pois deveis crer. Lembrae-vos dos mimos de Hespanha já recebidos e não vos será difficil acreditar n'este e n'outros com que á politica do Conde Duque apraza mimosear-nos.

-- Ignominioso tem sido o proceder d'essa nação para comnosco, é certo; mas, afigura-se-me que o Corregedor Sarmento será mais humano desta feita com seus concidadãos.

-- Assim deveria ser e ter sido já, André de Moraes Sarmento, porém, é um portuguez renegado, um apaniguado de Castella. Referendará e mandará executar qualquer ordem que lhe venha sem attender ás queixas do povo que representamos, e sem lembrar a possibilidade da sua má vontade.

-- Se ao menos a filha, senhora discreta e de bom juizo pesasse com seu voto nas deliberações d'elle! Falae-lhe n'isso, vós que podeis... disse João Barradas com intenção. Por suas affeições portugueza me parece...

-- Alludis, bem vejo, ao amor que lhe tenho a ella e ao seu bem me querer. Não falámos ainda em cousas d'essas; mas creio que demasiado chamôrro é o pae para attender aos dictames do coração da filha e ao amor da patria.

-- Propicia occasião tendes para a saudar, sr. Sizenando Rodrigues, e, se tanto vos parecer conveniente, para com ella ajustardes occasião para n'isto falar. Eil-a que sobe as escadas.

De facto, D. Constança Sarmento, a bella filha do Corregedor de Evora, por D. Filippe III, encaminhava-se para a cathedral.

Não brilhavam já no rosto de D. Constança as rosas da juventude. De altura mais do que regular, graciosa elegante e bem talhada de fórmas, por ella passára já o maio da existencia florída, a quadra das illusões e devaneios encantadores. Contaria trinta e cinco annos de edade. Se não era a tenra virgem de mavioso olhar e doces modos, era a mulher antevista em sonhos pelo estatuario, a grega viril e esbelta que manda com acenos e escravisa com olhares. Não era o tenro arbusto mal preso á terra que o vento verga a seu bel-prazer, mas a acacia florída e enraizada que o sopro das paixões não curvaria, antes partira e prostára, em seu voluvel soprar. Não era a borboleta inconstante que vôa de flor em flor, era a rosa d'Alexandria aberta ao sol do occidente, que exhalando mil perfumes espera a douda mariposa firme reclinada na haste que a alimenta. Acompanhada de uma creada, D. Constança encaminhava-se á cathedral.

Saudando-a cortezmente, Sizenando Rodrigues foi-lhe em seguida ao encontro; e, depois de breve pratica, curvando-lhe a cabeça se despediu d'ella, voltando a conversar com João Barradas.

-- Aproveitei o vosso conselho, disse para este: pedi-lhe uma conferencia e foi-me esta concedida para a meia noite de hoje.

-- Não deveis, pois, faltar, como não deveis deixar de a induzir a levar o pae ao não cumprimento das ordens de Castella. D'este modo poupar-nos-hemos a incommodos assegurando-lhe a elle inviolabilidade em sua pessoa e bens.

-- Isso tentarei; mas, receio que o consigamos. Sarmento se não der execução ás ordens do Conde Duque lavrará a ordem da perda de seu officio, que, como sabeis, é dos mais pingues e rendosos. Isto não fará elle.

-- Tanto peior para si, por que nós não poderemos suster a sanha ao leão popular que começa de rugir, como csquivar-nos a dirigil-o no combate, de que sahirá vencedor. Sabeis o que se trama, e conheceis a habilidade e astucia do collegial Sebastião do Couto, que deve estar commigo esta noute na taverna de Antão Vasques, para continuarmos a dispor as figuras para.....

-- Falae baixo, que nos podem ouvir. Este peregrino de Sant'Iago que por nós passou agora em direcção á sé, mediu os passos ao passar por nós e pareceu-me prestar muita attenção ao que diziamos.

-- Isso é desconfiança vossa, respondeu João Barradas.

-- Olhae, olhae, eil-o que nos observa antes de entrar na egreja, disse Sizenando.

-- Com effeito, parece intencional aquella paragem e voltar do homem para nos encarar. Convirá observal-o e seguil-o.

Antes que os dous tivessem tempo de concertar o modo de se certificar do proposito ou acaso com que tinham sido observados, ouviu-se uma gritaria enorme da banda da rua da Sellaria, e logo em seguida viram desembocar d'ella um rapazio numeroso cercando a um homem alto, meio decentemente trajado, magro, mas de boas feições.

Ao chegarem perto das escadas da sé romperam voz em grita :

-- Viva o dizidor!

-- Viva o Manuelinho!

-- Viva!!

Subindo, o homem alto agradeceu correspondendo áquella ovação dos rapazes com esta falla em verso :

Nos nossos montados

Temos muita caça;

Mas que, por desgraça,

Falcões esfaimados,

Protervos, damnados,

Nos vêm empolgar.

Pois bem, meus rapazes,

As mãos nos gatilhos!

Avós, pães e filhos

De lebres sequazes,

Que sois mui capazes

De falcões matar:

E danças formar,

Bailar e cantar

E depois gritar,

Dizei que eu não sei,

-- Viva! viva! viva!

-- Viva! viva! el-Rei!

-- Nota-se ha tempos nas falas d'este louco uma confusão de ideias maior que de ordinario, disse Barradas para Sizenando Rodrigues.

-- Assim é; e mais para notar são as allusões politicas dos seus amphyguris. Reparastes bem n'aquelles seus dictos ao rapazio?

-- Sem duvida: e, se não fôra esse desgraçado um truão das praças, um dizidor tresloucado de necedades, afigura-se-me que a justiça de Castella lhe poria cobro na lingua ponteira.

-- Não convém, comtudo, malbaratarmos o tempo conversando de um bobo sem imputação. Aquelle romeiro impressionou-me por modo, que mais importa seguir-lhe a pista do que occuparmo-nos do louco.

-- Grave injustiça me fazeis, senhores juizes do povo de Evora, disse Manuelinho, que despedira os rapazes, e se approximára, ouvindo que os dous falavam de sua pessoa.

Meio attonito com aquella interlocução inesperada, em que havia um tom de reprehensiva seriedade, João Barradas e Sizenando Rodrigues, inquietos e receiosos que Manuelinho tivesse ouvido alguma palavra que os compromettesse, apenas lhe disseram, sorrindo, quasi como egualmente inspirados:

-- Não, Manuelinho, não vos quizemos nem queremos offender. Sabeis como vos aprecia toda Evora.

Nós, por um costume de annos, insensivelmente fazemos côro com os eborenses, mas sem vos querermos offender, que mais para lastimas sois do que para pabulo ao nosso bom humor.

-- Sois homens sérios, senhores juizes do povo de Evora, e na conta de graves tomo as vossas palavras, as mais humanas que me arremeça esta cidade ha não poucos annos. Agredecido as aceito; e, por vos mostrar minha gratidão, um serviço me proponho fazer-vos.

-- Um serviço! A nós! exclamou Barradas admirado e sorrindo ao pobre louco.

-- A vós, sim, e ao povo d'Evora, que representais no mandato. Nem vós me apreciaes! Nem vós podeis ver atravez do véo transparente de parvoice que me involve! Haveis razão, senhores. Mas ha de o louco servir-vos. Dispunheis-vos a observar a um homem que por vós passou ha minutos, bem sei. Quiçá não seja o louco tanto como o suppondes. Quem seguirá esse homem serei eu: eis o serviço que vos farei. Cortejo-vos, briosos representantes da vontade popular. E sem dar tempo ao reflectir dos dous, Manuelinho tomou a direcção da cathedral.

-- Que me dizeis a isto, João Barradas? Manuelinho ouviu talvez que tereis de apparecer na taverna de Antão Vasques esta noite, e póde destruir este louco o edificio que tão bem começado levamos.

-- Não sei bem que responder-vos, Sizenando Rodrigues, não sei! Acaso não será Manuelinho tão demente como o suppomos, nós eborenses, tão faceis em julgar por apparencias? No entanto recordo-me de falarmos na taverna de Antão Vasques antes da chegada de Manuelinho. Este não podia ouvir o que dissemos.

-- Muito bem, disse Sizenando Rodrigues; mas, se vos apraz, entremos na sé. Aquelle romeiro...

II

A taverna de Antão Vasques

Onde ao domingo o lépido caixeiro

co'a loja do Patrão vae dando á sola.

TOLENTINO.

Devemos agora informar ao leitor da causa do descontentamento do povo eborense e que o levava, talvez a conspirar. Alcançada a fazenda publica portugueza, lembrára um nobre do reino a Filippe IV, ou ao seu valído, o Conde Duque de Olivares, um certo modo de desempenho, baseado em novos tributos. Tão facil se antolhou ao ministro castelhano a execução do plano, que sem demora ordenou por um decreto que Portugal pagasse annualmente quinhentos mil cruzados, havidos do povo por um systema de novos impostos. Por auctorisação das côrtes só podiam ser legalisados esses novos lançamentos; mas sem a sancção dos representantes portuguezes estes o foram. Havia n'isto um ataque aos foros e regalias portuguezas.

Governando o reino Margarida de Saboya, Duqueza de Mantua, e sendo seu ministro Miguel de Vasconcellos por cavilações de Diogo Soares, seu sogro, e mui querido do Conde Duque, por fórma tal choveu sobre o povo um sem numero de tributos, licitos ou auctorisados, e não auctorisados, que o descontentamento do povo foi subindo de ponto.

Começava a toldar-se o horizonte dos destinos portuguezes: acastellavam-se nuvens negras no céu do Alemtejo e do Algarve: approxima-se a tempestade.

Havia já muitos mezes que o povo de Evora murmurava descontente, e que até nas trevas preparava cauteloso o modo de sacudir o jugo castelhano. Em seu decurso o contará esta historia.

Não carregando aqui de negras côres o quadro dos vexames que nos fazia Castella, deixando na cathedral magestosa de Evora dous ou mais dos heroes que darão vida ás scenas que descreverei, convido o leitor a acompanhar-me até á Praça d'esta cidade.

A funcção acabára e a noile descêra sobre Evora invôlta no manto de estrellas. Não brilhava nos espaços infindos a travessa zombeteira dos amantes, a formosa lua de Portugal. Nas estreitas, tortuosas e mal calçadas ruas de Evora em 1637 não se dá um passo sem um certo cuidado e cautela. Como as demais cidades por aquelle tempo não tinha illuminação. Apenas aqui e além a lampada solitaria do algum nicho ou oratorio, dos que ainda hoje subsistem, espalhava nas sombras uns raios tibios e vacillantes, que mais serviam para apavorar a timidos do que para alumiar a resolutos.

Na rua do Raimundo e n'aquellas lojas onde hoje tem casa de pasto o sr. Maño, vivia n'aquelle tempo Antão Vasques, o mais afamado taverneiro da cidade de Giraldo. A taverna de Antão Vasques era a casa mais frequentada de Evora n'aquelle anno, não só pela classe mechanica, mas ainda pela media ou burgueza e porventura pela immediatamente superior.

Não são as lojas d'hoje as mesmas quo habitára o taverneiro Antão Vasíjues; mas, semelhantemente, uma serie de casas subterraneas se estendia da rua do Raymundo até á rua dos Touros.

Não se ligava n'aquelle tempo á palavra taverna a significação d'hoje em dia. Aquella era a hospedaria, a estalagem, o hotel, o restaurante, o café, o bilhar mesmo d'aquellas eras.

A tudo isto se prestavam as vastas accommodações, as alabyrintadas aposentadorias de Antão Vasques, que n'um andar superior áquelles lojões abobadados podia recolher pessoas de todos os calibres sociaes.

Entremos n'estas lojarias e vejamos.

A um lado vociferam já cinco individuos sentados a uma comprida meza em que, pelos copos e pichel, parecia haverem ceiado. Eram homens do povo.

Além mais falavam em máo castelhano tres sujeitos, que pareciam italianos industriosos. Na segunda loja, meio encoberto por uma cortina e sentado a uma outra meza pequena, um só homem apoia a cabeça pensativa nas mãos compridas e ossudas. Quando alguem perpassa, como que desperta para reconhecer, voltando á meditabunda posição.

Em volta d'esta segunda loja outros comiam, conversavam ou jogavam as cartas. Um grande lampeão pendente do tecto alumiava escassamente esta casa, da qual havia para o andar superior uma escada de madeira.

Uma terceira casa immediata era a adega, e na quarta estava a cosinha.

O falatorio de toda aquella gente, o azafamado dos moços servindo aos freguezes, o tinir dos copos, o ruido do ferver das panellas e cassarolas davam tal animação aquella casa, offereciam interesse tão variado, que melhor escola não podia ter para seus estudos o pintor, o philosopho e o poeta.

Já entrando por uma já por outra porta das que davam para as duas ruas, viam-se individuos rebuçados nas longas capas, espada á cinta e chapeu de plumas e abas largas sobre o rosto, que, depois de cortejarem aos circumstantes, subiam pela escada de madeira para o pavimento superior.

Quando subiram dous, que parecia serem ou conhecidos ou esperados do homem cogitativo, este ergueu-se, e, sahindo do cubiculo onde estava, tomou a direcção da mesma escada que communicava os dois andares.

Era Manuelinho, o dizidor de Evora, que nas aposentadorias de Antão Vasques habitava um quarto no segundo pavimento, havia já alguns annos.

Ao começar a subir a escada, viu assomar á porta da primeira loja, entrar n'ella e caminhar para a segunda, em que se achava, um romeiro de Sant'Iago de Galliza, que, dirigindo-se ao dono da casa, lhe pediu em castelhano pousada para aquella noite.

Manuelinho desceu, em vez de subir, para voltar ao seu quarto de cortinas, que mais fechou sobre si.

Quem attentasse no rosto do famoso dizidor de Evora, notaria n'elle uma contracção geral e sinistra, a palidez do que sente affluir-lhe ao coração o sangue das veias, um sobrecenho terrivel.

O romeiro ou não reparou n'elle ou não o conheceu. Depois de breve pratica com Antão Vasques saiu, dizendo simplesmente em voz perceptivel:

-- Buenas noches. Hasta luego señor mio.

Manuelinho saiu do seu esconderijo, viu sair o romeiro e subiu rapido a escada do segundo andar, ou, melhor, primeiro.

Um corredor comprido, abrindo portas para dous lados, tal era a divisão d'este pavimento, a que subira Manuelinho. Á luz de um lampeão suspenso do tecto, vejamos, leitores, onde se dirige o notavel bobo de Evora. Chega á porta n.º 6, escuta e bate em seguida por modo convencional. Aberta, Manuelinho penetrou por ella, fechando-a sobre si.

Era uma casa bastantemente espaçosa para conter trinta ou quarenta pessoas. Guarneciam-na cadeiras com espaldas de couro e no meio tinha uma meza grande de pau preto com pés salomonicos. Pouca luz havia n'ella, porque apenas uma véla, posta na arandela de uma bugia, mais enchia aquelle espaço de sombras indecisas do que de luz.

Quando Manuehnho entrou estavam alli oito homens.

III

Temor de um fantasma

Que lindas barbas nevadas

Aquelle velho não tem!

PALMEIRIM.

O famoso convento dos franciscanos em Evora, notavel por sua formosa egreja, onde se admira a resolução de um difficil problema de mechanica, e onde ainda hoje existe a Casa dos ossos, assim chamada porque de caveiras, femures e tibias humanas são feitas suas paredes, tão demudado está, tão privado de muitas fabricas parciaes, que quem alli entrar, e desconhecer o passado d'aquella casa, fará um acanhado juizo das que foram vastissimas officinas, mercês e dadivas de reis.

Entremos n'elle como em 1637 existia. Boa occasião se nos depara. Abre-se a portaria para receber um individuo que açodadamente tocou a campainha. São dez horas da noute do dia 2 de fevereiro de 1637.

-- Dizei a fr. João Palhares que hei mister falar-lhe sem demora.

-- Quem lhe direi que sois?

-- O Encoberto.

-- Comtudo....

-- Ide-vos prestes. Não façaes reflexões.

Tal foi o dialogo rapido entre o porteiro de S. Francisco e o sujeito que tocára a campainha. Era elle um homem de mais de cincoenta annos, a pesar do alizado das faces e do brilho dos olhos. Com tal imperio mandou aviso a fr. João Palhares, que o porteiro attonito e medroso, ao ouvir annunciar o Encoberto, mais cuidou de lhe mandar ao encontro o frade, do que arrostar elle com a alma de el-rei D. Sebastião, que outrem não suppoz podesse ser o desconhecido que se dizia Encoberto.

E razão tinha o porteiro de S. Francisco para suppôr que á porta do seu convento bateria o perdido D. Sebastião; porque os jesuitas em Evora, nas cadeiras da Universidade, no confessionario, no pulpito, nos escriptos, em tudo, astuciosamente divulgavam a crença do principe encoberto, que viria imperar em Portugal a contento de todos, engrossando d'este modo a seita, já numerosa, dos sebastianistas.

Fr. João Palhares não se fez esperar muito: assomando a uma porta que dava para o interior do convento e para a portaria, cara de pascoas, caminhou de braços abertos e passos medidos ao desconhecido, dizendo:

-- Bem vindo sejaes á casa dos pobres franciscanos de Evora. Entrae.

-- Rica em virtudes e fiel a seu soberano, respondeu o recemchegado. E entraram no convento.

Ao atravessarem a claustra, deserta e silenciosa áquella hora, o Encoberto parou, dizendo para o frade:

Acaso haverá n'esta casa quem nos possa trahir? quem possa divulgar minha entidade?

-- Por Deus, que não: porém, tal pergunta...

-- Quer dizer que haveis um porteiro de inspirar bem pouca confiança; curioso, indiscreto talvez...

-- Não hajaes temor, que todos n'este convento sabem como é punida a indiscrição... Mas, vós a tal hora n'esta casa, quando haviamos combinado estardes agora na taverna de Antão Vasques?..

-- Para vol-o explicar vim.

-- Subamos á minha cella, que o írio aqui n'estas arcadas é sempre intenso.

A cella de fr. João Palhares, a começar pela porta estreita, em tudo o mais guardava as proporções architectonicas. Acanhada, com pouco pé direito e escassamente alumiada por uma pequena janella durante o dia, e agora por um grandissimo candieiro de latão branco de tres lumes, pouca mobilia continha.

Seis escabellos forrados de veludo antigo, uma cadeira de braços, uma mesa com alguns livros, tinteiros de zinco e pennas de pato bem enramadas, o leito de fr. João na alcova proxima e alguns paineis de santos pelas paredes, tal era a mobilia do Guardião de S. Francisco de Evora.

A convite de fr. João Palhares o desconhecido sentou-se na cadeira de braços e elle proximamente n'um dos escabellos.

-- Falae ora sr. D. Miguel de Salamanca; que succedeu?

-- O disfarce que tomei acoberta-me da curiosidade; mas, ainda assim, fui hoje seguido na cathedral por um homem que eu suppunha morto, por um disfarçado inimigo meu...

-- Que dizeis? E conhecer-vos-ia? Quem é esse?

-- Oh ! o seu nome, o seu nome não devo eu pronunciar, que o recordal-o é ver surgir ante mim o fantasma do remorso, o demonio da vingança...

-- Segredos e mysterios são que devo respeitar; mas, conhecer-vos-ia esse homem?

-- As longas barbas que me desfiguravam, a esclavina que me cobria supponho não dariam logar a ser conhecido, com tudo temo...

-- Importa todavia saber quem é esse homem para, no caso de vos haver conhecido, o peiarmos como convém, ou pôrmos a bom recado. Dae algum esclarecimento de sua pessoa.

-- É um homem alto e magro, de feições distinctas, e traz as barbas cortadas.

-- Esses signaes... Dizei-me: elle falou-vos? o que disse? Andava só?

-- Nada me disse e sem companhia o encontrei.

-- Póde ser, disse fr. João Palhares, porque me disseram ser elle um instrumento perigoso nas mãos dos Collegiaes, mais perigosos ainda.

-- Quem é, porém, esse tal?

-- É um dizidor das praças e ruas, um jogral sem juizo que por ahi diverte o rapazio com suas truanices e desconchavos.

-- E chamaes perigoso a um homem assim?

-- Sem duvida, e muito; porque, de envolta com suas boberias, proclama sem imputação doutrinas politicas e subversivas ao sabor das turbas, que folgam ouvil-o.

-- Quanto a mim, julgo sem importancia as falas d'esse bobo; mas, se vós o julgaes de contrario modo, mandae-lhe pôr uma mordaça na bôcca, no que fareis um bom serviço a el-rei.

-- Isso faremos quando mister. Agora convém que vades á taverna de Antão Vasques, onde se aloja e esconde o descontentamento popular representado por um borracheiro e por um barbeiro de espadas. Observae bem todos e tudo, e quiçá sereis mais feliz do que eu, que alli tenho entrado disfarçado sem lograr colher á mão o fio da trama.

-- Já hoje alli entrei e pedi a Antão Vasques pousada por esta noute. Volto, pois, ao meu trabalho de observação.

-- Mas, parece-me que deveis ir disfarçado, porque já nessa taverna topei um dia o Manuelinho.

-- E quem é esse Manuelinho de quem falaes?

-- Manuelinho é o truão que supponho haver-vos observado na sé.

-- Bom fôra não encontrar mais tal fantasma que, se me não enganei, e de facto me chega a conhecer, ou teremos nós de o mandar de presente a satanaz ou de me bater eu com elle em duelo de morte. Mas, pelo que dizeis, não póde ser elle.

-- Singular caso é esse, sr. D. Miguel de Salamanca. Ide vós á taverna de Antão Vasques; e, se com effeito esse homem que vistes for o que não desejaes, attrahil-o-emos a este convento, onde seus ossos poderão vir juntar-se aos que ahi temos na capella; que um duelo, e de morte como dissestes, deve ser impossivel entre um nobre de vosso sangue e um obscuro plebeu.

-- Nessa parte vos enganaes, fr. João Palhares: o melhor sangue de Portugal lhe percorre as veias; de modo que, se por um mysterio para mim inexplicavel, elle for, e me chega a conhecer, não poderei esquivar-me a cruzar com elle as armas, sem quebra do pundonor da nobreza de Castella.

-- Pois bem, evitae quanto poderdes esse encontro; desfarçae-vos e correi lá.

E o desconhecido desdobrando as engenhosas vestes que trazia, com espanto do attonito frade, e pondo no rosto umas longas barbas brancas, de prompto ficou transformado em romeiro de Sant'Iago de Galliza, a quem só faltava o bordão e as sandalias.

-- Assim disfarçado ninguem vos conhecerá. Tendes armas?

-- Tenho. E o que se annunciára Encoberto ao entrar a portaria do convento de S. Francisco, mostrando um buido punhal a fr. João Palhares, ia sair d'elle por fórma disfarçado que a ninguem seria facil descobrir-lhe a dupla personalidade.

-- Falta-me apenas o bordão e as sandalias que tenho nos aposentos que me destinastes, continuou o desconhecido. Se vos apraz entremos n'elles.

Minutos depois d'este dialogo na cella de fr. João, o desconhecido saia a portaria do convento, deixando boquiaberto o porteiro, que não vira entrar similhante individuo, com esta despedida singela:

-- Buenas noches, hermano.

Em quanto o desconhecido, a quem fr. João Palhares chamára D. Miguel de Salamanca, se dirige á famosa taverna de Antão Vasques, na rua do Raymundo, continuemos nós a urdir o entrecho d'esta breve historia.

IV

Amores

Dois filhos tinha o bom velho,

orphãos do materno amor

desde innocentes.

THOMAZ RIBEIRO -- D. Jayme.

Entre os muitos castellos feudaes, que atalaiavam a raia portugueza antes de D. João II, e que subsistiram depois como sentinellas da liberdade portugueza, que olhavam torvas a orgulhosa Hespanha, via-se em 1637 o castello roqueiro de Pena de Alfange, fundado por Estevam da Gama, nas margens do Guadiana, deshabitado, e já meio arruinado pela acção do tempo e talvez dos homens. Defronte, como a grande ossada de um elefante, erguiam-se e miravam-se no rio as paredes denegridas de um castello hespanhol. Quem assim os contemplasse fronteiros e arruinados, um mais do que outro, parecendo haverem nascido na mesma épocha, amentaria sem duvida os melhores dias d'aquelles guerreiros de pedra, e sonharia talvez para explicar o estado do castelhano alguma reivindicta ou desaffronta dos nossos. E perder-se-ia n'um mar de incertezas se quizesse rastrear-lhe a causa.

Na verdade, n'aquelle castello habitaram outr'ora duas familias nobres, eguaes na pureza do sangue mas rivaes nos desejos e nas ambições. Passaram, volveram ao abysmo preterito e não deixaram por ventura representantes nos dous povos. Nada se podia, pois, saber. O Guadiana, na sua constante passagem, murmura talvez a historia d'aquelles castellos em sua linguagem só entendida dos salgueiros das margens.

Não fique, porém, o leitor ignorante do passado viver d'aquellas casas. Attenda:

Depois do combate de Aljubarrota, Portugal e Hespanha juraram-se rivalidade eterna, se anteriormente o não haviam feito já. Respeitavam-se e temiam-se, fortificavam-se e luctavam, maiormente nas terras da raia. Mas se o amor da patria erguêra uma barreira de odios como linha divisoria dos dous povos, não podera, comtudo, levantar muralhas de indifferença entre os corações portuguezes e hespanhoes. É que para esse fluido, attractivo d'almas e de affectos, não basta para se lhe oppôr a incoercibilidade, o amor do torrão natal, a affeição aos logares que primeiro vimos. Filho da liberdade, o amor da patria tem uma razão de ser na missão de combater a escravidão. Não assim o amor, que na essencia é liberrimo e insubjugavel, e não carece, portanto, de combater inimigos da patria, que não tem, por que é cosmopolita.

Dous combates, duas luctas entre o amor da patria e o amor das almas, se feriram sangrentas nas margens do Guadiana pelos annos de 1600.

Tinha o castello de Pena de Alfange, Christovam da Gama, neto do fundador, por el-Rei D. Filippe III, que nos dominava ainda. Viuvo, este fidalgo vivia alli com dous filhos: Mendo e Leonor. Era o filho um moço esforçado e brioso, a quem seus maiores com o sangue haviam transmittido os sentimentos do amor da patria e odio a castelhanos. Amadurecido pela educação guerreira d'aquelles tempos, representava vinte e cinco annos de edade, contando apenas dezoito a vinte. Alto, feições nobres e distinctas, barba preta e macia, maneiras gentis e falas attrahentes, tal era o conjuncto de suas qualidades physicas. Leonor, sua irmã, era mais nova dous annos. Bem talhada de fórmas, rosto sobre o comprido, cabellos louros, olhos azues maviosamente ensombrados por longas pestanas, eis Leonor exteriormente olhada. Moralmente descripta era extremamente boa. Obediente á vontade paterna, docil e meiga, Leonor nascêra formosa para adoçar o viver dos seus, e embalsamar de aromas de ventura a existencia do homem que primeiro lhe tingisse as faces d'aquelle rubor casto, e puro e sem egual, que nas faces da donzella exprime o primeiro bater jubiloso do coração apaixonado. Como o ouro se acendra pelo fogo, Leonor era o typo da mulher goda, esbelta e donairosa, acrysolado por mais de vinte gerações.

Além do rio vivia o castellão Manoel de Vilhena, na sua fortaleza de Cheles.

Mostrando os dous lados, as duas faces que tudo tem, ao odio das duas raças oppunha-se a affeição de Leonor a Manoel de Vilhena. Era este um galhardo fidalgo de Castella. Trinta annos contaria de edade. Leonor, que no seu isolamento só via aquelle homem a quem podesse consagrar amor, sem quehra da pureza do sangue, sentiu um dia que se lhe gravára n'alma a imagem d'elle por fórma, que nas caçadas, nos passeios, na oração, em toda a parte o via sorrir a seu lado. Era-lhe grata aquella doce perseguição, era-lhe familiar já tão querida companhia; mas, uma nuvemsinha apparecia sempre no céu de sua ventura, quando em devaneios amorosos praticava com elle e chegava a suppôr-se já reclinada em seus braços, como sultana sem rival em diwan fofissimo: era a desaffeição de seu pae e de seu irmão áquelle amor nascente, se chegasse a manifestar-se, e a ser conhecido. E Leonor callava aquella affeição, não manifestava de modo algum, julgava ella, a labareda em que seu peito ardia. Se ás creadas o não communicava, ainda ás mais intimas, se nem em sonhos soltava o nome de Manoel de Vilhena, se aquella affeição de Leonor ao fidalgo castelhano tinha sómente um culto íntimo, se nem ás brisas aromaticas do jardim entregava o doce nome, um certo ar de melancolia, um certo cuidar sem bem se saber em que, uma certa pallidez, que nem as tintas reproduzem, mostrariam ao experiente, ao conhecedor do coração humano a causa verdadeira dos cuidados de Leonor.

Rarissima era n'aquelles tempos a molestia que hoje em dia se inocula, por assim dizer, no germen da vida, e, ao modo de um flagelo de Deus, similhante á peste, alastra de cadaveres as cidades e até mesmo aldeias, enchendo de vidas cortadas ou em botão ou já em flor tantas e tantas sepulturas!.. A tisica, era rarissima, como disse; mas, victima sua fôra a mãe da bella Leonor, e tanto o pae como o irmão ao vel-a assim desbotar, ao verem-lhe assim trocadas as rosas da face pela palhdez do jasmim e pela roxa côr do brio, entristecidos lembravam apenas que a donzella herdasse da mãe a terrivel doença. Outra cousa não lhes podia de modo algum lembrar. A ideia de uma paixão nem fugitiva lhes atravessava a mente.

Paixão?! Por quem, e como nascida? se Leonor creada sempre alli nunca falára a homem algum, que lhe podesse fazer vibrar cordas intimas? A Manoel de Vilhena nunca ella falára, oppondo-se a educação d'aquellas eras a que Leonor podesse ou consentisse em se affeiçoar a qualquer peão, seu servidor.

Manoel de Vilhena, por sua parte, vendo todos os dias Leonor, ou assomar ás janellas do seu castello, ou passeiar em seus jardins notára-lhe por vezes a belleza, é certo; mas, sem que essa attenção fizesse differença do culto que todo o homem dá á mulher linda, como se demora a contemplar a rosa no rosal em cada maio.

Após um dia formosissimo de março esplendia uma noute serena, em que os raios da lua alumiavam desvendados as campinas, reflectindo-se nas aguas do Guadiana, que na sua tremente passagem similhavam um rio de prata derretida. Manoel de Vilhena, como todos, ou quasi todos os fidalgos de então, tanto portuguezes como castelhanos, cultivava ainda a poesia. Os dous Cancioneiros o comprovam. Qs seus vilancicos e balladas eram conhecidos nos castellos, cantados das damas, sabidos de todos. Torneios e festas, saraus e danças, amores e prazeres, eis os themas, a inspiração d'aquellas eras, como d'hoje e de sempre. Acompanhado de um pagem, seu confidente, Vilhena entrára n'um barco para se deixar embalar na preguiçosa corrente do rio, para beber á farta inspiração poetica, na luz da lua, no ciciar da briza, no marulhar das aguas.

Não presentira Leonor o vogar do barco nas aguas do Guadiana, nem a seus ouvidos chegaram as harmonias do alaúde que Manoel de Vilhena dedilhava. Estranhando não ver além, de fronte, a costumada luz nos aposentos de Vilhena, sentira-se triste; e, por dar saida do peito a tristezas, sentára-se a uma janella gemeada de sua camará, e cantára ao som de um bandolim, que tangia, esta sentida canção:

Tem a lua no céu companhia

Nas estrellas que a cercam ás mil,

A avesinha na balsa sombria,

Cruas feras no tetro covil.

Eu, coitada, aqui vivo sosinha

Sem affectos contar de ninguem,

Infeliz, desditosa e mesquinha

Sem ao menos carinhos de mãe.

Tudo em volta de mim tem amores,

Tudo dá e recebe affeições,

Até mesmo as balsamicas flores

Desfazendo-se em exhalações.

Aguas claras que amaes murmurantes

Os salgueiros, a brisa e a flor,

Quanto invejo, ó aguas amantes,

Vossa sorte, ventura e amor!

Ouvira Manoel de Vilhena aquelle cantar de Leonor, que para elle fôra como a faisca que põe fogo á mina destruidora. Só lhes faltava, para complemento da sua poetica inspiração, ouvir aquella voz maviosa da donzella. Deixou logo expandir o sentir de sua alma, vibrando as cordas de seu alaúde, nesta ballada sentida :

Vês essa estrella que acompanha a lua

Ora mais perlo, ora mais distante?

Sou eu que sigo essa imagem tua,

Sou eu, ó virgem, teu fiel amante.

Tal como ás aves, ás cruentas feras

Da mesma especie lhe responde o par,

Feliz eu fôra se acceilar quizeras

Estes meus versos, este meu cantar.

Não te lamentes, infeliz donzella,

Tambem eu novo minha mãe perdi:

Não te lastimes por que em logar d'ella

Tens a minha alma a suspirar por ti.

Oh! não invejes esse amor das aguas

Á brisa, á margem, á modesta flor,

São ellas symb'los de cruciantes magoas

Feliz não póde ser o seu amor.

Logo que a briza do rio lhe trouxe as primeiras notas, e ao modo por que ellas se repetiam, successivamente se desanuveava o peito oppresso de Leonor, que, debruçada no peitoril da janella, hauria, sedenta de affectos, aquellas ondas de harmonia, ouvindo pela primeira vez a voz de Manoel de Vilhena.

Tão grande fôra para Leonor aquella surpreza, que, tomada de um tremor nervoso, caira afflicta no assento, ao terminar a derradeira nota do alaúde mysterioso. Leonor não vira a pessoa que cantou, não lhe conhecera a voz e nem podera precisar o logar d'onde ella saira, julgando apenas que sería do sobpé do seu castello.

Por sua parte Manoel de Vilhena, ao terminar a canção de Leonor, determinára-se a responder, não tanto por afinar com ella, como por se divertir a si; não tanto por pleitear amores, como por brincar com a filha de Christovam da Gama.

Fatal irreflexão fôra aquella. Póde alguem brincar com o fogo que se não queime? Um simples passatempo origina e occasiona ás vezes grandissimos desgostos.

V

Ainda amores

E o barqueiro hia cantando

Não sei que saudosas mágoas...

CASTILHO -- Amor e melancolia.

Similhante á Hero da Mythologia, Leonor, que suppunha ser aquella voz a de Manoel de Vilhena, permanecera longo tempo ainda sentada á sua janella, ora pairando a vista sobre o rio, d'onde a briza lhe trouxera aquellas harmonias, ora cravando-a no castello fronteiro, onde não via brilhar a costumada luz nos aposentos de Vilhena.

Aquelle, por sua parte, recolhêra-se ao castello com a satisfação do homem que julga haver zombado da mulher a quem não dispensa amorosos affectos, antes, orgulhoso, se ufana com a stulta gloria de se crêr amado por ella, e por um platonismo desnatural, despreza os encantos da mulher.

Deitára-se tarde, porque estivera longo tempo ainda sentado á sua janella contemplando o vulto estatico de Leonor que, além, defronte, parecia não tirar os olhos dos aposentos de Manoel de Vilhena. Mal pensaria elle que o puro gracejo com a filha de Christovam da Gama fôra a primeira setta que arrancára das mãos do amor para a cravar em seu peito! Tormentosa lhe corrêra a noite com um pesadelo afflictivo. Afigurára-se-lhe ver debulhada em lagrimas, apaixonada por elle, doente, a bella imagem de Leonor, soltas as tranças bellas, cavadas as faces, pallido e triste o semblante, arguindo-o do mal que lhe causára, pagando-lhe com singular ingratidão aquelle affecto purissimo.

Rompêra a manhã. Manoel de Vilhena, para quem o leito fôra tormentosa catasta, erguêra-se quando os primeiros raios do sol lhe penetraram nos quartos. Abrindo as janellas do seu erguido aposento, e crendo que por brinquedo ainda procurava ver Leonor á janella de sua camara, o fidalgo castelhano era já forçado áquelle madrugar, áquelle procurar ver a imagem de Leonor, por uma necessidade de seu coração, que suppunha não existir. Estava apaixonado por Leonor da Gama.

Tomou rapidamente proporções enormes aquelle sentimento, que tão singular nascêra, que tão caprichosamente se manifestára. Buscou approximar-se de Leonor, diligenciou falar-lhe, poz todo seu cuidado em dizer á castellã portugueza que a amava, a despeito da rivalidade de raças, a despeito do desagrado de seu pae e de seu irmão, a despeito de tudo.

Adiantava-se o dia e as janellas da camara de Leonor permaneciam fechadas. Isto, que para elle seria indifferente no dia anterior, isto em que elle não attentaria antes de responder á sentida canção de Leonor com outra, era agora causa para uma certa inquietação, era agora incentivo para desejar conhecer a causa de não ver assomar Leonor á sua janella gemeada. Homem de expediente, Vilhena chamou um pagem seu amigo e disse-lhe:

-- Hei mister saber quanto antes a razão por que a filha de Christovam da Gama ainda hoje não appareceu em suas janellas.

-- Porém, observou o pagem, sabeis que não é facil o desempenho de tal missão. Gomo sabel-o? A quem perguntal-o?

-- Entende-te com alguem d'aquella casa: não tractas com pagem algum de Christovam da Gama?

-- Apenas os conheço de vista. A rivalidade dos senhores exige indifferença, pelo menos, dos servos.

-- Ahi tens ouro, acaria um com elle, compra-o: E o fidalgo hespanhol entregava ao pagem uma bolsa com dinheiro.

-- Senhor D. Manoel, o negocio que me confiaes é de difficil realização. Notae bem que se não compra um portuguez facilmente...

-- Ide-vos, respondeu Vilhena exaltado. Com ouro compram-se portuguezes e castelhanos, com ouro te compro eu a ti a má vontade. Terás um bom premio quando voltares com a noticia da causa do desapparecimento de Leonor. E ao complemento de um imperioso aceno do fidalgo, o pagem partiu, de facto.

Tinha razão Manoel de Vilhena. Tinha razão o castelhano que sabia que uma das armas com mais proveito manejada no decrepito reinado do Cardeal D. Henrique, e depois d'elle no dos Governadores do reino, fôra o ouro com que se compraram vontades e se conseguiu manietar um povo que abraçára dous mundos nos braços de bronze.

Duas horas depois, Manoel de Vilhena galardoava os serviços do pagem, que lhe dizia que Leonor da Gama estava doente e de cama; que passára mal a noite; que tinha febre ardente e que se havia chamado um physico para atalhar o progresso da doença, que tinha cuidadoso por sua saude seu pae e seu irmão.

Entristecêra-se o semblante do fidalgo: e, procurando explicar a doença repentina da bella Leonor, ignorante do que se passava no coração d'ella, julgava que o fresco da noute, a que até tarde estivera exposta sería a causa unica da doença da castellã.

Volveu longo para Manoel de Vilhena aquelle dia.

Da mesma fórma no dia immediato appareceram fechadas as janellas de Leonor. A doença persistia em sua obra de destruição. Para ter d'isto a certeza ordenou ao pagem que voltasse, levando d'esta vez um papel que devia fazer chegar ás mãos de Leonor, no qual Manoel de Vilhena, não conhecendo a causa do padecimento d'ella, não sabendo se sería amado, ou ao menos não aborrecido, escrevia já com aquella deliberação que só lhe podia dar o amor que sentia á bella portugueza: -- Formosa Leonor; Costumado a ver-vos todos os dias de manhã ás janellas de vosso quarto, sinto-me triste desde que vos não vejo. Não sei explicar bem a causa d'isto. Sei que tenho o peito em trevas, que é noite em minh'alma, que só terei contentamento e alegria quando vir apparecer vosso corpo esbelto ás ventanas de vosso castello.

E, como se lhe fôra familiar aquella correspondencia, nenhuma desculpa lhe pedia, nenhuma cautela lhe aconselhava. O pagem partiu.

Como é natural, Vilhena mais inquieto ficou do que no dia antecedente, mais ancianle pela volta do pagem. Este chegou mais tarde; demorára-se mais por que lhe fôra custoso levar o pagem portuguez, com quem se entendêra, a dar mais do que informações da saude de sua senhora. Não podia elle levar o papel a Leonor, foi-lhe preciso amaciar, com promessas e dadivas logo, a vontade asperrima de uma aia de Leonor.

O pagem voltou, pois, com a noticia de que Leonor continuava doente e de que o seu escripto lhe sería mostrado.

Correu similhantemente ao anterior aquelle dia para Manoel de Vilhena. Debalde esperou que se abrissem as janellas dos aposentos de Leonor. Approximára-se a noite; e, Vilhena, como Leandro d'Abydos, descia ás margens do Guadiana, não para luctar com as aguas tranando o rio para o outro lado, mas para se approximar do castello de Pena de Alfange no seu barco movido a remos.

Mandando remar para a margem opposta, o fidalgo castelhano soffria cada vez mais; por que nenhum ruido, nenhum écho, nenhuma luz percebia no castello portuguez. -- Sinistro silencio!... disse elle, e mil conjecturas tristes lhe brotavam da mente fertil, como succede em transes assim. Approximando-se muito das rochas em que pousava o castello, por espantar seus males, começou a cantar tristemente estas coplas portuguezas de Christovam Falcão:

Coração, já repousavas,

Já não tinhas sujeição,

Já vivias, já folgavas,

Pois por que te subjugavas

Outra vez, meu corarão?

Soffre, pois te não soffreste.

Na vida, que já vivias,

Soffre, pois tu te perdeste,

Soffre, pois não conheceste

Como te outra vez perdias.

Soffre, pois já livre estavas,

E quizeste sujeição;

Soffre, pois te não lembravas

Das dôres, de que escapavas;

Soffre, soffre, coração!

Apenas acabára de cantar, apenas as vibrações das ultimas notas se afastavam levadas nas auras embalsamadas dos jardins de Leonor, o ruido de um leve corpo caído no bordo do barco e depois nas aguas o sobresaltou por fórma, que não procurou logo conhecer que objecto era aquelle que lhe caíra sem duvida do alto do castello de Pena de Alfange. Instantes depois, diligenciou procurar o corpo que caíra. À luz da lua viu ir levado na corrente do rio um papel dobrado. Já lhe não chegava, vogou para elle rapido, como sofrego e apressado corre o faminto ao pão que lhe falta, o sequioso á gota d'agua que o alimentará, o naufrago á taboa solta nas ondas encapelladas, á felicidade todo o que se julga desgraçado e a suppõe encontrar. Tomou e leu o papel á luz brilhante da lua, que n'aquella noite era admiravelmente esplendida: -- Deus vos pague, cavalleiro, o bem que me fizestes. Sede cauto e voltae.

Deixemos Manoel de Vilhena feliz com a leitura d'aquelle papel, e penetremos no solar e castello de Pena d'Alfange. Não ha pontes levadiças que nos tolham a entrada. Apenas uma fortissima porta de carvalho, chapeada de grossas cintas de ferro, nos podia vedar o ingresso se não estivera aberta.

De um grande pateo quadrilongo para o primeiro pavimento do castello ha uma escadaria de marmore; subamol-a. Penetremos agora o palacio e fortaleza.

O pavimento nivelado com a extremidade superior da escada é já habitação dos nobres Gamas, havendo um segundo andar, mais elevado, onde são os aposentos da bella Leonor,

Do primeiro pavimento em que entramos ha uma escada de caracol para outro inferior, e d'este, communicação ainda para um terreo e sem luz, que servia de prisão a refens ou prisioneiros plebeus, e que ficava já ao nivel do Guadiana.

Por uma disposição commum a muitas casas fortes antigas, o castello de Pena de Alfange tinha no andar subterraneo uma saida para o Guadiana. Sem duvida para evacuar o castello em caso de cêrco, ou para sortida hostil contra o inimigo, aquella saida estava já como esquecida : apenas um velho servidor conhecia o meio de abrir-lhe a ferrea porta, consistente num segredo de mechanica, que substituia achave.

Dividido em tres corpos principaes, os dous mais fortes eram os lateraes do castello: o do meio era a parte nobre e habitada pelos Gamas. Subamos ao andar que habita Leonor.

São dez horas da manhã. N'uma sala anterior á camara de Leonor, conversa o physico d'esta com o fidalgo Christovam da Gama:

-- Não tenhaes receio, senhor, que vossa filha melhora ha dous dias consideravelmente.

-- Não serão, porém, falsas essas melhoras? Herdaria Leonor da pobre mãe o mal que tão moça e linda m'a arrebatou?

-- Quasi vos posso affirmar que não; e, se discreto fôra manisfestar-vos o que a tal respeito sinto...

-- Nunca jamais sereis indiscreto: falae.

-- Vossa filha tem amores a alguém, e antevejo nessa affeição contrariedade que lhe póde ser fatal.

-- Ainda tal cousa me não havia occorrido. É possivel; mas, a quem se affeiçoaria Leonor? nenhum mancebo aqui entra... Acaso algum peão abjecto... oh! mas ai do louco que se atrevesse a mirar tão alto! disse Christovam da Gama exaltado.

-- Não me parece caso para vos exaltardes: que certeza havemos nós do que apenas é uma conjectura minha? O que julgo acertado é indagar cautelosamente d'esta minha suspeita, e, em caso affirmativo, dar ao negocio a melhor direcção.

-- Pois isso farei; mas, ai de ambos se esqueceram as leis da nobreza d'estes reinos, os sentimentos de honra de meus antepassados!

Em quanto este dialogo se alterna na sala contigua aos aposentos de Leonor, vejamos se poderemos ver o que se passa n'estes.

Leonor está sentada no leito, soltas as transas bellas, pallido ainda o rosto mas satisfeita e feliz. A seu lado, sentada n'um tamborete, a velha Joanna Mendes, sua creada antiga, sustem nas mãos uma almofia de fino barro, de que Leonor tirára sufficiente porção de aromatica e substancial assorda, que almoçava com bom appetite.

-- Já me soube bem, minha Joanna, esta bella sopa: estou quasi boa. É muito entendido o nosso physico; não te parece?

-- Ai! é, é; e eu também, pois não é verdade?

-- És, sim; minha boa amiga, disse Leonor, sorrindo formosissima, e como quem alcança a extensão do dizer da velha.

-- Queira Deus não se venha isto a saber, Leonorsinha, que não sei o que será de nós todas.

-- Ai! não receies, minha velha mãe, porque quando meu pae souber d'este amor, espero em Deus que esteja meio reconciliado com Manoel de Vilhena, e que o meu casamento com elle acabe de vez com esta rivalidade que, a bem dizer, não tem justificação.

-- Mas a menina ainda lhe não falou e não sabe, por certo, que ideias serão as d'elle. Quem nos diz a nós que Manoel de Vilhena queira sómente zombar da menina e de seu pae e de seu irmão? Ai Leonorsinha, desconfie dos hespanhoes inimigos.

-- Tens alguma razão, tens, minha boa Joanna: mas, como lhe falarei eu? Não te occorre nenhum meio? Se eu lhe podesse falar, certificava-me do seu intento. Ajuda-me.

-- Eu sim! Só se fosse o Lopo, que me pediu com muito segredo para lhe entregar a carta que sabe.

-- E tu pedes-lhe isso, sim? minha boa mãesinha ?

E Leonor, que chamava a Joanna Mendes a sua boa mãe, por esta a ter creado desde menina, abraçava-a e beijava-a com ternura.

- Veremos, veremos. Adeus: nada de tristezas e de scismas. Eu já fui nova e por experiencia sei que não faltam adoradores á mulher linda. Olhe, filha, não sei se digo bem se mal; mas, parece-me que não é natural gostar a gente de uma só pessoa, como eu sei que não gosta só de uma flor nos seus jardins. Nada de scismas, nada, e adeus até logo.

Joanna Mendes saiu e Leonor da Gama ergueu-se, penteou-se e assomou ás altas janellas do seu castello.

VI

Ultimos amores

«O facho seductor tinha accendido,

«Que de meta servia ao terno amante;

«oh! quantas vezes sibilando o vento

«Apagal-o tentou, talvez prevendo

«A scena infausta queimminente estava!

NOBREGA -- Rimas.

Se restassem duvidas no espirito de alguém ácêrca da influencia do dinheiro, se alguém houvesse que duvidasse do seu poder corrosivo podia aprender n'esta historia. O ouro do senhor de Vilhena, habilmente ministrado aos servos da casa de Christovam da Gama, não só lhe abriu as portas do castello, mas approximou-o até de Leonor, como se vai ver.

O velho Lopo, combalido por Joanna Mendes, a quem mais do que a affeição que tinha á castellã demoviam a sêde do ouro castelhano e o desejo de o possuir, abriu uma noute a Manoel de Vilhena aquella porta de ferro que ficava á flor do Guadiana e servira talvez em mais antigos tempos para sortidas hostis contra inimigos. Manoel de Vilhena penetrára por ella e subira ao primeiro pavimento do castello immediato ás humidas prisões, ao encontro da fascinada Leonor, da louca mariposa inexperiente que não sabia o perigo enorme que corria indo ao encontro do rival de seu pae e de sua familia.

Era aquella casa uma casa forte, cercada de armaduras antigas, de broqueis, espadas, montantes, lanças e toda a sorte de armas offensivas e defensivas, tanto antigas como modernas. Era o arsenal do castello.

-- Não comprometia ninguem, sr. Manoel de Vilhena, dizia o velho Lopo, que subia adiante. Respeite a innocente donzella, que vem ao seu encontro, e queira Deus que bem cedo eu tenha a satisfação maior de minha vida vendo no enlace de ambos desfeitos estes odios de duas familias tão importantes.

Ficae aqui e esperae. E assim falando Lopo desapparecêra por uma estreita escada de caracol para os andares superiores do castello.

Á luz de uma véla que lhe accendêra Lopo, Vilhena, comprimido o coração, anhelante, temeroso até, por que a ideia de uma cilada lhe adejou na mente, olhou em volta, approximou-se da escada por onde subira o velho, escutou, e, porque não ouvisse ruido algum, movido d'aquelle pensamento que o salteara de que a facilidade com que se lhe abrira o castello fosse um laço para o colher, desceu pressuroso ás prisões e d'estas correu á porta, que verificou estar aberta. Socegou: arrependendo-se, comtudo, de sua facilidade, e protestando ser mais cauto no futuro.

Entrar assim apenas armado de uma espada e só, na casa de um declarado inimigo, levado de uma allucinação que a seus olhos ainda não tinha uma causa conhecida, e que ora lhe parecia zombeteiro brinquedo com a innocente Leonor, ora verdadeira paixão amorosa, era loucura impropria de seus annos. Por vezes, em quanto esperou, lhe occorreu a ideia de sair, entrar no barco, que deixára na corrente preso á porta de ferro, e chamar para o acompanhar um ou mais de seus pagens escolhidos: conteve-se, porém, por que a cada instante lhe parecia ouvir o roçagar dos vestidos de Leonor descendo a escada de caracol, quando, em verdade, nenhum ruido se ouvia.

Era a consciencia, ou, melhor, o temor que lhe povoavam a estancia de ruidos de portas que se fechavam, de passos que se davam e ate de armaduras que se moviam.

Sentiram-se passos: d'aquella vez não era sonho da mente escandecida do fidalgo castelhano: alguem descia: mas alguem que lhe não parecia poder ser Leonor. Levou a mão á espada, collocou-se perto da passagem para os subterraneos e esperou que na extremidade da escada assomasse a pessoa que descia.

-- Recebeis-me de espada na mão, sr. de Vilhena!!.. Foram as primeiras admiradas palavras de Leonor ao ver o fidalgo na duvidosa postura ou de querer luctar ou de querer fugir.

-- Perdão, perdão, formosa Leonor, exclamou Vilhena, soltando o punho da espada e precipilando-se a ajoelhar aos pés d'ella, murmurando: não me parecia que fosseis vós...

-- Erguei-vos e não temaes, disse Leonor.

-- Ó formosura angelica, sonho meu idolatrado...

E, como impellido por uma força electrica, Vilhena e Leonor abriram os braços, e rapidos enlaçaram seus corpos n'elles, no anciar suffocante de seus corações apaixonados.

Occultam-se sempre as scenas amorosas aos olhares profanos. E isto por uma especie de egoismo que mui bem define algures Victor Hugo, o grande poeta, o grande pensador, talvez o grande visionario da França moderna:

L'oiseau cache son nid, nous cachons nos amours.

Deixemos, pois, gozar aos dous momentos de uma felicidade, que ao céu apraza seja duradoura.

Sôa uma hora da noite no campanario de Cheles: Manoel de Vilhena assoma á porta de ferro ao rez do Guadiana, salta no barco, que desprende, estende a mão a um vulto que ainda permanece á porta e diz:

-- Toma; não faltes ámanhã á mesma hora. A porta fechou-se, o barco vogou de mansinho ao brando mover dos remos, e o silencio e a callada da noite áquella hora imperaram nas margens do Guadiana.

Repetiram-se aquelles colloquios enlre os dous amantes, não podendo eu informar ao leitor se não dos esforços empregados por Leonor para demover Vilhena a pedir a sua mão ao austero portuguez Christovam da Gama.

Findára um bello dia de maio. Descêra a noite balsamica e harmoniosa, com o descantar lindissimo dos rouxinoes das margens do rio. Tocava o tempo com seu dedo invisivel as onze horas da noite. Uma luzinha brilhára além ao lume d'agua na margem opposta ao castello de Cheles, reíleclindo uma cauda de luz nas aguas em toda a largura do rio. Desprendia-se um barco dos muros do castello castelhano e vogava brandamente para o ponto luminoso, evitando na passagem a esteira de luz reflectida.

Era já grande o silencio áquella hora: apenas um ou outro rouxinol descantava nos jardins de Pena de Alfange as ultimas canções amorosas. A luz desapparecêra, o barco tocára a rocha do castello portuguez.

Quando Manoel de Vilhena saltou em terra e prestes entrava a porta do castello ouviu em cima, nas arvores do jardim, um breve ruido similhante ao esvoaçar de uma ave. Por isso o explicou sem mais reflectir, entrando a estreita porta, que cerrou de manso sobre si.

No dia seguinte, por dez horas da manhã, galopava em um famoso andaluz Manoel de Vilhena, seguido de muitos pagens a cavallo tambem, caminho de Pena de Alfange.

Em quanto a cavalgada se dirige a Pena de Alfange, tomemos-lhes nós a dianteira, leitores curiosos. Subamos a escadaria de marmore de Estremoz já nossa conhecida; entremos.

Como se o castello fôra habitado por estatuas silenciosas, servos e servas, pagens e peões perpassam mudos, aspecto grave e cuidadoso, tristes. Qual será a causa d'esta tristeza, d'este mover de automatos? Estará gravemente doente alguem d'aquella casa? morreria alguém ? Percorramos a casa.

Leonor está sosinha em seu quarto acabando de se toucar; na sala dos retratos, fechada por dentro, ouve-se falar. Quem será e o que dirão:

Por uma certa presciencia, por um dom de ubiquidade que tem o romancista, com que devassa o mais íntimo, descobre o recondito, gera, cria, mata e, mais formidavel do que o tempo subjuga-o, põe-no a seu serviço, contando a seu talante seculos, annos, mezes e dias, que ora faz correr velozmente, ora tardos e ronceiros como as noites em Lamego, informarei ao leitor do que alli se passa desde o romper do dia.

Mendo da Gama não dormira aquella noite: assim o podemos suppôr ao menos sabendo que antes do sol nado já elle vigiava a porta do quarto do pae, esperando que o fidalgo acordasse.

Naquelles tempos ainda a noite era noite para o dia ser dia. Não passavam os fialgos as noites em jogos e danças, theatros e tertulias. Nas longas noites de inverno, as historias maravilhosas dos cavalleiros andantes ou vidas de alguns santos occupavam a attenção dos nobres, sentados á lareira como hoje em dia os nossos bons camponezes: de longe em longe havia n'aquelles palacios um sarau ou festa de annos, que, ainda assim, não acabava noite vellia. Erguiam-se, pois, ordinariamente cedo.

Apenas Mendo percebera que o pae tinha acordado, disse de fóra:

-- Está acordado, meu pae?

-- Olá! És tu, Mendo? Tão cedo! Isso é que é madrugar!

-- O mesmo digo eu do sr. D. Christovam da Gama.

-- Passei a noite mal. Eu já te abro a porta: estou-me vestindo. E continuando disse: para alguma caçada me vem convidar o sr. Mendo da Gama, o mais esforçado perseguidor de feras d'aquem e d'além Guadiana. Pois vamos lá.

Mendo já não respondeu por que ouviu os passos do pae, e, momentos depois, abrir-se a porta.

-- Ora Deus lhe dê bom dia sr. meu filho.

-- Deite-me a sua bençam. E dizendo taes palavras Mendo abraçava o pae.

O senhor do castello de Pena de Alfange estranhou um pouco aquelle abraço; e, deixando o tom alegre que tomára pouco antes:

-- Que me quer meu filho, procurando-me tão cedo?

Mendo, que percebêra a mudança de tom de voz do pae, mandou uma pouca de alegria ao rosto e respondeu:

-- Desejo que meu pae hoje almoce mais cedo e que depois venlia dar commigo um passeio no jardim: tenho um segredo a communicar-lhe.

-- Ah! um segredo?!.. Sim, senhor, sim, senhor, tem-me ao seu dispôr. Já mandaste fazer o almoço?

-- Já mandei.

Uma hora depois entravam nos jardins o pae e o filho.

-- Famosa manhã, meu rapaz. E, parando, como costumam os homens depois de certa edade: famosa manhã para me revelares um segredo. Sim, terás o meu sim, se fizeste boa escolha.

-- Olvidaria as tradições de nossa familia se o não fizesse, respondeu o filho, mentindo ao pae em quem percebêra intenções mui diversas das suas, e por que não era tempo para lhe expôr o seu segredo.

Vê-se das palavras de Christovam da Gama que este esperava do filho o pedido de uma licença para contrahir os sagrados laços do matrimonio com alguma fidalga portugueza de antiga linhagem.

Quando se approximaram de um parapeito do muro, d'onde se via da parte de fóra do rio, além o castello de Cheles e na margem de cá as bases graniticas do de Pena de Alfange, Mendo perguntou ao pae:

-- Será muito antiga a fundação d'estas casas?

-- A fundação primitiva do nosso castello é muito antiga: ora a reedificação tanto d'este como d'aquelle seria feita ha duzentos annos, pouco mais ou menos.

-- Aquella porta de ferro que lá está em baixo rente com as aguas e encravada nas rochas tem communicação com o castello ou tem a passagem obstruida?

-- Não sei: não lhe conheço serventia, e creio bem que não dará passagem para nossa casa, por que não sei que se possa abrir: eu nunca a vi aberta. Mas, para que taes perguntas? Para que tanto saber, sr. D. Mendo da Gama? Por esse modo esquecer- vos-heis do segredo que me quereis revelar, disse o pae, tomando alegre e prazenteiro modo.

-- Ao contrario, só n'isso penso, senhor meu pae. Aquella porta, que vedes e julgaes obstruida, abriu-se esta noite passada para deixar entrar a um homem que, vindo de lá, d'aquella margem n'um barco, saltou na rocha e sumiu-se por ella a meus olhos.

-- Que dizes?

-- A verdade.

-- Attende bem: terias algum mau sonho que por tal guisa te impressionasse?

-- Não tive, digo a verdade.

-- Meu Deus! exclamou Christovam da Gama. E quem era esse homem? Que fim tinha em vista penetrando aquella porta e introduzindo-se no castello? Não lhe correste ao encontro?

-- Corri: desci á casa das armas, e d'ella ás prisões subterraneas e não encontrei alma viva: cheguei tarde.

-- Eis, pois, o teu segredo?

-- Este é.

-- Quem poderá ser então o atrevido, que não mediu a grandeza do arrojo, o audaz a quem mandaremos pendurar no mais alto d'aquella torre?

-- Se quereis ouvir as minhas suspeitas entremos em casa, onde a sós vol-as devo communicar.

-- Graves devem de ser. Acaso... Vamos.

E foram. Sigamol-os. Entraram na sala dos retratos.

-- O que tenho a dizer-vos é da maior gravidade, sr. D. Christovam da Gama, meu senhor e meu pae. Ordenae que não sejamos interrompidos.

O fidalgo portuguez agitou uma campainha com violencia nervosa, bradando conjunctamente: olá, criadagem!

Appareceu á porta o vulto do velho Lopo.

-- Ordeno a todos os meus creados que me não procurem e que digam a estranhos que lhes não posso falar.

Lopo voltou-se e partiu a transmittir aos demais domesticos aquella ordem estranha, dada com tão mau modo. O velho ia triste: que lhe adivinharia o coração? Transmittiu a todos a ordem com tão repulsivo semblante que, involuntariamente, aquelles se deixaram tomar do aspecto do velho Lopo. Era elle o mais antigo criado da casa: o vel-o triste significava transmissão de cuidados dos senhores do castello. N'este caso, havia causa para a tristeza do velho; mas, como explicar a que de nós se apodera, sem motivo algum conhecido, e que só mais tarde se explica n'um ou noutro acontecimento, que nos prejudica? Como explicar o subito e dolorido pulsar mais forte do coração, prenuncio certo de uma desgraça que nos fere? Como o esvoaçar teimoso de um besouro desmedido e feio em volta de um irmão, quando áquella mesma hora outro irmão se lhe suicida?

Tudo isto serão crenças, acaso, superstição?

A sciencia humana ignora muita cousa.

VII

Horrores

«Só um desaggravo tem o aggravado.»

ANTONIO PRESTES -- Comedias.

A sala dos retratos do castello de Pena de Alfange era quadrilonga e guarnecida em volta de retratos, representando os ascendentes de Christovam da Gama desde D. Mendo Alão até ao actual possuidor do castello. Pelo lado da arte nada havia que notar, admirando-se apenas o cuidado com que aquella familia alli se representava em ordem não interrompida.

Ouçamos o dialogo do pae e do filho :

-- Fala prestes, Mendo, que se me atropellam na cabeça as ideias.

-- Sem rodeios : desconfio que o homem que penetrou no caslello era Manoel de Vilhena.

-- Já o havia lembrado; mas, com que fim? Quem lhe abriria a porta? Esclarece-me, meu filho.

-- Quem lhe abriria aquella porta, não sei: o fim com que penetrou em nossa casa foi o de se approximar de Leonor.

-- Infame! Perro castelhano, agora nós! Consentirá minha filha n'essa approximação?

-- Assim o julgo, assim o acredito, meu pae. Antevejo em Leonor alfeição amorosa a Vilhena, e por ella explico eu a doença que tem tido.

-- Sim, póde ser; por que já o physico aventou ha dias essa opinião, a que dei pouco peso. Oh! mas ai de ti Leonor da Gama! se esqueceste os teus, se olvidaste as tradições de teus maiores!

-- Não se exalte, porém, meu pae. Nenhuma certeza temos ao presente.

-- Que convém, portanto, que façamos?

-- Pôr os meios de nos certificarmos.

-- Eu vou falar a Leonor.

-- Não approvo essa ideia; por que, se Leonor foi quem deu entrada ao homem que vi, e se esse é Manoel de Vilhena, não o poderemos haver á mão, como é minha vontade, por que ella o avisará para não voltar.

-- Sim, mas se elle foi, estou eu deshonrado, Leonor perdida... Oh! ja, já um desforço tremendo!

-- Tel-o-heis, meu pae e senhor. Devemos proceder, porém, com a maxima cautela e prudencia. Julgaes que me não cohibo falando-vos assim? Ardo em desejo de vingança, anceio por colher á mão o infame, quem quer que for.

-- Então, breve: que plano tens?

-- Ouvi: desceremos esta noite á sala d'armas e alli, occultos, aguardaremos que alguem abra a porta. Ao infame que entrar pediremos então contas estreitas. Saberemos tudo.

-- Será assim, e se for o castelhano não sairá mais.... se for minha filha a que o recebe.... ai, Mendo, que não sei o que farei!...

Este dialogo corrêra rapido entre os dous. Christovam da Gama sentára-se e ficára silencioso um instante, como entregue a cogitações. Quando Mendo ia para lhe responder, pareceu-lhe ouvir ruido estranho, que não explicava por lhe chegar confuso. Abriu a porta, deixou o pae, que não deu por sua saida, e foi indagar a causa do estrepito e susurro que ouvira.

Os creados do castello, recebendo com modo lugubre aquella ordem para se negar a todos a presença do senbor, haviam fechado a porta do pateo. Alli chegára Vilhena com sua comitiva, e batêra. Foi-se-lhe á fala e respondêra-lhe um pagem que não podia falar ao fidalgo portuguez nem elle nem ninguem. Esta resposta estranha exacerbára o castelhano, que rompendo em imprecações se partira offendido, crendo que de proposito se passára para elle aquella ordem, como nem a porta se lhe mandára abrir.

O ruido que Mendo ouvira era a mistura do tropel da cavalgada e do altercar da pionagem dos dous fidalgos, que estiveram prestes a passar dos improperios á lucta. Soubera tambem, por lh'o dizer Lopo, que Vilhena viera para pedir a Christovam da Gama a mão de Leonor.

Com estas novas Mendo da Gama entrára na sala dos retratos, onde deixára o pae, e onde o foi encontrar na mesma meditabunda postura.

Christovam da Gama, que não déra pela saida do filho, mas só pela entrada, quando elle se lhe approximou, ergueu-se dizendo-lhe:

-- Então deixaste-me só? Onde foste?

-- Saber que estranho ruido sería um que me chamára a attenção.

-- E que descobriste, pois?

-- Manoel de Vilhena, seguido de numerosa cavalgada, veio ahi para vos falar.

-- A mim!

-- A vós; e para vos pedir a mão de Leonor.

-- Então não ha duvida...

-- São realidades as suspeitas que tinha: Leonor está perdida...

Christovam da Gama, com aspecto sombrio e grave, volveu-lhe:

-- Está perdida e nós tambem. Ouve-me: ha pouco projectava fazer eu depender da sorte dous caminhos que teriamos de seguir: agora confio-lhe tres: -- ou consentiremos n'essa união...

-- Nunca! por vontade minha, atalhou Mendo da Gama.

-- Ou puniremos o castelhano sómente, ou Leonor com elle. Responde.

-- O juiz é meu pae.

-- Altende, pois, e approxima-te. E o pae approximava-se de um movel antigo, especie de armario ou contador de pau preto com muitas gavetas chapeadas de metal amarello, abria uma das gavetas e tirava d'ella tres saquinhos de fio de seda, ou bolsas de troçal, como hoje diriamos, as quaes parecia estarem cheias de dinheiro.

-- Aqui temos tres bolsas com ouro: esta tem alfonsins, esta S. Vicentes e esta contém espadins. E ao dizer taes palavras, Christovam da Gama tirava do contador uma caixa axaroada, e n'ella lançava algumas d'aquellas moedas.

-- Vamos, continuou, voltando-se para o filho, tira d'ahi uma moeda ao acaso, á sorte: confiemos-lhe o nosso destino. O alfonsim obrigar-nos-ha ao casamento de Leonor com Manoel de Vilhena; o S. Vicente á punição d'ella, e o espadim ao castigo de ambos.

Mendo da Gama metteu a mão na caixa axaroada e d'ella tirou uma das moedas.

-- Que moeda tiraste?

-- Um espadim.

-- Um espadim! Fatal sentença! Cumpra-se. Pobre Leonor! exclamou o fidalgo cedendo ainda a um esto de amor filial, pobre Leonor... e pobre de mim!

-- Que tencionaes fazer, perguntou Mendo ao pae, ouvindo-lhe aquellas exclamações.

-- Cumprir a sentença da sorte. Vaes conhecer um mysterio que existe nesta familia; vaes ver como teus avós puniam os delictos contra a sua honra. E assim falando foi-se a um quadro antigo, que representava uma mulher moça ainda, tocou-lhe em uma occulta mola e o quadro, ou aro de madeira, abrindo-se, desviou-se para os lados deixando apenas em seu logar aquelle retrato. Mendo observava admirado. Tocou n'outro ponto e o quadro ao modo de uma porta cedeu, retrahiu-se, e deixou patente ao attonito moço uma porta.

-- Achega-te e vê, disse para Mendo o pae severo. Que observas?

Mendo não respondeu; recuou horrorisado. O que vira era um esqueleto, meio involto ainda em roupas, e por ventura não despido de todo das resequidas carnes, mettido ou entalado n'uma abertura praticada na parede, cm que apenas podia caber um corpo humano. Ao lado do esqueleto havia na parede outra abertura similhante áquella.

-- Alli tens o futuro de Leonor....

-- Porém, senhor Christovam da Gama, respondeu o filho, afflicto com o que vira, e tremendo pela sorte de sua irmã, que elle muito amava, e a quem desejava punição, mas não como aquelle espectaculo lh'a deixava antever; porém, meu pae, ainda não obtivemos certeza da falta de Leonor; e, dado que a obtenhamos, temos ahi casas religiosas onde podemos fazer professar Leonor...

-- Inexoraveis em punir crimes contra a honra, contra o bom nome d'esta familia foram nossos maiores: sel-o hei eu tambem. Tu, se ao cabo de tantos seculos, tendo o nome glorioso do nosso progenitor, não podes representar-lhe os brios, deixa-me só, afasta-te. Se não sabes ser homem, recolhe-te a um convento.

O dia passára triste para todos os d'aquella casa. Leonor, informada pela velha Joanna Mendes das ordens que seu pae déra de não falar a ninguem: da vinda de Manoel Vilhena que não pôde pedir ao fidalgo a sua mão, cuidadosa, afflicta sem atinar com a causa de tudo aquillo que no castello se passava, chorou, mortificando-se, e aguardou a noite com certa anciedade para indagar de Vilhena a causa de tudo o que se passára, se elle lhe podesse dar esclarecimentos.

Mal pensava ella que seus amores fossem conhecidos já do pae e do irmão!..

Eram onze horas da noite: tudo parecia repousar no Castello de Pena de Alfange. Um barco se desprendia da margem esquerda e vogava para a direita: uma facha de luz caudata instantanea alumiou a superficie buliçosa das aguas do Guadiana: Vilhena saltava na rocha do castello portuguez e penetrava a nossa conhecida porta.

D'aquella vez não era o velho Lopo quem a abrira; era a propria Leonor; era a timida donzella a quem o cuidado déra valor para atravessar aquellas humi- das prisões do castello. Entraram na sala das armas.

-- Ai! meu querido Vilhena, como eu tenho aguardado anciosa a tua vinda! E lançou-se-lhe nos braços, de que em breve se desligou.

-- Tambem eu desejo saber que proceder insolito foi este de teu pae em me não receber esta manhã: explica-m'o se sabes.

-- Não sei. Meu pae e meu irmão estavam fechados áquella hora na sala dos retratos, em pratica intima, de mim desconhecida, e aquella ordem fôra dada para não falar a pessoa nenhuma.

-- Julguei que para mim só fosse ella dada.

-- Não foi: antes de tua chegada, que meu pae não podia adivinhar, já a velha Joanna Mendes me tinha annunciado aquella determinação.

-- Offendeu-me o proceder de vossa gente, e eu não posso voltar mais a pedir a tua mão.

-- Oh! não digas tal, meu Vilhena! Pede-lh'a por escripto, se outra vez não queres voltar: bem vez, bem sabes que prendendo-me o coração ao teu destino, que sendo eu tua, força é que nos una a egreja. Depois, o honrado nome de meu pae, se alguem chega a saber d'este fatal amor, d'esta minha allucinação...

Não completou o pensamento. Soltando-se casualmente uma espada antiga da panoplia, e vindo cair aos pés de Vilhena, por fórma aterrou aos dous amantes que Leonor soltou um grito agudo e quasi perdeu os sentidos, e Vilhena, medroso, a custo pôde animar a assustada amante:

-- Animo; foi uma espada que por acaso caiu.

-- Levanta-a, e defende-te, covarde! troou de repente a pouca distancia a voz de Mendo da Gama.

Leonor caiu como se a fulminára o raio, e Manoel de Vilhena, gelado de susto e depois de um instante de mortal stupor, voltava-se para fugir aquella casa, quando para elle caminhou uma armadura, e lhe embargou a passagem, bradando:

-- Levanta essa espada, villão, e já!

Este insulto, a coragem que ás vezes empresta o medo, que dá o instincto da conservação, animaram Vilhena a responder:

-- Villão é o homem que acommette outro com armas desiguaes!

E ergueu a espada que o acaso lhe atirára aos pés.

Instantaneamente a armadura caiu em peças e Mendo da Gama, apparecendo terrivel de espada em punho:

-- Agora nós, infame! E jogou-lhe um golpe ao peito. Vilhena aparou-lh'o e a lucta começou.

VIII

Mais Horrores

Em toda a parte soam grandes golpes

Despararam-se espingardas, e huma somma

De lanças mil de fogo arremessadas.

Ouve-se hum grande estrondo, hum gran rugido.

CORTE REAL-- Cerco de Diu.

Odio e vingança são dous irmãos terriveis: mais velho do que a vingança, o odio é um monstro como o ciume. Póde o tempo, com o seu cortejo de mil varios acontecimentos, abrandar-lhe a catadura, adormecel-o até: extinguil-o, nunca, maiormente entre as pessoas de elevadas jerarchias sociaes n'aquellas épochas.

Debalde a philosophia se propõe melhorar a natureza humana; debalde procura limpar o peito do homem de maus principios ; debalde cogita purificar-lhe o coração com sãs doutrinas, esmagar a materia, elevar o espirito. Debalde sempre!

O homem é hoje o que tem sido sempre: estudem-no bem, observem-no profundamente e vel-o-hão capaz de grandes acções como apto para praticar as mais abjectas!

Não se horrorisem os sabios com este modo de pensar: inquiram a consciencia, e d'ella saberão o numero de vezes que praticaram acções de que se envergonham ao recordal-as. Diz algures Victor Hugo que ha hoje e haverá sempre como na antiguidade grega mulheres formosas: diz uma verdade, como eu supponho dizer outra crendo o homem d'hoje como o de todos os tempos.

Consultem a historia do passado, folheiem as chronicas dos reis, manuseiem as do feudalismo na edade media, as da nobreza em todos os tempos, as de toda a humanidade, em fim, e toparão sempre o bem e o mal, o vicio e a virtude, a grandeza e a miseria a par.

Mas, para que taes considerações, quando o leitor quer saber qual o resultado da lucta na sala das armas do caslello de Pena de Alfange, entre Mendo da Gama e Manoel de Vilhena?

Foi aquelle um notavel combate. Ambos sabiam manejar bem a espada, ambos eram fortes, ambos luctaram muito. Do antebraço de Mendo da Gama saía, através da roupa algum sangue: estava ferido, mas não o sentira ainda: luctava como se começasse. Quando, porém, a primeira dôr o advertiu, o valente moço portuguez, exaspera-se, allucina-se, perde a côr do rosto, redobra de rapidez nos golpes, de força no braço, de pericia no evitar, de temeridade no acommeter! Era sublime! Como se fôra um gladiador, por assim dizer electrico, não podia achar resistencia em Vilhena, que principiou a ceder, não lhe amparando a tempo o chuveiro de golpes tremendos.

De repente ouve-se um estalido agudo e vibrante, voa a ponta da espada do fidalgo castelhano, que se retrahe um pouco, desmaia, cambaleia e cae. Jorrava-lhe o sangue da parte superior do thorax. Parecia ferido mortalmente.

Leonor jazia como um cadaver inerte no pavimento frio d'aquella casa; Vilhena, ensanguentado, caiu-lhe proximo; e Mendo da Gama, ou extenuado do combate, em que desenvolvêra prodigiosa força muscular, ou extenuado pelo sangue que perdêra, ia quasi a tombar quando para elle correu uma armadura gemente nos gonzos das peças, e o amparou na queda. Era Christovam da Gama, que, ao modo do filho, se occultára por aquelle meio na sala d'armas, para conhecer o fim com que um homem penetrára de noite o castello de Pena de Alfange.

Forte mais talvez do que é permittido a homens, o fidalgo vira caír a filha, começar a lucta, ferir a espada castelhana a Mendo da Gama e permanecêra impassivel, despertando apenas para segurar o corpo do filho, prestes a tombar!

Aconselhava-lhe aquelle proceder o brio de um cavalleiro como elle era: combater conjunctamente com o filho a Manoel de Vilhena fôra infamia villã: dous contra um, sería grande nodoa no brial de um cavalleiro.

Era já noite velha quando outro barco se desprendia da margem esquerda do Guadiana, e, remado por dous homens, demandava a margem direita. Aproando á rocha do castello portuguez, os dous homem saltaram n'ella e se internaram pela porta que já conhecemos.

Pouco depois saíam, amparando, ou, melhor, trazendo nos braços, um corpo humano, que depozeram no barco remando para Cheles.

No dia seguinte estava de lucto o castello feudal de Pena de Alfange. Morrera de morte repentina Leonor da Gama... Mendo, seu irmão, estava doente com o desgosto que lhe causára aquella perda, e o pae recolhido e magoado: taes eram as respostas que davam os servos d'aquelle castello aos curiosos perguntadores.

Defronte, no castello hespanhol de Cheles, succedia quasi o mesmo. A criadagem d'aquella casa respondia mentindo ao publico que, havia já alguns dias, não vira o feudal senhor.

Decorreram mais de dous folgados mezes, em que o publico murmurou á farta, sem comtudo, attingir com precisão a verdade dos acontecimentos.

Podiam ver-se o cuidado e a tristeza impressos nos rostos dos habitantes d'aquellas casas; um ar de calmaria estupida, similhante ao bochorno que precede os furacões, que annuncia os torvelinhos.

Era por fins de setembro. Depois de calmoso verão apparecêra manchado de pequenas nimbos a abobada azulada; engrossaram, tomaram negra côr, uniram-se e fecharam totalmente o vasto céo do Alemtejo em seus crepes lugubres.

Uma corda de volumosas gôttas d'agua, ao som reboante de metalico estampido e á luz coruscante de electricas centelhas, caiu instantanea sobre a terra.

O vento desencadeou-se em fortissimas rajadas, a escuridão cerrou-se, a noite começava assustadora...

Vejamos o que se passa no vasto pateo do castello de Pena de Alfange.

Escudeiros, vassallos e peões, em numero de mais de duzentos homens, armados de diversas armas, com escadas de mão e materiaes inflammaveis aguardam inscientes uma ordem.

O grande aguaceiro passára, permanecendo escuro o dia que se approximava do termo.

No alto da escada de marmore assomaram então os dous fidalgos portuguezes: Christovam e Mendo da Gama.

Armados com todas as peças do cavalleiro d'aquelles tempos, os dous desceram a escada vindo encorporar-se ao grupo armado.

Quando Ghristovam da Gama poz pé no terreno da vasta quadra todas as cabeças se descobriram: pae e filho agradeceram de egual modo a seus amigos. Houve um momento de silencio indescriptivel. Os rostos d'aquelles dous fidalgos tinham alguma cousa da lividez do cadaver. Encerrados, havia dous mezes, só os mais intimos do castello os tinham visto: para os demais individuos que alli se achavam eram elles como se foram pessoas, ou que não conhecessem, ou que ha muito não tivessem visto. Aquella gente abriu alas diante dos fidalgos; e, Christovam da Gama, internando-se n'ellas, ergueu por este modo a voz magoada:

-- Mais do que vassallos, ou servos, meus amigos! Convidei-vos a reunir aqui armados, sem vos annunciar o fim para quê. Estranho convite é este! Ao verdes-me tambem armado vir ao vosso encontro, sem duvida percebereis que se tracta de um feito de armas. Tracta. Tracta-se de uma desafronta com mão armada. Fui offendido por um castelhano...

-- Vós! exclamaram de repente muitas vozes.

-- Eu, sim, o homem que sempre foi vosso amigo, que sempre vos abriu as portas d'esta casa, que sempre vos estendeu a mão, esse, viu um dia uma nodoa escura no espelho que reflecte suas acções, na sua honra...

Esta imperfeita revelação despertou um murmurio reivindicador n'aquella gente, a que o fidalgo poz termo, continuando:

-- Quereis agora saber o para que vos convidei a vir aqui armados? Para me auxiliardes no difficil empenho de esconder esta nodoa. É mister cobril-a com sangue para de ninguem ser vista. Poderei contar com o vosso apoio?

Por diversos modos todos aquelles homens se promptificaram a seguil-o.

-- Caminhemos, pois, meus amigos, para Cheles!

-- A Cheles! bradou o grupo de portuguezes. Immediatamente começaram a sair cavallos das vastas cavallariças do castello, em numero de cem, approximadamente. Montados por destrissimos cavalleiros romperam estes a marcha, seguindo-os a pé em boa ordem os demais amigos da casa do Christovam da Gama.

O vadear o Guadiana foi extramamente facil porque n'aquella épocha diminuta é a sua corrente.

Cerrára-se a noite escurissima. No castello de Cheles, ou já se esperava aquella visita por algum aviso anticipado, ou se houve d'ella conhecimento ao approximar hostil. Fechadas todas as portas e janellas, nenhum ruido se ouvia dentro: nem restea de luz coada pelos resquicios das janellas de fóra se percebia.

Christovam da Gama perfilhou uma de duas ideias que se lhe atropellaram na mente: a de emboscada ou a de fuga e deserção de Vilhena. Optou por esta, por saber que o castelhano não poderia juntar de prompto vassallos em numero que encarassem os seus.

-- O poltrão foi avisado, escapou-se-nos, disse o fidalgo portuguez para os seus. Pois bem, que não fique aqui pedra sobre pedra! Abram-se estas portas.

Quatro machados começaram a lascar a porta principal, em quanto por muitas escadas de mão alguns subiam aos altos muros do castello para lhe saltar dentro. Distribuidas as forças por modo que ao mesmo tempo acommetessem diversas entradas d'aquella casa, a primeira que cedeu ao vigor do braço portuguez foi a principal. Mal a fechadura voára despregada, e alguns, no alto dos muros, voltavam escadas para a descida para dentro, ouviu-se a detonação proxima de uma descarga de mosqueteria.

O castello estava armado e defendido, a lucta começára pela face do sul.

Lucta desigual e tremenda ia ser aquella, na escuridão da noite, ao ribombar do trovão, á luz sulfurea do relampago instantaneo.

O grupo principal, a cuja frente se achava Christovam da Gama, entrou precipitadamente a porta principal, ao ouvir a detonação da mosqueteria.

-- Arrombem-se portas e janellas! Fogo ao castello!

Apenas terminaram aquellas palavras, nova detonação respondeu a Christovam da Gama. De facto, das janellas, setteiras, e ameias que se não viam no escuro, dezenas de balas e pellouros cairam sobre os nossos. Por felicidade, se os nossos não podiam precisar os pontos d'onde se atirava sobre elles, tambem as pontarias castelhanas não miravam o alvo dos que pretendiam ferir.

N'este particular, ataque e defensa eram iguaes.

-- Coragem! Ás portas! Fogo!

E Christovam, tomando um machado das mãos de um robusto moço, que se achava ferido, com tão fortes e crebros golpes acommeteu uma porta, que dava já para o interior do castello, que aquella cedeu patenteando a entrada.

N'este comenos com grande ruido caíam as pesadas portas das cocheiras do palacio, e, instantes depois, saía d'ellas um rolo enorme de fumo espesso, seguido logo de linguas de fogo. Começava a obra destruidora. O castello era bravamente acommetido a este tempo por todos os lados.

Que espectaculo! O estrondear da fuzilaria, os gritos de acommeter, o golpear dos machados, o ruir de portas na quéda, e o retumbar da tormenta n'aquellas campinas, era, em verdade, quadro vivo de espantoso movimento!

Que será feito de Mendo da Gama, do esforçado portuguez que prostrára Manoel de Vilhena na sala d'armas do castello de Pena de Alfange? Cairia mortalmente ferido dos pellouros castelhanos?

A confusão e o ruido attingira o maior auge. Dentro do caslello já se combatia.

O fogo nas cocheiras e cavallariças ateia-se de repente por fórma, que alumeia a vasta quadra para que davam as portas e janellas da face principal do castello e palacio. Ao clarão do incêndio vê-se então o lidar dos nossos no empenho de entrar aquellas portas e janellas sob um chuveiro de pellouros.

Algumas portas já tinham caido em lascas e dado entrada aos portuguezes, outras não resistiriam muito aos golpes de machado e ao poder das alavancas; ás janellas succedia o mesmo; no alto das escadas, que se lhe haviam encostado, um ou dous homens lidavam pelas arrombar, subindo já por algumas, dezenas d'homens uns atraz dos outros, que se internavam n'aquella casa.

De repente ouve-se um grito de espanto; do alto do palacio saíam linguas de fogo e fumo, e perto d'ellas distinguia-se perfeitamente Mendo da Gama, correndo pelos adarves ameiados, com um facho acceso na mão, e seguido de alguns homens armados! Á luz d'aquellas linguas de fogo via-se também a lucta corpo a corpo sobre os revelins e torres do castello, e mais de um corpo desabar precipitado d'aquellas alturas. Tremeu-se pela sorte do moço fidalgo, e não poucos amigos da casa de Pena de Alfange, pela do pae, pois que havia tempo não sabiam de Christovam da Gama. O palacio ardia entrado pela gente portugueza; o desforço era tremendo e horroroso, e podia custar a vida ao pae e ao filho, além de alguns vassallos e peões que já tinham perecido, e a muitos que se achavam feridos.

Similhante resistencia não se antolhára ao fidalgo portuguez, que chegou a suppôr deserto o castello, nem tão formal reivindicta dos nossos sonhára, sequer ao menos, Manoel de Vilhena, seguro em seu forte palacio. Que será, porém, feito deste? Morreria ás mãos dos nossos, ou queimado do fogo?

Quando a destruição completa d'aquella casa se tornou manifesta, e o fogo já não consentia ninguem dentro, os nossos sairam rapidos agrupando-se a conveniente distancia. Faltavam alli muitos homens e não apparecêra Christovam e Mendo da Gama...

Manoel de Vilhena de ninguem foi visto; affirmando-se, comtudo, que lá se achava quando começára o ataque, como se dizia que pae e filho não morreram na lucta.

Permanecendo apenas de pé as paredes do castello de Cheles, e não havendo já a quem esperar, aquella gente voltou triste e cuidosa para Pena de Alfange, na esperança de encontrarem alli os feudaes senhores d'aquellas terras.

Quem sería, porém, o cavalleiro, que de um montão de ruinas encandescentes surgira em brida desesperada e phantastica, na direcção da Andaluzia?

Affirmavam que era Manoel de Vilhena.

IX

Epilogo de horrores

Perdido!... Todos perdidos!...

THOMAZ RIBEIRO -- D. Jayme.

Em quanto a dizimada gente de Christovam da Gama se dirige a Pena de Alfange; em quanto um cavalleiro do abrasado castello de Cheles galopa, corre a toda a brida a se internar na Hespanha, contemplemos um pouco o arder da casa de Manoel de Vilhena.

Reflectidas nas aguas do Guadiana aquellas alas de fogo do ardente castello, similhavam uma dupla cratera de apavorar. O vento, que de espaço a espaço soprava rijo, ateiava mais aquelle incendio enorme que de vermelha luz sinistra tingia o castello portuguez de Pena de Alfange, alumiando uma área grande das campinas propinquas.

A facção portugueza entrava sem chefes no vasto pateo do fidalgo portuguez, contando achar alli o vingado Christovam da Gama e seu filho.

Qual! Os unicos habitantes que alli encontraram foram os dous antigos servos da casa, Lopo e Joanna Mendes, que, tranzidos de espanto e de susto, aguardavam a chegada d'aquella gente.

Os dous creados, cumplices nos fataes amores coroados por goivos das campas e por um fim mais tragico do que poderiam antever, estavam de pé ao cimo da escadaria de pedra, que dava entrada para o palacio, immoveis, hirtos, estupidos como duas estatuas mechanicas, das que nos pintam á entrada dos castellos encantados de nossas lendas e balladas.

Interrogados pelos mais intimos amigos d'aquella casa os dous velhos não respondiam, procurando, avidos de saudade, Christovam e Mendo nos recem-chegados.

O castello e palacio foi percorrido com interesse, mas ninguem mais alli dentro existia.

Sobre o leito do fidalgo portuguez achava-se um papel fechado e sellado com as armas da casa, convidando exteriormente o primeiro que o encontrasse a podel-o abrir e ler. Dizia assim:

«Em nome de Deus, amen. Encommendo muito a meu filho Mendo da Gama, ou a quem abrir e ler este papel, que, oito dias depois de sua leitura, se eu não for voltado a este castello ou de mim se não souber, o apresente ás auctoridades d'estes reinos e senhorios de Portugal para que observem, e façam cumprir e guardar esta minha vontade postumeira, que tal é: -- Meu filho não póde viver mais em Pena de Alfange, nem levar ou consentir que do meu castello se tirem objectos alguns. Quero que meus servos Lopo e Joanna Mendes sejam os unicos habitadores de meu palacio; isto lhes peço e rogo a elles e a meu filho, ou ás auctoridades d'estes reinos, os mandem alimentar e soccorrer de tudo o que necessario lhes for. Por sua morte d'elles, quero que se fechem todas as portas e janellas do meu castello e palacio de Pena de Alfange para que ninguem mais alli possa entrar, permanecendo assim fechado até que o tempo completamente o destrua e arraze. E porque decorridos oito dias depois que escrevo esta manifestação de minha ultima vontade, eu deverei ser já um cadaver, tambem peço e rogo tanto a meu filho, como ás auctoridades de el-Rei assim a considerem e façam guardar e cumprir, sem embargo das faltas e ommissões de formulas em bom direito havidas e usadas.» -- Christovam da Gama.

Este papel, especie de testamento do fidalgo portuguez, foi entregue ao velho Lopo, para este o guardar até que chegasse Mendo da Gama, a quem o entregaria, ou, na falta d'elle, ás justiças de D. Philippe II.

Lopo e Joanna Mendes acceitaram e annuiram áquella vontade de seu amo e senhor, e ficaram no castello.

Triste e desgostosa aquella gente debandou, ficando apenas alguns servos da casa, agora governados pelos dous velhos, Lopo e Joanna.

Decorreram dias. Os dous fidalgos não voltaram. Joanna Mendes appareceu morta em seu leito um dia, em que, por não sair do quarto á costumada hora, foi procurada e n'elle achada sem vida. A pobre mulher, que andava desgostosa a triste desde a morte repentina de Leonor, que ella creára e a quem servira de mãe, morte que tão mysteriosa foi para ella, como para todos os d'aquella casa, por isso que nem se tivera conhecimento de sua doença, nem se lhe presenceára o enterro; enterro a que, segundo se disse, só assistira o physico e o capellão na egreja do castello, onde, de facto, se erguêra um mausoleo singelo com este epitaphio:

AQVI JAZ LEONOR DA CAMA

DE MORTE SVPITA

a pobre velha succumbira ao desgosto d'aquella perda, augmentado com o desapparecimento de Christovam e de Mendo da Gama, sem duvida mortos no incendio do castello de Cheles, d'onde ninguem os vira sair.

O velho Lopo ainda viveu algum tempo aprehensivo e triste, minado pelo remorso de que fôra elle o culpado de tantos males e crimes, annuindo ás suggestões do castelhano, fascinado por um pouco de ouro, inutil agora a seus olhos, e pela muita affeição que tinha a Leonor da Gama.

A Fazenda nacional apoderou-se então da casa do fidalgo portuguez, pois que não apparecêra herdeiro algum, e o castello fechára-se, para não mais se abrir, conforme á vontade de Christovam da Gama.

Muito tempo depois d'estes acontecimentos ainda o povo murmurava e a seu modo tentava explical-os, chegando em suas conjecturas a attingir a verdade; isto é: a falar nos amores de Leonor e Vilhena, como causa d'aquelle desforço, sem, comtudo, saber explicar a morte d'ella tão repentina, tão inesperada, tão mysteriosa...

Leonor, a bella castellã de Pena de Alfange, fôra victima do genio rispido de seu pae, e dos preconceitos exagerados da nobreza d'aquelles tempos. Como a todos, ou quasi todos os castellos feudaes, andava presa a lenda triste de um rauso e de um castigo espantoso: passára de pães a filhos como um legado sagrado de honra, como exemplar de brios offendidos e desaggravados. Christovam da Gama fôra o fiel observador das leis de um codigo tradicional escripto com sangue, sellado com o sinete da morte e interpretado deshumanissimamente. Recorde o leitor aquella scena na sala dos retratos, que tranziu de espanto a Mendo da Gama, e concluirá fatalmente o triste fim da linda Leonor...

Horriveis narrações são estas! Impossiveis até poderão parecer. Ai! mas quem ha ahi, historiador do passado, prescrutador do viver e crer d'outros tempos, que não conheça mysterios similhantes, que não descobrisse arcanos espantosos em cifras mysteriosas, subterraneos medonhos, cadaveres insepultos?.. Quem ha ahi, que ao entrar nas ruinas de um castello apalaçado da edade media, ao lembrar saraus esplendidos, caçadas enthusiasticas, opiparos jantares, não veja tambem perpassar por sua mente, o rebuçado assassino, veneno ou punhal na dextra; o cadaver sangrento; o crime em toda a sua hediondez?

Eu por mim, a quem Deus não deu uma imaginação brilhante, não entro vez nenhuma n'essas desmoronadas habitações que não ouça, respondendo ao vagido do infante que nasce na opulencia, o derradeiro grito do pobre que se estorce na miseria e n'ella termina seus dias. Não leio nunca uma gastada inscripção, um epitaphio qualquer, commemorador das virtudes de uns, que não diga ou a mim pergunte: para que este egoismo além da morte? para que tanta vaidade e loucura em tanta cinza, em tanto nada, quando centenas, milhares de homens virtuosos ahi jazem n'essa terra sem uma lettra ao menos que lhes memore a existencia? E gosto de ler, de decifrar uma carcomida inscripção em gothico quadrado ou monachal. É que sendo para mim e para todos insondavel abysmo o futuro, comprazo-me ao menos arrancando ao do passado um nome, um preceito, uma lição qualquer, pois que tão caliginoso é para todos o porvir.

Volveram mezes, decorrêra um anno sem que houvesse noticias do pae e do filho. Era fóra de duvida a morte d'elles no fogo do castello de Cheles, acreditava o povo.

E os annos foram passando e aquella tragedia esquecendo, até que o povo das circumvisinhanças do castello de Pena de Alfange começou a dizer que fôra vista uma luz na sala dos retratos em certa noite, e que mais de uma pessoa vira entrar e sair do abandonado castello a um fantasma em cavallo negro, rapido como a frecha, vaporoso como um sonho, temerario como um louco. Na duvida sobre quem sería o fantasma, o povo falava em Manoel de Vilhena e tambem no diabo.

X

A conspiração

«Parece á rude gente este discurso

Segundo os seus principios concludente.»

DURÃO -- Caramuru.

Em quanto os anteriores successos se desenvolveram nas margens do Guadiana; em quanto o leitor assistiu áquelle triste episodio d'esta historia, o que terá acontecido em Evora, na famosa taverna de Antão Vasques? Alli se abrigava a hydra revolucionaria, alli habitava o Manuelinho, alli pedira pousada aquelle romeiro de Sant'Iago de Galliza, que tanto impressionára no atrio da cathedral ao Juiz o ao Escrivão do Povo, João Barradas e Sizenando Rodrigues.

Entremos alli outra vez. É meia noite do dia 10 de fevereiro d'aquelle anno: estão fachadas as portas da taverna, tanto a que dá para a rua do Raymundo como a que se abre para a dos Touros. Dentro, porém, ha luz ainda e algum falatorio, cujo ruido é bastante pronunciado. Batamos á porta da rua dos Touros. Ninguem responde e a porta permanece fechada. Entremos em espirito como nos é permittido.

O cosinheiro e os moços dormitam sentados na primeira casa; na segunda, na adega, o taverneiro enche ainda um pichel, que lhe foi pedido por um grupo, que na casa immediata joga e quer beber. As casas seguintes estão desertas e já sem luz. Subamos aquella escada de madeira que liga a communicação das lojas com o primeiro andar.

O corredor, que já conhecemos e vimos escassamente alumiado por um lampeão, agora é quasi escuridão completa. Amortecida a luz, de espaço a espaço anima com fugaz clarão aquelle espaço nas vascas tremeluzentes de um fim que se approxima.

Ninguem. Ao fundo, ou fosse sombra nascida do rapido amortecer do lampeão, ou fosse vulto humano que se movia, uma sombra parecia esconder-se lá no extremo do corredor.

No quarto numero 6 ha, porém, susurro ainda. Foi aqui onde vimos entrar o Manuelinho em occasião que dentro estavam alguns homens. Penetremos n'esta casa como já fizemos em tempos, antes de rasgar um bocadinho do véo que nos occultava uma importante parte elementar d'este romance, trinta annos antes d'aquelle em que estamos, de 1637.

Esta casa, que já conhecemos, acha-se agora cheia de individuos. Sentados em boa ordem, em volta da meza com pés salomonicos, escutam attentos a um sugeito que, no topo da meza, de pé, discursa áquelles homens.

-- Duvidaes? dizia o orador. -- Tendes alguma razão, nobres e valentes eborenses, tendes; mas, eu vos explico a causa de vossa tibieza. E encarou com a sociedade. Esta prestou mais attencão e o orador continuou:

-- Vós, e vós outros conheceis por ventura a força que tendes, o poder de que dispondes? Momento de silencio.

-- Não conheceis, não, continuou o orador. A união faz a força. A associação é o mais poderoso elemento para fundar ou derribar, e quando essa associação tem força de vontade póde com ella depôr até monarchas poderosos.

O orador susteve-se um pouco, para conhecer se sería bem entendido dos ouvintes e que effeito n'elles produziria o seu discurso. Desconfiado de não ser por todos entendido, e destro e habilimo em manejar as armas da palavra, desceu a comparações mais comezinhas e de facil comprehensão de todos.

-- Qual de vós ha ahi que não quebre sem esforço algum uma varinha qualquer, uma vide, por exemplo? Nenhum. Uma creança o faz. Pois bem, enfeixae agora trinta, vinte, ou menos, e quebrae-as! Já nenhum de vós o faz.

O orador parou de novo e mirou os seus ouvintes. Em mais do que um rosto viu brilhar o sorriso da descrença. Eram os que sorriam os valentões de Evora n'aquelle tempo; os homens forçosos da classe mechanica a quem parecia impossivel não se quebrarem vinte ou trinta vimes enfeixados.

-- Não credes? Pois entrae em vossas casas, e experimentae. E, pois que duvidaes do que vos digo, fazei inda outra experiencia: é ao contrario d'esta. Vede se arrancaes a cauda a um cavallo: lançae-lhe a mão robusta e puxae! Nem um pello lhe arrancareis! Se os tomardes, porém, a um e um deixareis o cavallo sem rabo. Aqui tendes a força da união, aqui tendes o que sois e o muito que podeis ser.

O leitor deseja naturalmente saber quem será este orador, que tão ao sabor do povo fala, que tenta convencel-o com fabulas de Esopo e allegorias de Sertorio. Eu lh'o digo: era Gaspar Correia, talentoso jesuita que, havia tempo já, chamava o povo á rebellião contra Castella. Este, Sebastião do Couto, Alvaro Pires Pacheco e Diogo Lopes eram os principaes motores do movimento revolucionario que se preparava nas sombras da noite.

-- Sim, verdade é tudo o que dizeis, sr. Gaspar Correia, respondeu João Barradas, o heroico Juiz do Povo de Evora; mas, não concedendo eu a nenhum dos que ora aqui estão reunidos melhor vontade e mais ardente desejo de reagir contra Castella; e, cabendo-me, como Juiz do Povo que sou d'esta cidade, a honrosa missão de o representar dignamente, sou de parecer que se não mostre o muito que podemos se não depois de obtermos a certeza de que André de Moraes Sarmento porá em obra essa nova extorsão de Caslella, que de tal modo classifico eu esse lançamento de impostos exhorbitantes.

-- Põe, e mui brevemente, confirmou um individuo lá de um extremo da sala, com séria intimativa.

Era Manuelinho.

Manuelinho, o jogral dos eborenses, o louco das praças e ruas, depois que no atrio da sé falára pela fórma que sabemos ao Juiz e ao Escrivão do Povo, não só fôra por elles considerado por diverso modo, mas dera-se-lhe entrada mesmo na sala das reuniões dos conspiradores. Silencioso durante as primeiras noites era aquella a vez primeira que tomava a palavra.

João Barradas, o patriotico e zeloso defensor dos interesses do povo, respondeu assim a Manuelinho:

-- Sei que devo dar algum peso a vossas palavras, mas também não devo crer na execução das ordens de Castella sem que Sizenando Rodrigues nos venha dar conta da missão que lhe confiei. Não póde elle tardar: aguardemol-o.

-- Nada ganhareis em esperar, sr. Juiz do Povo. Crêde-me, e crêde-me vós todos: Sizenando voltará sem haver conseguido cousa alguma de André de Moraes Sarmento: demasiado o conheço.

-- Sim, mas vós affirmaes sem adduzir razão alguma; e, n'estas cousas, é precisa, é essencial a importancia dos dados, redarguiu-lhe Gaspar Correia.

-- Já todos vós me devieis conhecer bem: já todos devieis suppôr que o truão que por ahi vos diverte é capaz de arrancar a mascara que poz um dia e de se mostrar egual ao primeiro de vós: de vós mesmos, senhores collegiaes, que se manejaes destramente a arma da palavra não manejareis por ventura melhor, se bem que mui habeis, a da astucia. O que desejaes, senhores conspiradores? Reagir contra Castella? Negar-vos ao pagamento dos novos lançamentos ? Serdes os primeiros em sacudir o jugo estrangeiro? Tambem eu o quero e ardentemente o desejo: e, como nenhum de vós, colher á mão...

Susteve-se. Gaspar Correia respondeu-lhe:

-- Não vos podemos conhecer, Manuelinho. Que haveis feito por nol-o mostrar? Nada até ao presente. Só vos tendes apresentado mais grave e mais cordato nas palavras, que diversas são aqui das que usaes nas praças.

-- Isso vos bastaria, illustre filho de Santo Ignacio, para saberdes o muito que pela causa do povo tenho feito. Qual de vós percorre essas ruas em continua apupada do rapazio, operando com truanices e dislates, uma revolução espantosa? Dizei francamente, nobres eborenses, que me ouvis, quantos de vós não haveis achado razão ás minhas palavras sem imputação; quantos, ouvindo-me, não tendes sentido ferver o sangue nas veias em justa indignação contra castelhanos ?

-- É verdade, disseram alguns mechanicos.

-- É verdade, continuou Manuelinho, é; e não conheceis vós, sr. Gaspar Correia, o poder d'esta arma! Escapou á vossa natural argucia... concluiu sarcastico.

-- Perdoae, Manuelinho; mas notae bem que, se não fôra o conhecermos nós isso que dizeis, não estarieis entre nós, nem se vos tornaria conhecido o nosso fim.

-- Mal vos desculpaes, illustre orador. Mas sem querer desconsiderar-vos, e para que fiqueis sabendo bem o serviço que prestarei á santa causa da liberdade da patria, notae, e vós todos, senhores que me ouvis, -- o bobo, o dizidor de parvoices por essas ruas e praças será o realisador da grande obra da independencia.

-- E nós todos, acudiu Gaspar Correia.

-- E vós todos, sim: é preciso o vosso apoio e mutua coadjuvação; mas, ai de vós se eu não fôra n'este gremio! Ai de vossas cabeças!

-- Explicae-vos.

-- Sim, explicarei; mas, é cedo ainda. Preciso ter uma conferencia comvosco antes que diante d'estes nobres eborenses eu patenteie o grande serviço que a todos poderei fazer.

-- Procurae-me ámanhã no collegio depois das onze horas do dia, disse-lhe Gaspar Correia. E voltando-se depois para João Barradas, continuou:

-- Sizenando Rodrigues não apparece; adiantada corre a noite e eu proponho que nos retiremos até ámanhã. Viva a independencia portugueza!

-- Nunca! Ouviu-se bradar fóra no corredor, percebendo-se perfeitamente o desembainhar de uma espada e logo depois a detonação de um tiro.

Precipites correram aquelles homens com as espadas nuas, para a porta que abriram, quando por ella cambaleante caía um homem, que os primeiros ampararam nos braços, em quanto os mais destemidos voaram ao corredor, onde se ouvira o tiro.

XI

Arcades ambo

«Estava dando leis ao mundo inteiro

«A companhia.»

J. B. DA GAMA -- o Uraguay, c. v.

A grandiosa casa dos Jesuitas de Evora, é, como as demais d'aquella ordem, solidamente construida em todas as fabricas e officinas que a compõem.

Entremos n'ella pela porta principal, que hoje dá entrada para a Casa Pia d'esta cidade e para o Governo Civil do districto.

Na cella de Sebastião do Couto pratica este com Gaspar Correia. Attendâmos:

-- Não é caso para cuidados: Sizenando Rodrigues está melhor: não é perigoso o ferimento, parecia responder já a uma pergunta, Gaspar Correia.

-- E que sabeis do espião? perguntou Sebastião do Couto.

-- Nada mais: ha duvidas sobre quem será. Apesar de parecer fr. João Palhares suppõe-se que não sería elle.

-- Não será; mas, é para mim de fé que o espião, quem quer que for, alli foi mandado por aquelles pobretões dos franciscanos, a quem importa darmos lição severa de habilidade e de astucia.

-- Que projectaes, então?

-- Attrahir aqui o Guardião de S. Francisco e forçal-o a congregar-se comnosco.

-- O ponto está em o colhermos n'esta casa.

-- Ha de vir.

-- Em quanto, porém, vos occupaes d'esse plano de o attrahir a esta casa, convém notar que não deveis olvidar outro ponto deste importante negocio.

-- Apontae-o.

-- Alludo ás falas do Manuelinho: depois do que lhe ouvimos é parecer meu que o devamos escutar. A intimativa com que expôz suas ideias, a clareza e bom senso manifestados, deixa m-me presuppôr n'aquelle homem quiçá um louco fingido.

-- Sim; elle prometteu vir conferenciar commigo. Aguardemol-o.

-- Se lembraes o mau, apparelhae o pau, disse Gaspar Correia; ouço vozeria na rua; e, se me não engano, será de certo o cortejo do dizidor.

Os dous chegaram-se a meia janella d'onde podiam ouvir melhor a vozeria. Era, de facto, Manuelinho que atravessava o largo do collegio cercado do rapazio de Evora, voz em grita, a quem distribuia disparates e inepcias.

-- Ide-lhe vós ao encontro, Gaspar Correia, e conduzi-o cá.

Em quanto Gaspar Correia fôra ao encontro de Manuelinho, ouçamos os terriveis planos de Sebastião do Couto.

-- E por que não? A maxima é antiga: excellentes são todos os meios quando com elles se conseguem os fins. O Palhares ha de falar; ha de dizer-nos quem é o espião, e este ficará então por minha conta; por conta d'esta illustrada casa... Ai franciscanos, franciscanos! sois rapozas velhas, sim, mas falta-vos o vigor da nossa mocidade : vel-o-heis.

Instantes depois entravam os dous na cella do notavel jesuita.

-- Sêde bem vindo, Manuelinho.

-- Em prol da nossa causa, senhor Sebastião do Couto, respondeu Manuelinho.

-- Sentae-vos; e, porque os successos se desenvolvem de um modo contrario aos nossos planos, e parece cousa assentada que o corregedor Sarmento já tem ordens para a cobrança do novo imposto, que vae ordenar, e a tudo accresce o desconfiarem de nossos planos aquelles servís dos franciscanos, se d'elles não tiverem certeza ao presente, dizei agora que projecto é esse de que falastes na taverna de Antão Vasques, sem o qual mal nos sairemos da empreza.

-- Concordo comvosco nas principaes razões: preciso é que nos apressemos. O meu plano não é para vos ser divulgado já. Ámanhã o conhecereis vós todos. Hoje, porque não julgueis inutil minha vinda, annuncio-vos um duello e convido-vos para padrinhos d'elle.

-- Um duello! exclamaram os dous jesuitas.

-- Um duello entre mim e o castelhano que feriu hontem na taverna de Antão Vasques com uma bala a Sizenando Rodrigues.

-- O que?! Pois somos espiados por castelhanos? exclamou, pondo-se de pé o collegial Sebastião do Couto.

-- Somos.

-- Porém Sizenando disse que vira um franciscano espreitando á porta...

-- Era disfarce do castelhano, que se abriga na casa d1aquelles traidores á patria.

-- Como soubestes, porém, o que dizeis, e porque um duello com esse?

-- Á primeira pergunta respondo-vos: com o poder de um bobo sem imputação, e á segunda só á noite vos poderei responder.

-- Na taverna de Antão Vasques?

-- Não, disse Manuelinho. Reuniremos n'outro ponto. Não sois vós os que tendes a chave da torre Mouchinha?

-- Somos: alli fazemos algumas observações astronomicas.

-- Avisae, portanto, para reunião n'aquella torre hoje á meia noite. O sitio é ermo, como sabeis, e fica-vos perto de casa.

-- Está ajustado; mas, se como haveis dicto e promettido, a revolução em Evora carece do vosso auxilio, não póde mesmo vingar sem elle, a incerteza de um duello, que vos póde levar a vida, é grave êrro a que nos devemos oppôr e oppômos, em nome da patria commum, que não póde malbaratar os poucos filhos leaes que essa Castella ainda não mandou para Flandres. E vós mesmo deveis evitar esse encontro. A um espião inimigo costumamos, nós os da Companhia de Jesus, dar melhor gasalhado, livrando-os dos perigos e inclemencias do seculo... Se quereis...

-- Sei; conheço vossas armas; e mostrava aos dous jesuitas um vidrinho cheio de liquido incolor, e um punhal curto e mui agudo; mas, estas armas nem sempre devem servir; quanto ao receio que haveis de ficardes sem mim, infundado é elle, porque esse castelhano, a quem tirarei a vida, conhece já ha largos annos a força do meu braço, e está costumado a cair-me aos pés, e a respeitar-me prostrado.

-- Procedei como entenderdes.

-- Antes de vos deixar importa que me digaes as noticias que haveis recebido das terras que se propõem segundar o movimento revolucionario, especialmente de Villa Viçosa.

-- Boas são as noticias de toda a provincia: com excepção de Elvas e Moura póde dizer-se que não ha terra alguma que não siga o levantamento. O sr. Duque de Bragança está bem disposto, e mais animada ainda a Senhora D. Francisca Luiza de Gusmão. O Algarve é um volcão latente. Tancos, Santarém, Abrantes e outras terras da Estremadura correspondem-se comnosco. No Minho já tem braços a nossa conspiração: Vianna espera o signal: as mais sublevar-se-hão naturalmente ao grito sympathico da liberdade da patria.

-- Ao que dizeis accrescento eu que no Algarve succede o mesmo: ao grito que soltarmos, responderão os echos das principaes povoações d'aquella Provincia. Até á noite.

E Manuelinho saiu.

-- Este homem será realmente um louco? perguntou Gaspar Correia a Sebastião do Couto.

-- Em verdade, não sei que responder-vos. Se não é um louco, ao menos é certo ser mysterioso e inexplicavel.

-- O que é mais para ser notada é esta confiança que n'elle depositamos. Tornarmos solidario comnosco em negocio de tanta importancia a um bobo, que muito promette, e nada, ou quasi nada ha feito, é, de facto, imprudencia de que oxalá não tenhamos que nos arrepender...

-- Não teremos, disse por fim Sebastião do Couto: o homem ha de um dia arrancar a mascara: entretanto, como é certo agitar elle as turbas em favor do levantamento, como acaba de nos prestar o serviço de descobrir a qualidade do espião, que nós suppunhamos ser um franciscano, e como nos póde vir a ser mais util ainda, não só convém tractal-o bem, mas ainda obstar ao duello de que falou. Á noite tractaremos d'isso: mandae vós avisos n'este sentido a João Barradas e a Sizenando Rodrigues. Entretanto eu cogitarei meio de colhermos á mão esse espião de Castella. Fr. João Palhares será bondoso acquiescendo a nossos desejos, senão...

Gaspar Correia saiu deixando Sebastião do Couto ás voltas áquelle problema de converter a Palhares, de obstar ao duello, ou, na impossibilidade, de cortar aquelle gordio com as consequencias do terrivel e sombrio -- senão, -- ultima ratio da Companhia.

Deixemos nós tambem, leitores, o collegio dos Jesuitas, e penetremos no convento de S. Francisco e n'aquella cella já nossa conhecida, onde fr. João Palhares recebera ao romeiro de S. Thiago de Galliza, a quem tractára por D. Miguel de Salamanca. Vamos em boa hora, porque á porta da cella do Guardião pede licença para entrar pessoa de nossas relações.

-- Sejaes bem vindo. Como estaes?

-- Bem: a espada do burguez apenas me feriu levemente o lagarto do braço; nada é.

Sentae-vos. E fr. João Palhares offerecia a D. Miguel de Salamanca, que outro não era o personagem, aquella cadeira de espalda em que já o vimos assentado.

-- Que respondeu Sarmento, vem? perguntou o castelhano.

-- Vem, e não se fará esperar muito.

-- Importa sabermos se, como traidores a el-Rei, poderemos ainda hoje metter em ferros ao Juiz e ao Escrivão do Povo e a toda aquella gentalha. Os collegiaes... os collegiaes terão de esperar mais algum tempo.

-- Isso depende da grandeza da conspiração: se apenas se limita a alguns homens, se não tem raizes fundas ainda esmagâmos hoje mesmo esses loucos; se, porém, estende largo já suas raizes, se se alimenta ao longe, em terras diversas, será mais custoso, porque um ramo cortado á arvore importa rebentos novos n'outros pontos, e mais vigor e força aos já existentes.

-- Sarmento nos informará da força de que dispõe.

-- Repito-vos uma pergunta que hontem vos fiz: -- o homem que vos acommetteu, não era, realmente, o Manuelinho, aquelle individuo que tanto desejaes evitar?

-- Não era. O homem sobre quem desfechei, era um moço ainda: esse a quem chamaes o Manuelinho, tem cincoenta annos e é mais alto.

-- Nem crêdes que estivesse dentro, entre os conspiradores?

-- Isso é possivel, porque, no pouco tempo que lá estive á porta, notei que um dos collegiaes respondia a um homem que promettia um grande auxilio á revolução.

-- E não conhecestes essa voz? não sería a do homem que suspeitaes?

-- Não conheci; e, dado que fosse elle, já hoje lhe não reconhecêra a fala: trinta annos...

Na porta da cella ouviu-se n'este comenos bater: Palhares abriu-a.

-- Daes licença?

Era André de Moraes Sarmento, que a S. Francisco fôra chamado pelo Guardião d'aquella casa. Entrando, curvou-se respeitoso ante D. Miguel de Salamanca. Este perguntou-lhe:

-- Conheceis bem, senhor Sarmento, o poder d'esses estouvados que tentam reagir contra as ordens de el-Rei?

-- Por emquanto não tem importancia; póde, porém, vir a tel-a no futuro, se não tirarmos a liberdade a um bobo, que por ahi anda prégando contra Castella. O povo apellida o Manuelinho, por ironia e escarneo á sua corporal grandeza, mas acceita-lhe a doutrina subversiva.

-- É o que vos eu tenho dicto, disse para o castelhano fr. João Palhares.

-- Mandae-o prender quanto antes, respondeu D. Miguel de Salamanca.

-- Já não é facil prendel-o publicamente, por que o homem tem partido seu na classe mechanica e esta póde agitar-se em seu favor.

-- De que força dispondes vós?

-- De pouca, ou de nenhuma. A força de que disponho é toda moral, porque o terço que ahi tinhamos, foi ultimamente chamado a Lisboa, creio que para ir para Flandres. Não tenho força armada. Lembro, porém, um meio de nos apoderarmos do bobo: é chamal-o aqui com um pretexto razoavel, e não o deixar sair mais, ao menos em quanto convier.

-- Será elle facil em vir a esta casa? Se o homem é conspirador, conhece de certo que este convento é seu inimigo, e não virá.

-- Tem razão o sr. Sarmento, e vós ponderaes bem, senhor D. Miguel; mas o homem ha de vir, eu vol-o prometto, disse Palhares.

-- Como? perguntou Salamanca.

-- Temos ahi no convento um leigo com summa habilidade para a escripta: imita admiravelmente qualquer letra. Ora já vêdes que, enviando-se-lhe um bilhete da letra de Sebastião do Couto, que o chame a esta casa para serviço da conspiração, o homem, a serem verdadeiras as suas relações, não deixará de vir.

-- Parece-me bem; e, se for... far-lhe-hemos o que ha pouco me aconselhastes; não sairá mais d'ahi, disse D. Miguel de Salamanca, contente com a ideia de se desfazer de um fantasma.

Aqui tem o leitor como nas duas casas religiosas de Evora, de mais importancia em 1637, se tractava do espiritual das almas, premeditando-se tão humana reciprocidade de serviços!

Quem vencerá?

XII

Novos amores

«Sobre o peito do amante a linda frente,

«Desfeita em meigo pranto, amante inclina»

MOUSINHO DE ALBUQUERQUE -- Ruy o Escudeiro.

Em quanto os jesuitas de Evora, contra a expressa letra de seus estatutos: -- «Na companhia nam aja nem se sinta inclinaçam das vontades a hua ou a outra parte da contenda, se porventura a ouvesse entre Principes, ou Senhores Christãos» tão activa parte tomam na conspiração contra Phihppe III pelo outavo Duque de Bragança, D. João; em quanto os franciscanos, menos patriotas e mais ingratos, por isso que aos reis de Portugal D. João II e D. Manoel especialmente, deviam mercês e dadivas magnanimas, abrigam em sua casa a um espião, que o Conde Duque de Olivares mandára a Portugal inquirir do estado moral do povo, no disfarce de um peregrino; e, mancommunados com a Hespanha, pugnam pela escravidão impossivel de um grande povo, vejâmos os esforços que por outro lado emprega o Juiz do Povo de Evora, João Barradas e seu Escrivão, Sizenando Rodrigues, para uma reacção publica e solemne contra as ordens de Castella.

Sabendo o Juiz do Povo dos amores que se davam Sizenando Rodrigues e a bella filha do corregedor Sarmento, desejava que este magistrado não mandasse cumprir e executar as ordens de Castella relativas ao enorme imposto. Para isto conseguir julgava elle que bastariam as supplicas de Constança Sarmento, movida pelo amante, e, quando mesmo precisas, ameaças em nome do povo. O leitor assistiu ao encontro de Sizenando Rodrigues com o pseudo-franciscano, na taverna de Antão Vasques, que outro não era senão D. Miguel de Salamanca. O escrivão do Juiz do Povo vinha áquella hora de um encontro amoroso, rendez-voua, como hoje diriamos, com D. Constança Sarmento.

Antes de narrarmos ao leitor a conversação dos dous amantes, conveniente nos parece o indicar-lhe a casa que por aquelle tempo habitava o corregedor, de odiosa memoria.

Eram essas á entrada da rua da Cadeia, e talvez aquellas em que hoje habita o rev.do padre Antonio Morte; ou, se não essas, ao menos as immediatas, que de certo modo ainda dão para a praça de Evora. Um quintal havia com uma entrada pela travessa do Cavaco, por onde a deshoras Sizenando ia ao encontro de Constança.

Como bem se recordará o leitor, quando Constança Sarmento entrou para a cathedral, ajustára falar n'aquella noite a Sizenando. Este não faltou.

Andára a passeiar com João Barradas até proximo da meia noite no Rocio, e deixára-o com um -- adeus até breve -- para se dirigir á travessa do Cavaco. Chegado á porta do quintal, ao soar a meia noite na cathedral, pouco esperou antes que ouvisse passos e a chave dar volta á lingua da fechadura.

-- Ha muito que me esperaveis? disse Constança ao amante.

-- Não, agora havia chegado, minha bella Constança. A porta fechou-se sem grande ruido, e os dous caminharam para um recesso do quintal ajardinado, onde se podiam occultar na ramagem do jasmineiro e das roseiras, que trepavam por um caramanchel de madeira. Sentaram-se: e, porque a noite estava fria e um tanto humida, Sizenando cobrira com a sua longa capa o gracioso corpo de Constança, sem se descobrir a si.

-- Acceitae mais um agradecimento, minha adorada Constança: só a affeição que me tendes, teria poder para tanto. Está tão fria a noite...

-- Nada haveis que me agradecer. No que por vós faço não ha vistas em agradecimentos: não me sacrifico ou contrarío vindo para vós, porque vos amo, como nem eu sei se apreciareis bem.

-- Sêde justa commigo, minha querida. Acaso não sabeis já que meu peito vos comprehende, que minha alma afina com a vossa a despeito de uma differença que a sociedade quer achar entre nós?

-- Sei, e por isso sou e hei de ser vossa. É que nós as mulheres suppomos senão sempre, muitas vezes ao menos, que não chegamos a ser bem apreciadas e conhecidas dos homens a quem damos nossos affectos. Apesar de vossas qualidades é-me agradavel acreditar que não comprehendeis bem a grandeza da affeição que vos dou; porque assim tenho a esperança de que mais e mais sereis meu, quanto me conhecerdes melhor. Todos os dias vos posso conquistar uma affeição. Deixae-me com este orgulho, que só por vós quero ter, e manifesta o quanto vos estimo. Talvez estranheis esta linguagem nos labios de uma mulher; mas, que quereis? Passou por mim a edade em que eu hesitaria em vos falar assim; hoje tenho a coragem para vol-o dizer.

-- E não conheço eu o quanto me quereis? Não vos offereci eu já o que mais tenho para vos dar? a minha mão, o meu amparo, o meu braço para vos servir e defender?

-- Tendes. Mas eu, que sou vossa como sabeis, que vos quero como a nenhum outro homem, tambem tenho a meu pae amor filial tão intenso como o que vos consagro; e, porque o acceitar-vos já o amparo, importaria grave desgosto para elle, por causa d'esse stulto preconceito social, que nos considera desiguaes, só mais tarde vos acceitarei a protecção, mais tarde, se fôrdes constante como eu sou e serei.

Podeis crêl-o; eu vol-o juro, minha bella.

-- Creio, sim: não jureis. O que, porém, vos peço, é que sejaes discreto ainda com os vossos mais intimos amigos; que só nós dous conheçamos a affeição que nos attrahe e une; que nem em sonhos ouseis proferir o meu nome, porque, se meu pae o soubesse, grandes desgostos seriam os d'elle e os meus.

-- A ninguem o digo nem direi; mas, dado que vosso pae o soubesse, e porisso vos quizcsse maltractar, em mim acharieis o que elle vos negasse.

-- É isso exactamente o que eu pretendo evitar. Já não estou em edade de me allucinar uma paixão; agora curvo-me á sua influencia, mas resisto aos seus empuxões. Sou como a planta, como o arbusto á borda do rio: curva-me a corrente, mas não me leva, mas não me arranca. E quero-vos muito, meu Sizenando, se quero!

-- Formosa Constança!..

E um amoroso abraço lhes comprimiu os peitos anhelantes. Depois de curto intervallo de silencio a filha do corregedor de Evora disse com voz languidamente amorosa para o amante:

-- Não sei que presentimento é sempre um que tenho, e que depois d'estes deliciosos instantes me assalta o coração, n'uma vaga e indeterminada fórma! A reacção do povo...

-- Nada é, interrompeu Sizenando. Isso a que chamaes presentimento, não é mais do que o mesmo desprazer que eu sinto ao separar-me de vós; mas, pois que vos referistes ao povo, dizei-me o que haveis conseguido de vosso pae. Presistirá elle na cobrança do imposto?

-- Não ha dissuadil-o, não ha aconselhal-o a expôr a el-Rei o descontentamento do povo, e a pedir-lhe modificações ao menos no lançamento novo. Falla nos deveres de seu cargo, e não hei podido demovel-o de seu proposito.

-- Mas não lhe patenteastes o perigo que o ameaça já, e o póde saltear um dia?

-- Sim, por vezes tenho alludido ás secretas reuniões do povo, e meu pae apenas responde que taes reuniões não existem, ou, se existem, nenhuma importancia terão.

-- Mal informado anda vosso pae. N'essas informações incompletas podeis vós, bella Constança, ver o pouco poder do corregedor; nem já encontra um espião capaz. Mas talvez que mui brevemente conheça a profundura do abysmo, que ora não vê. Peço-vos por elle, que tanto presaes, como deveis, que não deixeis de lhe pedir, senão recusa da sua parte em cumprir as ordens de Castella, ao menos uma exposição verdadeira ao Conde Duque de Oiivares, do descontentamenlo do povo. De outra fórma não sei eu, se, quando for tempestade desfeita este tumultuar do povo, a vida de vosso pae correrá algum perigo.

-- Que dizeis, Sizenando?! Pois sendo vós o escrivão d'esse povo, não tereis força para suster a sanha do que, mais indignado, attentar contra meu pae?

-- Cuido que terei; mas, vós sabeis, porque sois intelligente, que nem tudo podemos prever e evitar.

-- Assim succede por vezes; mas eu quero que vós ponhaes todo o vosso cuidado em salvar meu pae, dado que o povo enfurecido acommetla a auctoridade.

-- Isso farei; mas é preciso que vós lhe mostreis claramente o estado das cousas: a conspiração toma corpo enorme; o reino está desarmado; o povo portuguez não póde viver mais tempo agrilhoado; e, no sacudir da gargalheira de escravo, póde ferir a cerviz orgulhosa do senhor... Vêde bem isto, e fazei-lh'o perceber melhor. Nada temaes por vós em quanto eu viver, e por vosso pae mesmo, se não reagir contra a vontade de um grande povo, contra seus compatriotas, porque, n'este caso, eu não sei se poderei alguma cousa.

-- Haveis de poder, oh! dizei-me que haveis de poder muito, por salvar meu pae!

-- Contae commigo: mas promettei-me tambem a mim de envidardes todas as forças do amor filial para abrandar vosso pae.

-- Prometto, sim, como já prometti, e hei de cumprir a missão.

N'este momento soára uma hora na cathedral. Sizenando, ouvindo-a, e conhecendo que não devia demorar-se mais aquella noite, disse a Constança:

-- Vou deixar-vos, porque por mim esperam alguns amigos, e eu não posso faltar. A noite mesmo está mui fria, e podeis soffrer, se mais tempo aqui estiverdes.

-- Se não é forçoso sairdes já, entremos em casa; a esta hora já não ha inconveniente, como sabeis, respondeu Constança.

-- É forçoso partir. Adeus até ámanhã.

-- Até ámanhã á mesma hora. Não falteis.

E após um longo abraço os dous encaminharam-se para a porta, e Sizenando saiu por ella. Leonor, recolhida ao seu quarto, passou uma noite inquieta, e Sizenando entrou na taverna de Antão Vasques pela rua dos Touros. O que alli succedeu no corredor já o leitor conhece desde que ouviu desembainhar uma espada e desfechar uma pistola. O que elle, porém, não sabe é que um vulto seguira de perto Sizenando Rodrigues desde a travessa do Cavaco, sem que este désse por similhante cousa. Quem sería?

XIII

Na Torre Mouchinha

«Agora vejo que ha nescios que fallam

bem, e doudos que o não parecem».

LOBO -- Pastor Peregrino.

São decorridos mezes.

A torre Mouchinha foi uma das que, no cinto de muralhas romanas de que ainda ha vestigios em Evora, guardaram outr'ora de inimigos esta cidade. Não era massiça, mas tinha dous andares, que se communicavam por uma escada de caracol. Entremos no primeiro pavimento ás dez horas da noite do dia immediato áquelle em que na cella do jesuila Sebastião do Couto se concertára ter logar alli a reunião dos conspiradores.

Estão n'ella apenas dez homens; são os de maior influencia na conspirarão: Sebastião do Couto, Gaspar Correia, Alvaro Pires Pachero, Diogo Lopes, Manuelinho, João Barradas, Sizenando Rodrigues, o Guardião de S. Domingos, e dous conegos da Sé.

Sentados em cadeiras ordinarias, o primeiro que ergueu a voz foi Sebastião do Couto.

-- Reunimos hoje aqui, senhores, em menor numero, porque, como sabeis, a policia da Duqueza de Mantua já nos vigia. Convém, pois, e urge mesmo, que precipitemos a solemne demonstração contra esses tributos vexatorios. Dizei-nos, porém, senhor João Barradas, se já tendes alguma ordem ou aviso para a cobrança d'elles.

-- Não tenho, respondeu o interrogado. Recebi apenas recado para comparecer depois d'ámanhã em casa do corregedor Sarmento, para serviço d'el-Rei, e serviço supponho eu ser esse de que falaes.

-- Que faremos, pois, dizei vosso parecer, Manuelinho; e, sobretudo, exponde hoje o serviço assignalado que ha tempos nos prometteis fazer. Já nos descobristes que não fôra um franciscano quem ferira a Sizenando Rodrigues, mas um espião de Castella, e quem taes serviços presta sem duvida tem força e poder para mais descobrir. O tempo urge.

-- Sim, haveis razão, senhor Sebastião do Couto; o tempo pede-nos urgencia, antes que as cadeias se comecem a encher de gente. Antão Vasques foi preso haverá uma hora; nós mesmos não sei se aqui seremos espiados; portanto, direi, sim, o que me parece deveremos fazer.

Depois d'ámanhã tem aviso o senhor Barradas para ir a casa do corregedor; deverá ir acompanhado do senhor Sizenando Rodrigues. Suppondo que Sarmento os queira privar da liberdade em laço traiçoeiro, devemos ter na praça alguns dos nossos, e avisados todos para á primeira voz. Eu me encarregarei d'isto. Como as revoluções grandes ou pequenas custam sempre algum sangue, preciso é que nos armemos; e forçoso será tambem que a minha espada crave ámanhã o peito d'esse espião de Castella, que tem poder para nos prejudicar.

-- Vejo que não desistis d'esse proposito; eu, porém, e nós todos vos pedimos para que similhante desejo não realiseis. A sorte póde ser-vos adversa e nós ficarmos privados de um leal servidor á patria e de um amigo. Melhor será acceitardes as minhas ideias que hontem vos expuz...

-- Nunca! No caso presente fôra a maior das indignidades que sobre mim pesára. Hei de encontrar-me por todos os modos com esse homem, origem da desgraça de uma familia portugueza, e das mais honradas... Hei de apparecer-lhe terrivel como o deus da vingança, como a sombra temerosa de meu desgraçado pae, como sudario sangrento de minha infeliz irmã, como um castigo do céo...

-- Mas, interrompeu Sebastião do Couto...

-- Nada receeis. .lá vos disse que esse miseravel castelhano costuma respeitar-me prostrado a meus pés. Não deixo a occasião que ha tantos annos busco e que ora, finalmente, me apparece, como se fôra a justiça do céo. Deixae isto a meu cuidado. Convidei-vos para padrinho d'esse duello tremendo, subordinando o convite a um projecto que modifiquei; já vos dispenso, poripie mudei de parecer. Voltemos á liberdade da patria.

-- Se, porém, nos dissesseis, como amigos, quem é esse hespanhol, que nos vigia; e, para melhor vos auxiliarmos em tudo, quem sois vós, que tão bem disfarçado haveis vivido em Evora... perguntou o astuto jesuita...

Manuelinho hesitou. Scismou um instante, e prorompeu:

-- Sim, direi em breves termos. O castelhano chama-se hoje D. Miguel de Salamanca, e haverá trinta annos havia nome Manoel de Vilhena; vivia em Cheles, nas margens do Guadiana em seu castello, hoje arruinado. Na margem portugueza do rio jaz hoje, em ruinas tambem, o castello de Pena de Alfange. Horrivel tragedia alli se consumou pelos annos de 1600...

Manuelinho entristeceu-se e calou-se.

-- A historia d'esses castellos é conhecida bastantemente. Ainda hoje se diz...

Manuelinho continuou: No pó das campas jazem duas victimas innocentes... sobreviveram dous homens, um para ser punido, como criminoso, outro para vingar seu pae e sua irmã; a victima será D. Miguel de Salamanca, hoje espião de Castella; o carrasco será Mendo da Gama, será o Manuelinho de Evora, serei eu!..

Duas grossas lagrimas se lhe viram deslizar vagarosas pelas faces cavadas prematuramente, num soluçar soturno e abafado. Momentaneo foi aquelle estado dolorido do velho, porque, recompondo logo o rosto, levemente transtornado, continuou:

-- Senhores conspiradores! Debalde procurou Mendo da Gama a Manoel de Vilhena na Hespanha durante mais de trinta annos!... Occulto no pomposo nome de D. Miguel de Salamanca occultára-se-me sempre o senhor do castello de Cheles... Depara-m'o hoje a Providencia! Far-se-ha a vontade de Deus. Ou Manoel de Vilhena perderá a vida na ponta da minha espada, ou eu exalarei o ultimo suspiro, victima tambem, aos pés do algoz castelhano. Eis aqui tendes, pois que desejastes saber a minha inabalavel vontade, o que quero e quem sou.

Os espectadores estavam pasmados e commovidos, vendo alli, vivo ainda, um homem que a tradição dava morto no incendio de Cheles. Os successos das margens do Guadiana foram ruidosos, e, como taes, eram conhecidos no Alemtejo e Algarve, e, por ventura, no reino. Nenhum dos circumstantes ousou fazer reflexões a Manuelinho.

O proprio Sebastião do Couto ficou scismante no que devia fazer: ou deixar Manuelinho seguir o seu plano de duello e vingança, ou de formalmente se oppôr. Manuelinho continuou:

-- Não podemos perder tempo. Já vos disse o que se deverá fazer depois d'ámanhã. Depois d'ámanhã diz-me um presentimento, que será o grande dia do resgate da patria. Acautelae-vos até lá das garras da Hespanha, e apparelhae-vos para a lucta. Mas toquemos o ponto principal: dizei-me, senhores, já pensastes bem nas consequencias da revolução, se a coragem e a pertinacia faltarme aos que promettem repercutir o echo da nossa voz revolucionaria? Se faltarem, estamos sem remedio perdidos, nós, que somos os motores da revolução. Seremos indicados logo, presos e justiçados.

-- Isso é verdade, disse o Guardião de S. Domingos; mas não poderemos nós, em nome da Inquisição, metter ainda hoje em seus carceres ao Guardião de S. Francisco, ao castelhano e ao corregedor? Se approvaes este previo ensaio, d'aqui a uma hora estarão os familiares do nosso santo tribunal a bater á porta d'esses inimigos da patria.

Manuelinho, ao ouvir aquellas falas, ficou espantado, como quem se admira de lhe não haver occorrido ainda o brandir d'aquella arma tremenda. Depois disse, satisfeito:

-- Pensaes bem. Expedi já uma ordem para que a vossa gente bala á portaria de S. Francisco em nome da Inquisição, e leve preso a um homem que lá se abriga, estrangeiro, e falso romeiro de Sant'Iago de Galliza, que faz da religião arma contra Portugal.

-- Vou eu proprio, disse o dominíco. E dispunha-se a sair.

-- Não ireis só, mas acompanhado de dous homens, acudiu Manuclinho.

Immediatamenle se promptificaram os jesuitas, Alvaro Pires Pacheco e Diogo Lopes, que logo sairam com o Guardião de S. Domingos.

-- Aqui vos esperâmos, disse Manuelinho para os tres, que partiram.

-- Famosa lembrança teve o dominicano, disse Sebastião do Couto, meio contente, meio desgostoso por lhe não ter lembrado a elle tão excellente meio.

-- Bom é, em verdade, o plano d'elle, e podia executar-se formal e inteiramente. Não é preciso, porém, segurar mais do que o castelhano, que é medroso e póde fugir.

-- A meu cuidado ficará o Guardião de S. Francisco, acudiu Sebastião do Couto.

-- E ao meu, disse também João Barradas, será a muito querida pessoa de André de Moraes Sarmento.

-- Muito bem, senhores; mas voltemos ao ponto capital: para que vossas cabeças não corram o menor perigo é mister que a minha se exponha em holocausto. Havido e tido por um louco sem imputação, sem importancia serão tidos os meus actos, não é assim?

-- Quem vos não conhecer, possivel é que assim pense; nós não.

-- Ouvi, pois, nobres eborenses, o serviço que ha tempo já vos annuncio prestar: -- Dou o meu nome de louco e dizidor para vós todos vos esconderdes detrás d'elle. Serão assignadas por mim as ordens da revolução, os seus mandados e editos. Assignarei até, sem ler, tudo o que determinardes em prol da patria; e, se alguem quizer tomar contas ao povo revolucionado, encontrará sómente a um louco que por tudo se responsabilisará. E, pois que é um louco, como loucura terão o iniciamento da liberdade portugueza; e não só ignorarão quem são os chefes do movimento, mas nem sequer terão ideia de castigar a um bobo.

-- Excellente!

-- Optimo!

-- Famoso pensamento!

Assim, e por outros modos exclamaram aquelles homens, attonitos com tão feliz ideia.

Soava meia noite no sino de Nossa Senhora do Anjo, na cathedral.

-- Agora, disse Manuelinho, podemos sair. Nos Açougues esperaremos ao Guardião de S. Domingos.

XIV

A cilada

«Daranlos rayos de tus ojos vida,

«Si dan los rayos de tu mano muerte.»

PAULO GONÇALVEZ DE ANDRADA -- Varias Poesias.

O tribunal da Santa Inquisição portugueza em Evora campeiava no mais elevado da cidade, proximo do paço archiepiscopal, e unido mesmo ao celebre templo romano de Diana ou de outra divindade. Era uma vasta casaria com dous pavimentos, exceptuando os carceres e masmorras terreas. Ainda subsistem um muro com o portico de marmore, desencimado já do brasão do santo officio, pedra de fino marmore que se conserva na collecção epigrapho-archeologica reunida pelo actual bibliothecario da bibliotheca d'Evora Augusto Philippe Simões, e duas columnas tambem de marmore que já do muro a dentro sustinham um alpendre á entrada do edificio: o mais está transformado em habitações urbanas.

Em quanto para alli se encaminham os conspiradores da Torre Mouchinha, sigamos nós, leitores curiosos, a Sizenando Rodrigues que, havendo-se despedido do grupo detrás da capella-mór da Sé, descia aquella rua por onde a Porta do Sol dá entrada para a cathedral eborense, e á qual ultimamente se poz o nome de rua do Cenaculo, nome grandioso de mais para a pequenez d'ella.

Sizenando Rodrigues chega ao Poço de S. Manços, entra na rua da Misericordia, passa á dos Infantes, e, na extremidade, já na rua do Paço, desce e toma á direita pela rua do Arquinho, hoje travessa do Cavaco.

Ainda bem não dera alguns passos n'ella, eis que se lhe depara um vulto na escuridão da noite, meio cosido com a parede e, ao que parecia, totalmente envolvido em longa capa, e chapeu sobre o rosto.

Depois do acontecimento da taverna de Antão Vasques, razoavel era que Sizenando levasse a mão ao punho da espada, antes de ir por d'avante. Isto fez, avançando para por elle passar. Prestes, ao approximar-se-lhe, o vulto que parecia esperar por elle, destaca da parede, estende os braços inermes e brada:

-- Por Deus! Não andeis mais, meu Sizenando, que vos perdeis!

E o vulto que assim bradára, e nem ao Escrivão do Povo nem ao leitor deixou de se dar a conhecer pela resoluta filha do corregedor André de Moraes Sarmento, correu a estreitar nos braços o amante estupefacto.

-- Vós, aqui! Falae prestes.

-- Armaram-vos uma emboscada; dentro do jardim, e Deus queira que só alli, esperam-vos assalariados de meu pae, a quem parece que um franciscano divulgou nossos amores. Quando batesseis á porta, serieis preso e talvez morto.

-- Que dizeis! Por um franciscano!

-- Sim, que vos espiava quando me vinheis falar.

-- Oh! franciscanos, franciscanos, que o haveis de amargar! Como viestes, porém, aqui?

-- Em quanto meu pae, e não sei que outros, se escondiam para vos colher, tive eu traças para sair pela outra poria.

-- E vosso pae nada vos disse?

-- Nada.

-- E que deliberaes fazer?

-- Recolher-me a casa quando vos deixar salvo.

-- Salvo estou, pois que da cilada me avisastes. Agora a ninguem temo, nem vós deveis receiar nada. Eu vos acompanho a casa. Por que lado quereis ir?

-- Por aqui. E apontava para a saida da rua por onde Sizenando entrara n'ella.

Apenas haviam dado alguns passos na direcção indicada quando avistaram dous vultos na extremidade da travessa.

-- Vedam-nos a passagem, exclama Constança, afflicta.

N'isto ouviu-se o engatilhar de uma espingarda. Sizenando comprehendeu o perigo; mas, como todo o homem corajoso, em breve o esqueceu.

-- Segui-me, disse para a amante. E, desembainhando a espada, ia para caminhar aos vultos, quando a heroica filha do corregedor lhe embargou a passagem, dizendo:

-- Ides mal armado; tomae esta arma, e dae-me essa espada. E offereceu-lhe um par de pistolas. Sizenando, admirando cada vez mais aquella corajosa mulher, tomou as armas que trazia Constança, e consentiu em lhe dar a ella a espada.

-- Segui-me de perto, disse elle, avançando resoluto.

Os dous vultos, ou atemorisados com o apparecimento de duas pessoas, quando apenas esperavam uma, ou porque conheceriam a filha do corregedor, deixaram as posições que haviam tomado aos lados da travessa, uniram-se, e deslisaram encostados á parede pela rua do Paço na direcção de S. Francisco. Afastava-se o perigo. Constança folgou.

Ao desembocar da travessa já se não viram os dous. Sizenando, dando o braço a Constança, tomou a direcção da Praça, subindo a rua do Paço.

-- Presistis na deliberação de irdes para casa?

-- Sem duvida.

-- Mas sereis maltratada, talvez...

-- Ainda o não fui e por isso volto. Se o rigor de meu pae for tal que me force a deixal-o, buscarei então o vosso auxilio, entrarei em vossa casa.

-- Seja como desejaes. E quaes são as ideias de vosso pae respeito aos tributos?

-- As mesmas. Insiste na cobrança, falando em seus devedores. Não ha desvial-o.

-- Pois bem, minha querida Constança, o tempo não permitte que vos demoreis por fóra de casa; entrae n'ella. Se vosso pae vos maltractar, procurae a minha; se nada vos disser, tentae vós demovel-o ainda, amanhã, do seu proposito, porque no outro dia será tarde já. A convite d'elle hei de ir a vossa casa com o Juiz do Povo depois de ámanhã; e n'esse dia, se vosso pae for surdo ás razões que lhe apresentarmos, porá fogo á mina destruidora em que poderá ser victima elle proprio. Dizei-lhe que abra os olhos do espirito se conserva fechados os do corpo.

-- Oh! promettei-me salvar meu pae, exclamou Constança.

-- Salvarei se podér; já vol-o prometti.

Chegavam á Praça. Nem alma viva.

-- Entrae de pressa em casa antes que vosso pae dê pela vossa saida. E acompanhou-a até á porta, que estava cerrada, onde a creada a esperava inquieta e cuidadosa.

-- Depressa, depressa! exclamou aquella, apenas a viu chegar.

-- Adeus, Sizenando!

-- Adeus.

A porta fechou-se rapida. Sizenando permaneceu algum tempo ainda a passeiar na Praça e depois tomou pela rua da Sellaria, chegou ao adro da Sé, e dirigiu-se para os Açougues. Soavam duas horas da madrugada na cathedral. Ao retroceder e ao passar pela porta da Inquisição, esta abriu-se de mansinho, e um sujeito que alli assomára, disse perguntando:

-- Quando?

Sizenando, ao ouvir aquella pergunta, cuja voz não conhecêra, comprehendeu que lhe era dirigida ao modo de um -- quem vem lá -- , e respondeu:

-- Depois d'ámanhã; ou, melhor, ámanhã.

-- Entrae, respondeu a voz que interrogára. Sizenando não hesitou, porque viu logo todo o alcance d'aquella pergunta; os conspiradores estavam alli, e aguardavam a chegada d'elle e alguma noticia que podesse trazer. A porta fechou-se e Sizenando seguiu o familiar do Santo officio. Atravessaram o pateo, entraram no alpendre de que ainda existem as columnas erguidas, como duas sentinellas pelrificadas de horror; e, penetrando no edificio, o Escrivão do Povo deixou-se conduzir por escadas e corredores, que nunca pisára, á sala do julgamento, que, meio alumiada, parece servira havia pouco tempo. Alli se achava João Barradas e os jesuitas conspiradores, faltando apenas Manuelinho, e o Guardião de S. Domingos. Barradas foi ao encontro de Sizenando.

-- Trazeis alguma nova do corregedor?

-- Trago a de que não desiste do seu proposito de proceder á cobrança dos impostos, e a de que me esperava rodeado de assassinos para me tirar a vida.

-- E como vos livrastes do perigo?

-- Avisou-me Constança, que, deixando o pae nos jardins á minha espera, se disfarçára e me corrêra ao encontro na rua do Arquinho, podendo sair de casa de intelligencia com uma creada. Mas, dizei-me, colheram á mão o castelhano?

-- Colheram, e já foi julgado summariamenle e d'aqui levado não sei para onde, entre dous homens mascarados.

-- E que é feito do Manuelinho?

-- Saiu tambem em companhia do Guardião de S. Domingos.

-- E vós esperaes por elles ou esperaveis por mim?

-- Por vós.

-- Eis-me, pois, ao vosso dispôr.

-- Dizei antes ao dispôr da patria. Vamos. E sairam. Nós, leitor curioso, é que não devemos acompanhal-os. Examinemos a Inquisição de Evora.

XV

Na Inquisição

«Grandes tortas, timbales, pasteis, cremes

«cobrem com symetria a grande mesa»

DINIZ -- Hyssope, c. III.

Os dous filhos de Santo Ignacio passeiam ao longo da sala: ouçamol-os:

-- Mas como attrahireis vós ao Guardião de S. Francisco? No estado em que estão as cousas não parece facil, disse Gaspar Correia para Sebastião do Couto; e, todavia, não vem longe a aurora da vespera do grande dia.

-- Já achei o meio; logo o vereis. Apparecei na minha cella por oito horas.

-- Da noite?

-- Não; d'esta manhã.

-- Então convirá que nos recolhamos. O espião está a bom recado, e o Manuelinho cá ajustará com elle essas contas de que nos tem falado.

A uma portinha estreita, encoberta por um retrato de Pedro de Arbues em azulejo magnifico, appareceu a este tempo o Guardião de S. Domingos. Apenas os jesuitas o avistaram, Sebastião do Couto caminhou para elle perguntando:

-- O hespanhol confessou tudo, ou não?

-- Ainda nada confessou; mas ha de confessar no potro em que já o temos.

-- Já?

-- Sem duvida, mandamos-lhe dar um tratamentosinho esperto. O homem ha de falar.

-- E Manuelinho já se avistou com elle? perguntou Gaspar Correia.

-- Manuelinho espera-vos, meus senhores; vinde. E encaminhava-se já para a porta estreita, quando Gaspar Correia acudiu:

-- Porém, vae alta a noite... a manhã approxima-se...

-- Ora vinde, que vos não arrependereis, respondeu o dominíco. E foram todos tres.

Sigamol-os. Atravessaram um corredor estreito e breve, em cuja extremidade, pendente do técto abobadado, um lampeão alumiava aquella passagem. Por baixo d'elle e mesmo junta com a extrema parede havia do lado direito uma estreita porta, e logo uma escada de pedra ingreme e comprida, a que dava luz o mesmo lampeão. Desceram cincoenta degraus. Em baixo bavia um patim quadrado e exiguo, de cujo tecto pendia outra luz. Para a esquerda e para a direita saiam d'alli passagens. Á direita nova escada como a primeira se patenteava, e á esquerda, sem mudar de pavimento, prolongava-se um corredor. Foram por elle e de repente começaram a descer de novo. Era uma outra escada estreita e abobadada por cima. Outro lampeão lhe dava luz na extremidade inferior. Alli chegados, os religiosos subiram outra que começava a poucos passos de distancia.

Gaspar Correia, que mais ambicionava áquella hora dormir o somno dos justos no macio leito da sua cella, e a quem a frescura e a humidade incommodavam n'aquellas terreas passagens, exclamou:

-- Na verdade, collegas, que haveis em Evora o labyrintho de Creta!

-- Ora vinde, vinde, que perto temos a terra promettida.

E assim, misturando o sagrado com o profano, subiram nova escadaria menos extensa do que as percorridas. Ao cimo d'ella depararam com uma casa bastantemente vasta e da mesma sorte alumiada.

Tinha uma porta á direita, outra na frente, e uma janella á esquerda. O Guardião de S. Domingos chegou-se á da frente, bateu e disse: Pax vobis. Aberta logo aquella porta, os tres entraram, fechando-se em seguida por impulso de um mechanismo que tinha. Uma vasta sala se lhes mostrou bem illuminada, em cujo centro estava uma bem servida mesa, com varias carnes assadas, vinhos e doces.

Gaspar Correia, que ao sair da casa do julgamento pensou e creu mesmo que iria assistir ao tormento do castelhano, ficou assombrado e contente ao entrar n'aquella casa, agora para elle verdadeiro eden, pois que sentira frio ao atravessar tantas escadas subterraneas, e alli poderia restaurar-se e espertar com o famoso Quod ore que se lhe deparava.

Em volta da mesa estavam tres homens, occupando o centro d'ella o Manuelinho.

Comiam e bebiam; e, sem se incommodarem com escusadas ceremonias e cortezias, o sujeito que ficava á direita de Manuelinho disse para os que entravam:

-- Sentae-vos e tomae algum alimento. Apesar dos dias calmosos que ahi temos tido, a esta hora refresca, preciso é oppormos alguma resistencia ao inimigo.

Quem assim falára era o inquisidor Manoel de Saldanha, que depois foi reitor da Universidade de Coimbra e bispo de Vizeu. Os outros dous eram os deputados do Santo officio, Alvaro Soares de Castro e Francisco de Miranda Henriques.

Sem outra rogativa os recem-chegados sentaram-se e comeram. Quando bem refeitos, Manoel de Saldanha brindou d'este modo:

-- Á saúde de D. Mendo da Gama e ao bom exito da nossa empreza.

Beberam, e beberam mais, annuindo a outras saudes que se fizeram.

Veja o leitor e repare bem n'este Jano inquisitorial. Em quanto n'um equleo horrivel, n'um potro mortifero jazia manietado D. Miguel de Salamanca, áquella mesa repletavam-se os algozes da victima, que, se culpas tinha, eram só as de não querer a nossa autonomia! Em quanto estes deliciavam as gargantas com cheirosos vinhos de Malaga e de Xerez, o castelhano bebia á força tragos de agua a ferver!

Miseria e insania de homens! Vergonha e opprobrio do genero humano! Desprezivel manifestação da intelligencia e da razão! Padres, padres! E ereis vós os que enthesouraveis os conhecimentos, o saber, a civilisação passada! E fostes Bispos, fostes Papas, e fostes Santos!... Perdoa-lhes, ó Deus!

Animada passava a noite em conversação varia, quando sentiram bater á porta. Aberta por um servo do inquisidor, deu entrada ao notario Gaspar Barreto que, reverenciando a todos, disse:

-- Tudo confessa já o castelhano, e nem mesmo se nega a dizer o que nós quizermos. Manuelinho ergueu-se, sem mudar de posição, e perguntou:

-- Não póde, pois, haver duvida em ser elle D. Manoel de Vilhena, fidalgo castelhano, que teve um castello em Cheles?

-- Elle o confessa, respondeu o interrogado.

-- Muito bem, senhores meus; deve romper a manhã a esta hora: e, pois que não é conveniente que d'aqui saiamos com dia, proponho que debandemos.

-- Parece-me acertado alvitre, disse Gaspar Correia.

-- É justo, accudiu Manoel de Saldanha.

O Guardião dominíco disse alguma cousa em voz baixa a Gaspar Barreto, que saiu, e o inquisidor accrescentou para os jesuitas:

-- Para vos poupar o incommodo de tanto descer e subir, saireis pela porta de minha casa.

-- Ficaes ainda, perguntou Sebastião do Couto a Manuelinho?

-- Ainda fico: saí vós, antes que nasça o dia, e não percaes de vista o negocio de S. Francisco. Eu fico para cumprimentar a D. Manoel de Vilhena...

Os dous jesuitas e os dous deputados sairam conduzidos por um creado do inquisidor, entrando na rua pela porta da casa em que hoje habita um official da repartirão de Fazenda do districto, Simão de Lemos.

Na impossibilidade de dividirmos o leitor, fiquemos ainda na Inquisição de Evora.

XVI

Em 20 d'agosto de 1637

«Tais caminhos tem, tais azos,

«a má malicia de agora»

D. FRANCISCO MANUEL -- Obras metricas,

CARTA VI.

-- Deixemos esta habitação de gemidos e dores, me exclama o leitor humanitario: sigamos antes aos dous jesuitas e vejamos mesmo que destino levaram o Juiz e o Escrivão do Povo d'Evora na madrugada do dia 20 de agosto de 1637.

Estes dous recolheram-se a casa. Barradas ao entrar n'ella achou uma carta para si, em que se lhe pedia por favor entregasse a Manuelinho uma outra que vinha conjuncta. Era assignada por Um amigo do povo. Desconfiou d'ella o Juiz. E, porque se lhe fizesse o pedido com urgencia, resolveu sair para voltar ao Santo officio, onde deixára o celebre dizidor, e onde lh'a poderia entregar.

Recolhidos a casa os dous jesuitas, Gaspar Correia entregou-se ao somno por que almejava, e Sebastião do Couto a suas cogitações revolucionarias. Era já manhã clara.

-- Não ha tempo que malbaratar. Has de cair hoje na ratoeira, meu franciscano de má morte: olá se has de! dizia elle, sentando-se á mesa e escrevendo:

-- «Companheiro em Christo: tenho uma carta vossa, escripta ha mezes, em que me pedís intervenha eu para que esta casa vos possa emprestar a quantia de um conto e oitocentos mil réis.

Não o tenho podido fazer por se achar até hoje exhausto o nosso cofre. Presentemente podemos servir-vos. Vinde a esta casa por dez horas da manhã procurae-me, para cuidarmos d'este negocio. Espero-vos na minha cella. -- Vosso -- Sebastião do Couto.»

O jesuita dobrou a carta, fechou-a, tocou uma campainha, e, depois de a ter entregado a um servo do collegio, com a recommendação de a ir levar ao convento de S. Francisco ás oito horas da manhã, continuou o seu monologo:

-- O pretexto é famoso, pobretão, se não annuires ás minhas propostas... -- Mas, disse, mudando de assumpto. -- Direi hoje missa mais cedo para almoçar tambem. É preciso purificar a alma e contentar a carne, para que o Senhor me dê constancia e força, no sacrificio em prol do seu nome e da patria.

Deixemos agora o jesuita e penetremos em S. Francisco. Subdivide-se tanto o theatro da nossa historia, é tão multipla a sua acção, que para o leitor conhecer bem qualquer de seus episodios e peripecias forçoso nos é correr de um ponto a outro.

Na cella de fr. João Palhares já este conversa com o corregedor da cidade:

-- Admiro, porém, que não podesseis obstar á prizão do sr. D. Miguel de Salamanca. Acaso não fazeis parte, vós, os franciscanos, do Tribunal do Santo officio? dissera André de Moraes Sarmento.

-- Sim, fazemos; mas é-nos prohibida a reacção contra as ordens dos nossos collegas. N'isto consiste o grande poder que temos; obedecendo nós uns aos outros, como poderão resistir os estranhos? Hodie mihi, cras tibi, respondeu Palhares.

-- Que dizeis, pois? que faremos?

-- O que me parece que devemos fazer é mandar já, já a Lisboa um proprio que leve á Senhora Duqueza novas do succedido, e que lhe peça providencias instantaneamente; apoderarmo-nos por qualquer modo do Manuelinho; comprar o Juiz e o Escrivão do Povo, e dar liberdade ao sr. D. Miguel de Salamanca. Alguma cousa conseguiremos com estes paleativos, pois que desfazer completamenle o máo effeito das doutrinas subversivas será mais custoso e mais difficil. Já mandei uma carta a Manuelinho convidando-o, em nome de Sebastião do Couto, a vir aqui por negocio importante. A letra era admiravelmente fingida; de modo que este não sairá d'ahi mais. A cisterna que temos á portaria lhe receberá o corpo damnado.

-- Falastes, porém, em comprar ao Juiz e ao Escrivão do Povo. Vejo a possibilidade de o conseguirmos, porque esses são mechanicos, sem haveres, e para quem o amor de patria, como para mim e para todos nós, costuma cifrar-se no interesse pessoal. Mas onde o dinheiro? Eu nada tenho; os cofres do Estado não têem mealha... só se vós haveis somma que ponhaes á disposição do governo. Um bom serviço farieis a el-Rei.

-- De boamente pozera os dinheiros d'esta casa ao vosso dispôr, como auctoridade de el-Rei D. Philippe, que Deus guarde; mas que?! Não havemos um ceitil disponivel. O dormitorio novo absorve-nos tudo, e nem sei quando o concluiremos.

-- Se vós tambem nunca haveis de deixar de trazer obras! Possuís tão vasta casaria como os Bernardos em Alcobaça, e sempre descontentes! Sempre necessitados de mais officinas! Sois aristocratas na humildade!

-- Ora! por Deus, que injustamente nos arguís! respondeu o Guardião de S. Francisco. Não sabeis vós, que a nossa casa é um albergue de toda a provincia? Não sabeis vós, que aqui vêm procurar o descanço e a quitação d'espirito centos de individuos de todo o reino, scientes da nossa pobreza e mais ainda da nossa religião e bons costumes? Onde recebel-os, se não ampliando estas casas?

N'isto batiam á porta.

-- Entrae disse o frade.

Era o porteiro do convento, com a carta de Sebastião do Couto para Palhares. O Guardião franciscano tomou-a e leu-a.

-- E dizei lá que a causa dos reis não é a causa de Deus, exclamou Palhares contente, mostrando ao odiado corregedor d'Evora o papel que o leitor viu escrever.

-- Então, o que tencionaes fazer?

-- Ociosa pergunta me fazeis, redarguiu o franciscano. Uma casa de mendicantes recebe tudo, muito ou pouco, em qualquer occasião que se lhe offereça. Irei por aquella quantia.

-- Notae que é um emprestimo e não uma dadiva.

-- Para nós são synonymas todas as palavras...

-- Assim, poderemos tentar a compra d'essas rusticas auctoridades, Barradas e seu escrivão, e desde já me offereço para eu mesmo os procurar hoje em suas casas.

-- Pois isso poderemos fazer quando eu voltar do collegio. Eu vos procurarei. Por agora, se quereis almoçar commigo, descei ao refeitorio.

-- Obrigado. Vou sair. Antes, porém, dizei-me o que tencionaes fazer para tirar da Inquisição ao enviado de el-Rei.

-- Entrar logo alli, procurar D. Manoel de Saldanha, e buscarmos ambos modo de lhe dar liberdade. Saldanha não é affeiçoado á causa do povo, porque é ambicioso, e vê no horizonte de sua vida publica logares eminentes a que ha de querer subir; e não serão por certo os populares revoltosos que o ascenderão tão alto.

-- Pois isso vos encommendo com muito empenho. Bem sabeis o quanto me depreciarei em Castella sabido que o corregedor d'Evora não teve força para obstar á captura insolita de um seu enviado.

-- Ide em paz, que não somenos ao vosso é o meu interesse em o arrancar ao Santo officio, e empregar todos os meios para que o povo docilmente pague os novos lançamentos. Quando mandaes proceder á cobrança d'elles?

-- Amanhã, respondeu Sarmento. Já mandei avizar ao Juiz e ao Escrivão do Povo para comparecerem em minha casa.

-- Mas, suppondo resistencia da parte d'elles como representantes do povo, o que tencionaes fazer? Estaes ainda pelo que ha dias concertamos?

-- Estou.

-- Não os deixeis saír, para que não vão ser quaes outras rapozas incendiarias nas cearas do povo.

-- Não sairão; descançae.

-- Já que vós não colheste o atrevido escrivão, aproveitae agora o ensejo.

E sairam da cella. Sarmento tomou a direcção de casa, e Palhares a do refeitorio.

E o Guardião de S. Francisco, depois de bem almoçado, saía do seu convento socegado, tranquillo e contente, dirigindo-se ao collegio dos jesuitas. Nem a sombra de uma ideia menos côr de rosa lhe adejava na mente, e nem sequer reflectia que caminhava para uma casa de filhos de Santo Ignacio de Loyola!..

Ao sair a portaria, disse para o porteiro:

-- Conheceis o Manuelinho?

-- Muito bem, respondeu o porteiro.

-- Se elle aqui vier procurar-me, dizei-lhe que entre, e entregae-o aos cuidados de fr. Pedro de Monforte, até que eu volte ao convento.

-- Isso farei.

E partiu.

-- Valha-vos Deus, meus padres, que andaes tão cegos! dizia comsigo o porteiro. É muito tarde para annullar o que o povo tem feito. Manuelinho não virá. Manuelinho! Escarneo perpetuo lançado a uma nobre alma! Ai! quem me diria a mim, creado n'aquella grande casa, que veria ainda um seu nobre descendente alvo dos vituperios e dos remoques do populacho!

Mimos de Hespanha! Sempre mimos do leão de castella! Lambe rasgando, afaga com garras! --

Callou-se repentinamente. Alguem se approximava, vindo de dentro. Era fr. Pedro de Monforte, que lhe vinha recommendar cuidado em lhe mandar o Manuelinho, logo que chegasse.

Siga-me agora o leitor á Inquisição, se deseja saber o que alli terá succedido.

XVII

Dous cadaveres

«E o Notario que presente

«Se achava, fizera assento

«Da declarada vontade

«Com seus juridicos termos.»

O insigne Pintor e leal esposo Vieira

Lusitano, pag. 454.

O que terá succedido no Santo officio de Evora, no collegio dos jesuitas e mesmo em casa de André de Moraes Sarmento, á bella Constança, conhecidos seus amores?

Naturalmente tudo isto quer saber o leitor. Convidei-o a entrar na Inquisição, no mais vergonhoso e aviltante tribunal que os homens maldosamente inventaram, para satisfação de seus desejos avarentos e carnaes. Entremos, pois, e comecemos por esta casa a informação exigida.

Penetremos no pateo, subamos a escadaria á esquerda, entremos na pequena sala, onde os miseros padecentes vinham dos carceres ouvir missa através de uma grade de ferro, na pequena capella do tribunal, cujo tecto lindissimo inda se conserva, e entremos agora na sala do julgamento, que nos fica á direita.

Lá está ainda no topo d'ella a imagem de Jesus Christo, muda testemunha, juiz violentado e silencioso de tantas sentenças iniquas.

Desçamos agora aquellas escadas já conhecidas do leitor, para onde nos dá entrada a disfarçada porta no azulejo da sala. Na parte em que a escadaria bifurca, em vez de tomarmos á esquerda para a casa que habita o inquisidor D. Manoel de Saldanha, cortemos sobre a direita.

Desçamos outra escada; depois outra mais estreita no fim de curto corredor; depois outra sobre a direita; ainda outra sobre a esquerda; mais uma para a direita; mais outra para a esquerda e assim outras ainda ora para a esquerda ora para a direita. Depois de tanto descer somos forçados agora a subir uma escada de caracol estreita, descer outra similhante, e, finalmente, entrar uma angustiada porta, que dá para uma casa no interior da terra. Entremos. Mede dez metros em quadrado esta subterranea habitação. É toda de cantaria granitica e fechada por uma abobada da mesma pedra. A um lado está sentado um frade de S. Domingos em uma cadeira elevada sobre uma especie de catafalco de madeira; diante d'este, em posição mais inferior, um homem escreve sentado a uma mesa de pau preto; defronte d'elles, proximo da parede fronteira, arde uma fogueira, alimentada por dous homens, vestidos de sotaina, com a cabeça escondida em uma especie de gorra de panno preto, presa á sotaina pela parte posterior, e tendo tres aberturas no lado opposto, correspondente aos olhos e bôcca.

Proximamente a esta fogueira jaz um homem deitado e preso sobre um potro de madeira. Dous homens, mascarados, como os que tractam da fogueira, sustentando um d'elles um funil e lançando-lhe o outro agua quente, forçam o sujeito deitado a engulir grande quantidade d'aquelle liquido.

Dolorida e afflictiva é a posição do desgraçado!.. Contorce-se, anceia, agoniza... A cada porção de liquido que lhe despejam, pergunta um dos verdugos:

-- Ora confesse, irmão, confesse que se chama D. Manoel de Vilhena; diga que conspirava contra Portugal aviltando a religião de Jesus Christo... Bem vae conhecendo que não é por nossa culpa que tanto soffre. Espera-o aquella fogueira; por Deus, diga a verdade, que muito nos doe havermos de lhe applicar aquellas labaredas...

O padecente nada responde; arqueja, bolça a agua, tem perdida a cor... Um homem se lhe approxima e lhe toma o pulso. É o medico, que alli estava para ver quando o padecente já não podia mais supportar o tormento.

-- Podem continuar, respondeu este seccamente. E continuaram a despejar mais agua no funil para a bôcca de misero castelhano... Este parecia não poder soffrer aquelle negativo supplicio de Tantalo, quando n'um extremo esforço exclamou meio suffocado:

-- Eu sou esse que dizeis...

-- Porque o não confessou ha mais tempo, irmão? disse o dominíco. Escreva aquella confissão, sr. Notario.

-- Confesse mais, filho de Deus, que andava entre nós disfarçado em peregrino, conspirando contra Portugal, continuou um dos barbaros, que o atormentavam.

-- É verdade, respondeu o hespanhol.

-- Suspendei a prova da agua, ordenou o frade. Escrevei-lhe a confissão, sr. Notario.

O supplicio acabou. A um signal do inquisidor foram saindo d'alli os dous homens da fogueira e os que serviam ao potro. Ficavam apenas tres: o inquisidor, o notario e o medico, jazendo ainda preso o falso D. Miguel de Salamanca.

O inquisidor desceu da sua cadeira, disse ao ouvido do notario alguma cousa, que o padecente não ouviu, e conversou por curto espaço com o medico em quanto o notario saiu.

-- Por Deus! que mais hei de eu confessar, senhores? exclama n'este momento o preso.

O dominíco e o medico, ouvindo aquella queixa do castelhano, dirigiram-se a elle e soltaram-no.

-- Ora erguei-vos, que bem poderieis haver evitado esta prova da agua confessando a verdade, e a nós poupar-nos o grande desgosto de vos affligirmos involuntariamente.

O padecente nada respondeu.

Encostou-se á parede a vomitar agua, e depois, sentando-se abatido n'um escabello, caiu em grande prostração.

Decorreram segundos. Ouviu-se o leve ruido de alguem que descia a escada de caracol, e logo entrou o notario acompanhando a um individuo do sexo masculino, completamente vendado. Apenas este penetrára no carcere, ou casa dos tractos, fechada a porta, o inquisidor caminhou para o recem-chegado, e, desvendando-o, disse-lhe:

-- Desculpae tão travêssa e incommoda precaução, sr. D. Mendo da Gama.

Apenas se pronunciára este nome, o castelhano infeliz erguêra a cabeça do peito oppresso e fixára estupidamente ao homem a quem se chamára assim. Este não attentára ainda n'elle porque respondia ao inquisidor, e porque estava meio entontecido com tanto descer e subir de olhos fechados e com a escuridão d'aquella mal alumiada casa, onde já se extinguira a fogueira e apenas ardia uma vela sobre a mesa do notario e no tecto da casa um lampeão amortecido.

-- Galhardo procedimento é este da fidalguia portugueza! Covardia na vingança! exclama sentado ainda no escabello, e como que resignado com a posição em que se via, o nobre fidalgo hespanhol.

-- Covardia! Que villão é este que chama covardes a portuguezes? que chama covardes aos dominadores do mundo? Covarde! Covarde sois vós, miseravel, que depois de infamardes a uma familia honrada, fugistes! Covarde sois vós, que durante mais de trinta annos escondestes o nome para escapar á minha vingança! Covarde sois vós, que disfarçado percorreis um reino, que não é vosso, espião ignobil de um protervo governo, assalariado do conde duque de Olivares! Covarde sois vós, que vos não ergueis, como um bravo, depois do que ouvis! Covarde sois, sim, e eu vol-o vou mostrar!

D. Mendo da Gama estava exaltadissimo. Ignorando os tormentos que se applicaram ao castelhano esperava que, depois de tantas offensas verbaes, aquelle as tentasse repellir com mão armada. Mais se lhe affigurava covarde permaneccndo silencioso e impassivel. Porém, tranquillo, D. Mendo da Gama, disse para os individuos que alli estavam:

-- Desculpae-me estes excessos de linguagem. Se vós soubesseis, senhores, quão profundo é o abysmo que me separa d'aquelle homem!.. Se vós soubesseis como é intenso o odio que lhe consagro ha trinta annos!.. Oh! mas Deus vos livre de tal! Deus vos livre de conhecerdes o que é esforçar-se um homem por viver durante trinta annos, procurando de continuo o carrasco de sua familia, quando os desgostos o attrahiam para a campa! Deus vos livre de conhecerdes mal dormidas noites, procurando na escuridão das cidades e villas de Hespanha o assassino de uma familia honrada! Deus vos livre de entrardes a horas mortas da noite as ruinas amaldiçoadas de palacios incendiados e derruidos, para ir depôr uma perpetua no tumulo de uma irmã querida, e derramar uma lagrima saudosa nas aguas do Guadiana, que abafaram os ultimos gemidos de um pae extremoso! Deus vos livre, senhores, de viver trinta annos vida errante pelos desvios e agruras das serras, ora escondido nas urzes como o aspide venenoso, ora atravessando o espaço a cavallo, rapido como o anjo maldicto de Deus, rapido como o genio de mal! Deus vos livre de viverdes vida assim, correndo sempre após uma sombra, que vos fugia, como se fôra a vossa, e que hoje me apparece insultadora ainda! Oh! Nada receieis pela causa da patria! Ámanhã vereis uma população em armas contra a tyrannia de Caslella. Ha de fructificar a semente que um louco espalhou em solo abençoado! Deixae-me a sós com aquelle homem. Ide-vos, nobres portuguezes. Deixae que esta sepullura receba os cadaveres na morte de dous inimigos na vida. Agora que não tenho duvida alguma sobre a existencia do miseravel poltrão, pertence-me a vida d'elle, como ás chammas de vossas fogueiras o seu corpo damnado. Ide-vos, senhores, e mandae-me duas espadas.

-- Não vos sujeiteis á eventualidade da lucta, sr. D. Mendo da Gama; esse desgraçado não mais sairá daqui. É percorrido o quadrante do seu viver; deixae-o comnosco e subi, disse o frade dominicano.

-- Impossivel! Não me desvieis da religião do meu juramento! Ide-vos, e mandae-me duas espadas.

-- Não as teremos...

-- Não importa; ide-vos e mandae dous copos. É inevitavel a morte de dous homens ou de um sómente. E assim dizendo, Manuelinho tirava do peito um frasco.

-- Deixae-me ver esse frasco, pediu o medico a D. Mendo da Gama. Este, que percebeu a intenção, sabendo ser desconhecido o veneno que o frasco continha, disse:

-- Podeis ver. E mostrou-lh'o.

-- Tomae o vosso frasco, respondeu o medico, depois de curto intervallo.

Manuelinho caminhára para o castelhano, a quem parecia indifferente aquella scena, em quanto o medico observava o liquido; e, cruzando os braços, como o abutre encolhe as garras para as cravar violentamente na presa, permanecia terrivel ante o abatido e prostrado castelhano. O medico aproveitou aquelle desvio para dizer alguma cousa ao ouvido do frade, que saiu com o notario.

-- Tomae o vosso frasco, tornou o medico.

-- Dae-m'o, disse D. Mendo, despertando de um breve torpôr. Onde os copos?

-- Prestes virão.

Instantes depois chegava o notario com elles. Pousando-os sobre a mesa, a um aceno do medico saiu.

-- Aqui estão as vossas armas, disse para o fidalgo infeliz.

-- Obrigado, respondeu D. Mendo da Gama. Deixae-me, e ide dizer a esses padres que orem a Deus por mim.

-- Que orem a Deus por vós? Pois não é um duello que quereis propôr áquelle homem?

-- Não, porque não ha duas espadas para com uma d'ellas o matar. Com esta arma regeito os caprichos da sorte; morreremos ambos. O veneno é arma de covardes e de fracos; quem com ella mata, morre tambem. Deixae-nos.

O medico saiu, fechando sobre si a porta.

Momentos depois, ouviu-se um leve ruido, e logo em seguida o estrondo de um corpo que baqueia. O leve ruido era o castelhano arrastado por Mendo da Gama e compellido a beber o veneno; o estrondo maior o da quéda de um corpo no pavimento do carcere.

O medico, que estava perto, abriu a porta e entrou. D. Manoel de Vilhena jazia morto no chão, e D. Mendo da Gama caía morto tambem sobre a cadeira do notario.

XVIII

In Pace

« ... e o desabrido guia descer manda

« Ao negro precipicio cavernoso.»

SOYÉ -- Noites Josefinas -- 4.ª - 27.

Marcar ao certo qual sería o local da casa do corregedor d'Evora, não é facil. Devemos suppôr que fosse na Praça, do lado da casa da camara, pelas razões historicas em que falaremos.

Entremos-lhe em casa no dia vinte de agosto, porque no dia vinte e um talvez já o não possamos fazer. Subamos.

Sentado n'uma cadeira de braços o corregedor conversa com um sujeito a quem diz:

-- Deveis partir immediatamente e apresentar a Sua Alteza este papel.

O individuo, que pouco importa conhecer, ao ouvir aquella recommendação, despediu-se e saiu. Era um proprio que marchava para Lisboa.

Sarmento acompanhou-o á porta, e, voltando para dentro, deu ordens aos escreventes para que fossem diligentes e tivessem á noite os trabalhos da contribuição promptos e concluidos. Em seguida abriu uma porta que dava para uma saleta, onde o esperavam quatro homens. Entrando n'ella fechou sobre si a porta. Dous d'aquelles eram empregados e subalternos seus, e os outros, dous corpulentos individuos, de catadura pouco sympathica.

Ámanhã, por nove horas do dia, disse elle para os dous estranhos, estareis aqui; e vós, disse para os seus empregados, levae hoje o meu officio ao commandante das milicias para que tenha promptos ámanhã, desde o romper do dia, os milicianos de que podér dispôr.

-- Diga-nos, porém, vossa mercê, que nos cumprirá fazer ámanhã, perguntou um dos corpulentos.

-- Em caso de necessidade, apoderar-vos á força do Juiz e do Escrivão do Povo d'esta cidade, que á minha ordem irão para a cadeia.

-- Isso faremos, porém...

-- Sim, sim, havereis boa recompensa, atalhou o corregedor, que conhecêra a intenção. -- Tomae já para lembrança; e assim dizendo entregava algum dinheiro áquelle dos dous que parecia governar no outro. Isto feito, abriu-lhes uma porta que dava saida para a escada principal, por onde sairam, voltando a conversar com os outros dous.

Em quanto o corregedor de Evora, descuidado mais do que devia, e sem dar muita importancia ás reuniões do povo, apesar de saber que os jesuitas o dirigiam e aconselhavam, confia na auctoridade de que se acha revestido, e só por mera formalidade, por assim dizer, toma algumas providencias; em quanto, confiado na indolencia do povo eborense, a quem o clima mais ou menos enlanguece, suppõe esmagar qualquer motim com a prisão do Juiz do Povo e de seu Escrivão, caso aquelle venha a apparecer; em quanto lhe succede o que tem acontecido a outros muitos, vaidosos e cegos como elle com o brilho do poder, venha o leitor commigo ao collegio da Companhia de Jesus.

-- Dá licença vossa paternidade! dizia á porta da cella de Sebastião do Couto o Guardião de S. Francisco.

-- Benedicite, frater, respondêra o jesuita, abrindo a porta. Sois pontual como unn bretão. Entrae. E os dous sentaram-se.

Não me ficava bem fazer-vos esperar muito.

-- Sem embargo da carestia do anno e apesar dos repetidos tributos que esmagam o povo, recebemos agora fóros e pensões, o podemos servir-vos.

-- Ainda bem, que aquella nossa casa de S. Francisco tudo nos absorve. Dizei ora que condições exigis para ultimarmos este emprestimo.

-- Basta-me um titulo de divida por vós assignado, e uma clausulasinha a que facilmente vos prestareis...

-- Dizei qual é.

-- A ultima imposição é muito vexatoria e demasiado pesada para o povo portuguez...

-- Olhae que o povo ralha sempre, quer pague muito quer pouco.

-- André de Moraes Sarmento, continuou Sebastião do Couto, vendido a Castella, marcou o dia de ámanhã para exigir a cobrança do imposto...

-- Para exigir não confirmarei; para aconselhar...

-- Os religiosos do Serafico Padre S. Francisco, n'esta cidade, continuou o jesuita, sem attender aos reparos do franciscano, não sei bem porque, esperam mais liberalidade dos reis de Castella do que dos nacionaes, e assim mais servem a causa dos intrusos do que a da casa de Bragança, tendo directa influencia nos negocios do Estado e poderosa acção nas deliberações do corregedor d'esta cidade...

-- Perdão, que inexactas são taes informações. O que, porém, não percebo, é o para que falaes em cousas d'estas.

-- O Guardião de S. Francisco, continuou Sebastião do Couto, como clausula do contracto que pretende fazer com o collegio da Companhia de Jesus em Evora, vae inda hoje fazer com que André de Moraes Sarmento suspenda as determinações em que está de proceder á cobrança do enorme imposto, e ha de compellil-o a ponderar alguma cousa n'este sentido ao Conde Duque ou á Duqueza de Mantua.

-- Que dizeis? exclama o franciscano, erguendo-se, meio colerico. Impossivel. Os franciscanos de Evora são alheios á cousa publica. Nada tenho com os negocios do estado.

-- Sentae-vos, irmão, dizia o jesuita socegado. Sentae-vos e ultimemos o vosso e tambem o nosso negocio.

-- Permitti antes que o demos por concluido.

-- Ora, não vos precipiteis; sentae-vos e vêde o meu jogo; joguemos liso. O franciscano sentou-se ainda.

-- Sei tudo o que haveis feito favorecendo a Castella...

-- Se continuaes a calumniar-nos, retiro-me immediatamente...

-- Não, não saireis sem levardes o dinheiro de que precisaes no vosso convento, e sem me jurardes que haveis de ir ter já com André de Moraes Sarmento...

-- Quereis então forçar-me a fazer o que não posso, não devo, nem quero fazer? disse o franciscano, erguendo-se colerico e vermelho. Consenti que me retire. E dispunha-se a sair.

-- Vossa reverendissima parece incommodar-se com a minha proposta, tornou o jesuita, pondo-se de pé. Vossa reverendissima escusa-se então a prestar um serviço á patria e á causa do povo?

-- Estranho totalmente a intrigas politicas, não me escuso, presisto em me não querer intrometter em negocios alheios aos da minha religião. Ficae na paz de Jesus Christo.

-- Então sois inabalavel?

-- Inabalavel.

-- E se a quantia que precisaes, vos for dada sem obrigação nenhuma?

-- Ainda assim.

-- Pois bem: sem vos exprobar o vosso procedimento fallaz e indigno, esperae ao menos que eu chame quem vos acompanhe á portaria... E Sebastião do Couto fez soar uma campainha. Em quanto alguem não chegava ao toque da campainha, o jesuita reiterou a sua proposta.

-- Nem quereis prestar á causa do povo o serviço que vos peço, dobrando-se essa quantia dadivosamente?

-- Senhor Sebastião do Couto, vossa paternidade, costumado a jogar todas as armas para o conseguimento de seus fms, teima em querer manejar a da compra! É uma indignidade tambem.

-- Não é, não, confrade.

N'isto chegava um noviço do collegio.

-- Acompanhae á portaria o sr. Guardião de S. Francisco, disse para aquelle o notavel jesuita, e conduzi-o in pace.

Apenas o noviço ouviu aquella recommendação, disse para os dous:

-- Um instante de demora; não trago a chave da portaria. E retrocedeu, indo por ella. Sebastião do Couto aproveitou aquella breve demora para dizer ainda ao franciscano:

-- Soldados da mesma milicia, vejo-me forçado a ponderar ainda a Vossa reverendissima que ámanhã, presistindo o corregedor em seu proposito, o povo de Evora sublevar-se-ha como um só homem, e a vossa vida, como traidor á pátria, o a d'elle, correrão perigo. É tempo; annui.

-- Vossa paternidade lucta bem, mas eu hei de resistir-lhe sempre; somos da mesma tempera.

-- Com uma certa differença: é que vós já não vedes bem sem oculos e eu não preciso d'elles; vejo melhor... respondeu o jesuita n'um tom exquisito, em que o franciscano reparou.

N'este comenos chegava o noviço.

-- Vamos, disse este, com ar triste.

-- Se entes de sairdes d'esta casa quizerdes reconsiderar, dizei-o á pessoa que vos acompanha, observou por ultimo Sebastião do Couto, retirando para dentro da cella e fechando a porta. A portaria do collegio estava fechada. Chegados alli, disse o noviço para o franciscano:

-- Não tendes nada que me dizer?

-- Nada.

-- Adeus, pois, até ao tremendo dia!..

E, ao pronunciar taes palavras, via descer vagarosamente a principio diante de si a figura do Guardião de S. Francisco, e logo sumir-se rapidamente no pavimento da casa, que n'um instante se aplanou, como d'antes estava.

XIX

Ultima reunião

«Entravam tambem nesta

«conjuração mas com mais

« algum recato muitos outros

«nobres...»

BARRETO FEIO -- Sallustio em

portuyuez.

Morava na rua do Mestre Rezende o Juiz do Povo de Evora.

Entremos-lhe em casa depois das trindades do dia 20 de agosto de 1637.

Conversam n'aquella casa, sentados um junto do outro, o juiz, dono d'ella, e o seu escrivão, Sizenando Rodrigues.

-- E não lhe podestes falar? perguntava o escrivão.

-- Não pude, respondeu Barradas: quando entrei na Inquisição para lhe dar a carta, disseram-me que lhe não podia falar. Já o procurei em diversos logares e não o encontrei.

-- Acaso teria logar o duello, e morreria elle ás mãos do castelhano?

-- Não sei ao certo.

-- É singular! Perco-me em conjecturas. Se nos falta este homem estamos mal, ponderava Sizenando.

-- Aquelle plano de ser elle o dictador, era realmente famoso, por que nos abrigavamos todos detraz do seu nome, dizia o juiz.

-- Ainda assim não podemos retroceder um passo: o povo está por nós; a um grito que soltarmos vel-o-hemos a dar-nos força.

-- Assim o espero; mas, se não vinga a revolta? Se não se repercutir o estrondo de nossas armas, que faremos? Estou esperando um proprio de Villa Viçosa, para nos certificarmos do animo com que está o Senhor Duque.

-- E não falaste com o Sebastião do Couto durante o dia?

-- Falei. Já prestou um grande serviço á revolução. Desde as dez horas da manhã que tem a bom recado o Guardião de S. Francisco. D'este nada temos já que receiar.

-- Prenderam-n'o no collegio ?

-- Não sei o que lhe fizeram, porque me occultaram o destino que teve.

-- E nenhum dos jesuitas esteve com o Manuelinho?

-- Nenhum, mas Sebastião do Couto espera-o á noite na Torre Mouchinha. Disse-me que nada receia por elle.

-- Só se a Inquisição mandaria matar o castelhano e não teria logar o duello... A que horas reuniremos?

-- Á meia noite.

-- É tarde, porque ainda havemos de dar a ultima palavra aos nossos correligionarios.

-- Sobeja o tempo. Preveni vós os principaes para velarem até ás tres horas da madrugada, porque a essa hora nós os buscaremos, terminada a reunião da Torre Mouchinha, e lhes diremos o que importa fazer.

N'isto bateram á porta. O Juiz do Povo mandou por um creado saber quem era e o que queria. Voltou breve com um bilhete para Sizenando, a quem o entregou.

-- Quem trouxe este papel? perguntou este.

-- Uma mulher, ao que parecia, e que apenas soube que estaveis, deixou o bilhete e se foi apressada escondendo o rosto, respondeu o creado.

-- Uma mulher! Acaso seria... Ide-vos, disse para o creado do juiz.

«Meu Sizenando, leu este, só agora vos posso fazer chegar à mão este papel, aproveitando a ausencia de meu pae que está para S. Francisco. Ha traidores entre os vossos. Cautela, que podeis ser preso ou morto. -- Constança.»

As auctoridades do povo não ficaram satisfeitas com aquella leitura. O aviso era official e exprimia uma verdade. A letra era de Constança, e talvez fosse aquella heroica mulher a portadora d'elle.

-- Por mim nada temo, disse para o Juiz Sizenando. E como é preciso que eu avise aos nossos irmãos, saio.

-- É preciso, sim, mas sairemos ambos.

E resolutos á resistencia, se precisa, os dous sairam, de facto.

Em quanto os dous, ou um sómente avisam os seus correligionarios politico-revoltosos, vejamos nós o que vae no convento de S. Francisco.

Na cella de frei Pedro de Monforte conversa este com o corregedor:

-- O que vejo, sr. Corregedor, em tudo isto, é uma fraqueza que vos póde comprometter aos olhos de el-Rei. Pois que? consente-se na prisão de um enviado do Conde Duque, acceita-se o desapparcimento do Guardião d'esta casa, e cruzam-se os braços da indifferença? D'aqui a pouco estaremos nós tambem presos á ordem da Companhia, ou do populacho rude e ignorante!

-- Azedaes-vos sem razão, respondeu Sarmento. Pois que posso eu ou vós, ou mesmo el-Rei contra as immunidades e privilegios da Inquisição? Não lhe dessem tanta força. Do desapparecimento de frei João Palhares, crêde, porém, que vou ainda esta noite tomar contas aos jesuitas.

-- Já é tarde. Ha mais tempo deverieis proceder, trancando esses stultos Juiz e Escrivão do Povo, e processando os principaes dos jesuitas, como traidores a Castella. Agora, crêde-me, supponho que ides muito tarde. Pois que vedes vós na prisão do homem que nos dava força, e no desapparecimento do mais energico servidor de el-Rei, frei João Falhares, na vespera do dia em que projectaes mandar proceder á cobrança dos novos lançamentos? Eu vejo uma reacção tremenda, solapada ainda, mas que póde rebentar volcanica, calcinando na sua lava ardente a auctoridade imbecil e...

-- Calae-vos, interrompeu Sarmento, exasperado com o epitheto de imbecil, calae-vos, que me offendeis ante tempo. Vereis que vou immediatamente ordenar prisões e castigar. Não sabeis, pois, nada de frei João Falhares ?

-- Sei apenas que saiu de manhã para o collegio da Companhia e que ainda não voltou.

-- Adeus, pois, terminou o corregedor, despedindo-se, e saindo raivoso com as arguições do frade.

Este acompanhou-o até á portaria do convento. Chegando alli, Monforte ficou pasmado de ver áquella hora escancarada a portaria, deserta a habitação do porteiro e quasi apagado o lampião de entrada. Procurou, chamou o porteiro; mas, debalde! O porteiro desamparára o seu posto.

-- Quereis vós ver que o porteiro estava comprado para auxiliar o plano do povo! disse o corregedor.

-- Admitto, como possivel; mas não é provavel, estando elle n'esta casa havia mais de vinte annos: antes supponho que a mão dos jesuitas nol-o arrebatasse para d'elle saberem algumas cousas. Como explicar o desapparecimento do homem, deixando abertas estas portas? Senhor Sarmento, se fordes energico esta noite, ainda podeis atemorisar; se não, aconselho-vos a não ordenardes ámanhã a cobrança dos impostos.

E despediram-se. Monforte fechou bem a portaria, trancou-a e subiu á sua cella, e Sarmento entrou em sua casa.

Serão onze horas da noite. De casa do corregedor saem alguns homens na direcção da taverna de Antão Vasques, das casas do Juiz e do Escrivão do Povo e do collegio da Companhia de Jesus. Á frente d'estes vae o proprio Sarmento. Offendido com os dictos de frei Pedro de Monforte. Sarmento ia, tarde já, obrar com energia nas graves circumstancias em que se collocára. Ordenára a prisão de todo o individuo suspeito, que fosse encontrado na famosa taverna da rua do Raymundo, a das auctoridades do povo eborense, e dispunha-se elle proprio a pedir contas aos jesuitas. Ácêrca de Manuelinho mandára que, se o colhessem á mão, lhe dessem a morte, a titulo de resistencia á auctoridade de el-Rei.

Assim corriam as cousas quando começavam a entrar um por um para a Torre Mouchinha os conspiradores.

Este local não era conhecido como centro de reunião dos conspiradores. Escapára sempre á policia do corregedor aquelle local ermo, arruinado e pequeno, tão á maravilha escolhido por Manuelinho.

-- Em nome da auctoridade abri esta porta, e preveni ao Geral da Companhia que preciso é o falar-me já, dizia ao buraco ou ralo da porta do collegio, consistente nas symbolicas letras IHS, abertas em lamina de ferro, e que ainda lá estão, André de Moraes Sarmento.

-- Não posso abrir a deshoras esta casa a ninguem, dizia de dentro uma voz, que bem poderia ser a de Sebastião do Couto, que áquella hora ia para sair.

-- Sou André de Moraes Sarmento, corregedor d'esta cidade, por el-Rei D. Philippe Nosso Senhor: abri.

-- Ah! vós sois? Eu vou dar parte da vossa visita, respondeu a voz, ouvindo -se em seguida o afastar de quem falára de dentro.

Em quanto o corregedor espera que lhe abram a porta, podemos nós ir indo para a Torre Mouchinha.

Já alli estão o chantre e o mestre eschola da Sé; os jesuitas Gaspar Correia e Alvaro Pires Pacheco; João Barradas e Sizenando Rodrigues, o humano Guardião dos Dominícos e alguns fidalgos.

-- Noto já a demora de Sebastião do Couto, disse para os circumstantes o Juiz do Povo.

-- Mais e muito mais para notar é a de Manuelinho, de quem ninguem dá noticia desde hontem.

-- Dou eu, respondia o frade de S. Domingos.

-- Então nem sería morto pelo castelhano nem preso pelo corregedor? continuou Sizenando.

-- Preso pelo corregedor posso affirmar-vos que não; agora se morreu não vol-o posso certiflcar. Apenas sei que foi achado caido sobre uma cadeira na Inquisição, e ao que parecia envenenado.

N'este comenos batiam á porta e uma voz conhecida dizia:

-- Abri.

Era Sebastião do Couto. Este notavel e astucioso jesuita deixára á portaria do collegio o corregedor Sarmento, esperando talvez debalde ao padre provincial, Pedro da Rocha, e por outra porta saira sem ser visto, para não faltar á reunião dos conspiradores.

Os padres da companhia em Evora jogavam com o pau de dous bicos: aggrediam com um, e defendiam-se com outro. Em publico e em cousas officiaes os jesuitas eram partidarios do Rei de facto; nem uma palavra, nem uma linha contra, salvo escondendo a ideia nas profecias que annunciavam a vinda do Encuberto, representado em suas vontades pelo oitavo Duque de Bragança, D. João. Nas trevas, porém, procediam como se tem visto.

-- Bem vindo sempre, disse João Barradas. Aguardavamos a vossa chegada para acordarmos nas ultimas cousas que será mister fazer.

-- Porém não vejo ainda aqui o sr. D. Mendo da Gama, que, como sabeis, é essencial.

-- Podeis abrir a porta, disse de fóra uma voz conhecida. Era Manuelinho. Salvo da morte pelo medico do Santo officio, que vira e conhecêra o veneno antes que os dous inimigos o tomassem, e que lhe acudira com um remedio neutralisador, Manuehnho permanecêra durante o dia na Inquisição restabelecendo-se dos estragos, ainda que leves, do veneno, e escrevendo cartas para os cabeças da conspiração nas demais terras do reino, dando-lhes parte do dia em que o povo de Evora, unido como um só homem, com uma só vontade despedaçaria as cadeias que lhe tolhiam a liberdade n'um reino em que nasceram livres. Manuelinho quizera, de facto, morrer, e mostrára o veneno ao medico, certissimo de que aquelle o não conhecia, porisso que o houvera de um judeu de Tunis, como desconhecido, e prompto em dar a morte. Mas, o que não conheceriam os inquisidores? A um medico do Santo officio não podia ser desconhecido segredo algum toxicologico.

-- Primeiramente lêde este papel que para vós tenho desde a madrugada. Veio de S. Francisco, disse para Manuelinho o Juiz do Povo.

-- Não é preciso lel-o, disse Manuelinho, depois de lhe reparar em uma sigla posta a um canto do sobrescripto. Era um laço velho e traiçoeiro em que me queriam colher os mendicantes de S. Francisco. Vêde esta letra, continuou, mostrando a carta a Sebastião do Couto.

-- Esta carta!.. A letra é minha...

-- Abri e vêde bem, talvez não seja...

-- De facto, não é minha; mas na verdade vos digo, sr. D. Mendo, que quem assim escreve nasceu para ornamento da Companhia de Jesus.

-- Pois não será difficil cousa converter um franciscano barbato em noviço da companhia. Se quizerdes, eu tractarei d'isso.

-- Se vos apraz cuidemos agora do plano que ámanhã executaremos. Falae vós, disse Barradas para o Manuelinho.

-- Sim, direi em termos breves o que importa fazer. Antes, porém, sr. Sebastião do Couto, dizei-me alguma cousa do Guardião de S. Francisco.

-- Está posto fóra do combate, respondeu o jesuita.

-- Então ouvi-me todos. Ao chamamento do corregedor ireis vós srs. Juiz e Escrivão do Povo. Não lhe deveis acceitar condição alguma, antes repellir com energia, que o exaspere, a cobrança dos impostos. Se virdes que o homem tenta meios violentos contra vós, dae-nos para fóra immediatamcnte um signal qualquer e nós todos iremos em auxilio vosso. Não vos deixeis cair em algum laço; desconfiae d'elle e não percaes de vista os seus movimentos.

Depois da energica recusa que elle hoje obteve da Vereação, provavel é que vos proponha a substituição pecuniaria de quinhentos mil cruzados pelos novos tributos do sal, do real d'agua e do augmento das sizas. Recusae tudo, tudo. Vós, senhores da companhia, desempenhareis o papel de pacificadores, por fórma que não sejaes suspeitos publicamente de favorecerdes a causa do povo. A este avisarei eu esta noite ainda, para se achar na praça de manhã. Fazei todos participações similhantes aos iniciados na conspiração.

-- Sim, nada mais julgo preciso por agora, disse o jesuita Couto, se não que nos informeis do estado das cousas em Villa Viçosa.

-- Mandei para lá um proprio, respondeu Barradas, que ainda não chegou.

-- E eu mandei outro eram trindades, disse Manuelinho.

-- Não haverá, porém, tempo de voltarem esta noite, observou o jesuita.

-- Ha de haver. Mandei a um homem que partiu com a rapidez da setta. Mas, dizei-me, o vosso padre provincial, Pedro da Rocha, não obteve resposta do senhor Duque á ultima missiva?

-- Tambem não, por isso vos perguntei novas d'aquella Villa.

Dava tres horas da manhã o relogio da Sé.

Dispunham-se a debandar quando se ouviu o galopar de um cavallo na rua.

-- Eis o mensageiro, disse Manuelinho contente. E correu a abrir a porta. De facto chegava um individuo, escorrendo suor, que apenas se apeiou do cavallo, que deixou na rua, subiu á torre, indo-lhe ao encontro D. Mendo da Gama.

-- Sempre o mesmo fiel servidor! disse o Manuelinho abraçando o recemchegado. Entrae.

Depois de entrarem, Manuelinho disse para os circumstantes, apresentando-lhes o mensageiro:

-- Aqui tendes, senhores, restituido a um seu antigo amigo o mais fiel servidor que jámais guardou portarias de franciscanos.

-- É verdade! exclamaram todos.

-- O porteiro de S. Francisco!

-- Dae-me agora a mensagem que trazeis. Falas-tes com o senhor Duque?

-- Não cheguei a Villa Viçosa. Em Estremoz encontrei um proprio que de lá vinha.

D. Mendo da Gama ia já para ler a missiva do Duque de Bragança, quando o portador d'ella pediu para sair, porque deixára na rua ao estafado cavallo, e ambos careciam de descanço. Saiu, pois, recebendo de Manuelinho ordens e determinações.

Manuelinho leu:

«Briosos Portuguezes e leaes amigos: Á missiva dos illustres padres da Companhia, á da Vereação d'essa nobre e leal cidade e ao convite generoso do Povo eborense eis aqui a minha resposta. Mais por minha muito presada esposa do que por mim proprio, acceito vossos offerecimentos e convenho em que o meu nome vos sirva, como dizeis, de egide contra inimigos d'este grande povo dormente. Uma cousa vos peço, porém, é que não boquejeis em mim n'essa cidade; deixae que esta Villa, ou qualquer outra leal terra se lembre do meu nome, para que não julgue Castella que vós sois os iniciadores. Não vos cause estranheza tambem o que souberdes possa vir a acontecer em Villa Viçosa. Sabeis que o reino está por modo definhado em proveito de Hespanha, que mais nos convém a todos querermos o que mostrarmos regeitar. Vosso amigo -- D. João.»

XX

Os tumultos de Evora

«E que ha a dizer de um povo, que

«n'esta eloquencia fala? Esperou,

«viu que a ullima ratio Reigum era

« a ultima ratio Populi . Empregou-a »

M. DOS SANTOS CRUZ - Obras. Portugal.

Estamos na Praça de Evora, estreita, comprida e mal calçada; a sueste demora a casa da Camara, defrontada pela egreja parochial de Santo Antão; a nordeste vasta casaria sobre compridas e escuras arcadas; do lado opposto os arruinados palacios dos condes das Alcaçovas c os Estaus e muitos casebres insignificantes. D'esta Praça já n'aquelle tempo saiam as sete ruas que hoje permanecem: a rua do Paço, a da Cellaria, a Ruancha, a de Alconchel, a do Tinhoso, a dos Mercadores, a do Raymundo e a da Cadeia.

N'esta Praça, onde em 1483 subiu ao cadafalso o Duque de Bragança, D. Fernando II, e onde lhe foi decepada a cabeça por ordem de D. João II, rei de Portugal, disfarçada ou cohonestada por um processo cujo foram juizes Ruy da Grãa, Affonso de Barros, Diogo Pinheiro o outros, achavam-se reunidas muitas pessoas em grupos diversos, seriam dez horas da manhã do dia 21 d'agosto de 1637.

Tranquillos pareciam os aspectos, como sereno foi o cariz do dia 1 de novembro de 1755, antes do mais espantoso abalo subterraneo que tem experimentado Portugal.

Um grupo de quinze a vinte pessoas lia, com o interesse da novidade e com a avidez de quem espera cousa que lhe apraza, um papel que um rapaz do povo acabava n'aquelle momento de affixar com massa na parede dos Paços do Concelho, proximo da Cadeia, onde os presos agrupados ás grades das grandes janellas tentavam tomar conhecimento do que dizia o papel, e onde se via n'aquelle dia reforçada a guarda com mosqueteiros e arcabuzeiros, vindos de noite de Estremoz, a chamamento do corregedor da cidade.

Um homem do povo, forte como um athleta, lia para todos em voz alta:

«-- Nós os meninos e rapazes, ministros da divina justiça, com particular providencia de Deus nosso Senhor e com alçada sobre os executores dos tributos de um rei tyranno &. Fazemos saber que, movidos nós do sagrado amor da patria de D. João I, fome de nossos irmãos, miseria de nossos paes e da grande pobreza de que a nós se queixa todo o estado de gente, Mandamos a todos, assim seculares como frades e clerigos e aos Padres da Companhia de Jesus estejam prestes uns para a lucta, outros para nos acudirem com suas orações na execução da sentença que ora se despachou nos tribunaes da Divina Justiça, contra os traidores á patria que quizerem executar a cobrança dos tributos do rei tyranno, não entendendo que ha de pôr Deus seus olhos misericordiosos nas lagrimas do povo, ue sempre foi exemplo de christandade, como é a nossa illustre e leal cidade de Evora. Escripto aos 21 de Agosto de 1637» -- Manuelinho.

-- Fala bem: tem razão, disse com aspecto severo o homem que lêra aquella ordem.

-- Veremos agora o que fará esse corregedor de má morte. Alli vão para casa d'elle o senhor Barradas e o seu escrivão, disse um outro individuo do centro do grupo.

-- Viva o Juiz do Povo de Evora! bradou um terceiro.

-- Obrigado, amigo, respondeu Barradas em voz alta, continuando apenas em tom perceptivel dos que mais perto lhe ficavam na passagem: -- cautela que ainda será cedo; prudencia.

As duas auctoridades do povo passaram e foram para casa do corregedor.

Da banda da rua do Paço saiam n'este comenos dous individuos conversando. Eram os vereadores Luiz de Villalobos e Vasconcellos e Agostinho de Moura, os briosos e energicos portuguezes que, com o seu collega Manoel Macedo de Sequeira, rejeitaram formalmente as propostas do corregedor. Isto sabia o povo e com similhante proceder folgára. Apenas foram vistos pelo demagogo athleta, que o leitor conhece, este exclamou:

-- Viva a Camara de Evora!

Viva! respondeu a multidão. Os dous passaram, agradecendo ao povo, e cortaram pela rua da Cellaria.

N'isto, subia a rua da Cadeia um rapaz com um burro carregado de pedras dentro de um ceirão, gritando:

-- Quem compra os calhaus?

A Praça estava coberta de magotes de povo: o que ouvira ler o papel, sendo o primeiro a reparar na estranha mercadoria, desfechou em risadas estridentes, em quanto o rapaz chegava defronte da casa do corregedor e alli, parando, bradava de novo, olhando as janellas da auctoridade:

-- Quem compra os calhaus ? Quem compra!?

A gritaria do rapaz attrahira ao cimo da rua os diversos grupos de povo, espalhados pela Praça, embargando já a saida de quem quizesse entrar ou sair d'ella.

-- Famosa censura! dizia um.

-- Bonita chança! acudia outro.

-- Vôa, meu Andresinho, tributa-lhe os calhaus continuava um terceiro.

-- Boa lembrança!

-- Bravo!

E as risadas e os commentarios succediam-se, excitando aquellas turbas. O rapaz, depois de permanecer algum tempo á porta do corregedor, continuou rua acima, entrou na Praça e andando em volta d'ella:

-- Quem compra os calhaus?

Em quanto na Praça se passam as scenas descriptas e outras similhantes, em casa do corregedor alterna-se este dialogo:

-- Mandei-vos chamar em nome de el-Rei, senhores do Povo, dizia Sarmento, para vos fazer algumas propostas.

-- Podeis fazel-as, respondeu João Barradas, com firmeza.

-- Sabeis que a vereação d'esta cidade, cega no seu falso amor de patria, recusou aceitar a proposta benefica que lhe fiz de serem substituidos os tributos do sal, do real de agua e do augmento das sizas por uma prestação ou subsidio annual de quinhentos mil cruzados.

-- Isso sabemos.

-- Pois a mesma proposta vos faço eu a vós, certo de que, pelo que ella tem de vantajoso, a aceitareis e aconselhareis, levando d'este modo os vereadores a uma airosa reconsideração.

-- Regeitamos, respondeu Barradas, com muita firmeza. O povo portuguez não deve nem póde mais pagar. Tudo nos haveis tributado! Falta lançarem só um imposto sobre as palavras que, já coactos, soltamos!

André de Moraes Sarmento estava fulo de raiva. Irascivel, não podendo conter a colera, e forte com a guarnição que tinha á porta e, por ventura, com algum assalariado prestes a castigar o insolente Juiz do Povo e seu Escrivão, prorompeu:

-- Pois bem, senhores mesteres eborenses! Como só falta tributar-vos as palavras insolentes, agora as vereis tributadas.

E n'isto corre áquella porta ja conhecida do leitor, que dava para uma alcova, onde o vimos já assalariando a uns assassinos, e exclama:

-- Prendei-os! Matae-os!

Apenas Sizenando Rodrigues o viu correr para a porta, caminha elle para a da entrada principal que já não achou aberta.

-- Estamos presos! exclama, de espada desembainhada, correndo as janellas de sacada, que estavam fechadas tambem.

Barradas, sobre quem o corregedor mandára cair alguns de seus esbirros, defendia-se d'elles com a espada, e Sarmento com um par de pistolas apontadas ao juiz, dizia:

-- Deponde a espada, se não quereis morrer!

-- A nós povo de Evora! brada n'este momento Sizenando a uma janella que, por descuido, ficára aberta.

Esta scena correu com uma rapidez extraordinaria. Sizenando, depois de dar o grito á janella, precipitou-se em defeza do juiz e aggressão dos empregados da justiça do corregedor. Sarmento, desnorteado com a resistencia e com o chamamento do povo, que tumultuava fóra, e já dentro rugia, desfecha sobre Barradas, mas não o fere; atira a Sizenando e não lhe toca! Aquella mão perdêra a firmeza; o corregedor de Evora estava perdido! e os seus empregados sem valor. Ao ouvirem o grito de Sizenando e ao verem-no correr para elles, debandaram fugindo por onde haviam entrado, ao tempo em que a porta fechada estalava com violencia a um empuxão enorme do povo, e ao mesmo em que André de Moraes Sarmento corria a fortificar-se no interior da casa, esperando que a tropa viesse em auxilio da auctoridade desacatada. Qual!

Em quanto a primeira onda de povo entrava de rondão em soccorro do seu juiz, cá na rua uma onda maior e mais poderosa acommettia a guarda da cadeia, que apenas pro forma se defendeu, em quanto um outro magote corria á prisão e dava liberdade aos presos.

Como o leitor deve suppôr, tudo isto succedeu velozmente, como acontece quando se tracta da conservação pessoal. Em poucos segundos era entrada a casa da auctoridade, deposto o corregedor pelo povo reinante, e soltos os presos, que vieram logo, sanguisedentos, tomar parte nos tumultos.

Apenas a casa era entrada pelo povo revoltoso, assomava ao cimo da rua de Alconchel um grupo de rapazes e de homens em perenne risada, ouvindo a um sujeito, que dizia:

« Trinta gallegos

« não valem um homem,

« porque quando comem

« meu dinheiro

« teu dinheiro...

-- Viva o dizidor!

-- Viva!!

Entravam na praça. Manuelinho não julgava que tão rapidos corressem os acontecimentos. Tinha vindo com seu vagar arrebanhando o povo com os seus discursos, e começára ao entrar na Praça o conhecido amphigury, allusivo ao valor portuguez e á fraqueza de Hespanha no reino. As vidraças do corregedor voavam n'este momento em pedaços, já partidas de dentro, já esmigalhadas de fóra por um pequeno grupo de rapazes que, associados com o que vendia os calhaus, despejavam a estranha mercadoria para casa do corregedor desautorado.

Apenas o grupo que acompanhava o Manuelinho deu pela entrada da casa do corregedor, para alli correu precipitadamente, deixando só ao heroe d'esta historia. Este atravessou a Praça com andar grave, repetindo:

« Trinta gallegos

« não valem um homem.

Chegando perto da casa da Camara, no fim da Praça, viu começar a chover da do corregedor para a rua uma nuvem de maços de papeis, cadeiras, bancos e mesas, e gritar de cima a voz do alhleta, que lêra o edito affixado pelo rapaz:

-- Fogo! Ao fogo tudo!

-- Sim, ao fogo tudo! exclamou Manuelinho.

A vozeria era espantosa! A affluencia do povo á Praça, grandissima, espalhada a nova dos tumultos. Em poucos minutos ninguem mais alli caberia!

-- Fogo á casa! brada de repente um Stentor popular.

-- Morte ao corregedor! exclama outro.

Como se foram decretos emanados da auctoridade, instantes depois ardia na rua a mobilia e o cartorio do corregedor, em quanto rolos de negro fumo começaram a sair pelas janellas da casa entrada e, pouco depois, pelos telhados. Ao fumo succederam as linguas de fogo instantaneas, e a ruina total da casa em breve. De dentro d'esta saía já o povo, atropellando-se por escapar ao fogo, em quanto João Barradas, que viera ter com Manuelinho, lhe dizia apertando-lhe a mão:

-- Os meus profaças: eis concluida vossa obra.

-- A obra de todos nós. Viva Portugal independente! exclama em voz erguida o Manuelinho.

-- Viva! responderam quatro ou cinco mil pessoas.

-- É preciso agora expedir a noticia para Villa Viçosa e para outras terras, continuou o Manuelinho. Ide vós com Sizenando Rodrigues despachar alguns proprios, em quanto eu fico a dirigir e a conter o povo.

-- De Sizenando não sei. Não mais o vi desde que caminhou, acutilando os esbirros, para o interior da casa.

-- Morreria queimado? E o corregedor?

-- Fugia agora por cima dos telhados na direcção de S. Francisco.

-- E a filha? perguntava Manuelinho.

Ao fazer esta pergunta, a casa era uma fogueira espantosa, onde parecia ninguem poder estar já.

-- Viva o bravo Sizenando! exclama una voce aquella multidão, vendo sair da casa abrazada a Sizenando Rodrigues, rapido como a ave de rapina, empolgada a presa, trazendo nos braços a bella filha do corregedor, palida e semi-asfixiada.

Horas depois, extincto e limitado o fogo, o governo democrata mandava salgar aquelle local para nunca jamais se poder n'elle reconstruir habitação alguma.

XXI

Depois dos tumultos

Antes de serem quarenta

Erguer-se-ha gram tormenta

Do que attenta,

Que logo será amansada,

E tomada a estrada

De calada.

BANDARRA.

Evora é governada pela democracia. Reside no povo a soberania e o numero é a lei, a despeito de isenções e de privilegios.

Será uma hora da tarde do dia 21 d'agosto. O arcebispo D. João Coutinho, depois de haver reunido na egreja de Santo Antão os fidalgos D. Francisco de Mello, marquez de Ferreira, D. Rodrigo, seu irmão, D. Affonso de Porlugal, conde do Vimioso, D. Francisco de Lencastre, conde de Basto e D. Jorge de Mello, saía de cruz alçada, acompanhado d'elles e de muitos clerigos, para d'este modo conter a sanha ao leão popular, que começava a devastar archivos e casas dos diversos magistrados, fazendo solemne auto de fé de seus livros e de suas joias, não consentindo que a avidez de um, de outro desviasse da fogueira um objecto qualquer, ainda do maior valor.

Debalde pedia ao povo o arcebispo, promettendo-lhes intervir para com el-Rei no ponderoso negocio dos tributos; debalde lhes rogava que deixassem á Camara o cuidado da conservação da cidade, alcançando elle o perdão para os delinquentes. D. João Coutinho recolheu a Santo Antão, sem nada haver conseguido mais do que tornar suspeitos ao povo os fidalgos, que o acompanhavam, e elle proprio não ficar bem visto d'elle.

Chegou a noite. A turba insoffrida arremetteu com o Paço archiepiscopal, não entrando, mas contentando-se em lhe quebrar as vidraças ás pedradas, e em insultar o arcebispo tambem com palavras descompostas.

Do Paço archiepiscopal caminhou a turba mais desenfreada com o respeito que os contivera alli, para casa do conde de Basto, entrando-lhe com grande ruido no vasto pateo, hoje chamado de S. Miguel.

Saiu animosamente o conde a recebel-os, acompanhado dos seus creados com tochas accesas nas mão.

Descida meia escada, onde a turba já se achava, o venerando e respeitavel ancião bradou a todos com voz erguida:

-- «Povo de Evora, que me quereis? Sou vosso natural, tres vezes governei este Reyno sem vos fazer aggravo; aqui me tendes; e, se para vossa quietação serve a minha morte, matae-me, e socegae-vos; se quizerdes poupar-me a vida para vos ajudar ao remedio que vos convém, obrae como vos parecer; mas não vos esqueçaes de que sois Portuguezes, onde nunca se conheceu mancha de deslealdade.»

O poder d'aquellas palavras auctorisadas, respeitabilidade dos cabellos brancos do velho conde, contiveram por fórma as turbas, que, envergonhadas, começaram de se afastar.

Contra os demais fidalgos não attentou o povo, crendo-se que elles, amedrontados e sem força, começaram a apoiar o motim.

Rompeu o dia vinte e dous d'agosto. Nos logares mais publicos da cidade via-se affixada esta ordem do governo popular:

-- «Nós, os meninos e rapazes, ministros da divina Justiça, com particular providencia de Dous, nosso Senhor, e com alçada sobre os traidores e perjuros á patria, executores dos tributos de um rei tyranno, e com poder de executarmos os castigos já decretados no tribunal da divina Justiça, com auctoridade quasi divina a nós concedida &. Fazemos saber que havemos por bem exonerar de seus cargos e officios a todas as auctoridades seculares da nomeação do rei intruso, pondo nós em seus logares pessoas honradas, amigas da patria e tementes a Deus. E para que ao conhecimento de todos chegue esta nossa deliberação e se não possa allegar ignorancia, a Mandamos publicar nos logares do costume, para que a cumpram e guardem como dito fica. Dada em Evora, aos 22 d'agosto de 1637. -- Manueíinho. »

A turba popular lia numerosa esta ordem de um governo mal defenido, representado por um louco, mas do qual cada um dos circumstantes era membro, e todos prestavam veneração e respeito áquelle nome irrisorio. E ai do que o não fizesse! Ai do que reagisse contra as ordens e decretos assignados por Manuelinho! O que de mais barato lhe faziam era investirem-lhe a casa, espancal-o e prendel-o, se o colhessem, confiscarem-lhe os haveres em nome da vontade do povo em proveito da fazenda publica, se lhe não queimassem tudo na praça em desaggravo da auctoridade desacatada.

Todos obedeciam porque era impossivel a resistencia.

André de Moraes Sarmento disfarçado saiu de Evora para Lisboa, achando lá a indifferença e desfavor que se concede aos vencidos....

E a multidão vagueava ufana pelas ruas da cidade, ora satisfazendo a mesquinhos odios pessoaes, indigitando seus inimigos como traidores á patria para lhe assaltarem a casa, e para os roubar, ora aguardando anciosa as novas que chegassem dos levantamentos em outras terras do reino.

Fieis ás promessas, os populares não soltaram um grito que os compromettesse, indicando o Duque de Bragança, e os jesuitas, dominícos e os demais conspiradores cumpriram e desempenharam bem o papel que se escolheram, aparentando de pacificadores das turbas.

Chegara de Villa Viçosa a noticia de que o povo respondêra alli ao chamamento de Evora, chegando a acclamar a D. João, como legitimo e soberano rei de Portugal. Sem embargo de vir esta noticia acompanhada de outra, a de que o Duque ou estava doente ou se fingia, e que mandára sair de noite pelas ruas o duque de Barcellos D. Theodosio, de quatro annos de edade, não só por aquietar ao povo, mas por dar uma satisfação a Hespanha, o povo de Evora recebeu a noticia com muita satisfação, bem como as que successivamente foram chegando de outras terras, que segundaram o levantamento de Evora.

A junta dos fidalgos em Santo Antão, presidida pelo arcebispo D. João Coutinho, continuou a corresponder-se com a governadora do reino, Margarida de Sabyoa, e com o Conde Duque de Olivares, tentando sempre reduzir o povo com empenho patriotico ou egoista, conseguindo que a Duqueza de Mantua enviasse a Evora, como pacificadores, a Jeronymo Ribeiro, que fôra corregedor n'esta cidade do agrado do povo, a fr. Manoel de Macedo, frade de S. Domingos, para no pulpito e no tracto agradavel insinuar doutrinas pacificadoras, e a Fernão Martins Freire, senhor da casa de Bobadella, para que, tomando parte na junta de Santo Antão, empregasse seus bons officios para socegar o povo, de quem era muito aceito.

Nada se conseguia. Estando na corte de Madrid fr. João de Vasconcellos, religioso dominíco, natural de Evora, varão sabio e qualificado, foi mais tarde enviado a Evora pelo Conde Duque de Olivares, com ordens para obrar sem dependencia de qualquer poder. Assim, não sendo ajudado pela junta de Santo Antão, que desejava ser ouvida nos meios que fr. João empregasse, teve de recolher a Lisboa, sem nada haver conseguido. O povo regeitava toda e qualquer proposta, na esperança de que o echo do seu grito revolucionario se repercutisse no reino por fórma que, unido este na mesma vontade e no mesmo intento, conseguisse a expulsão de Philippe III e a acclamação do oitavo Duque de Bragança.

A pertinacia e teimozia do povo começou a exacerbar em Madrid ao Conde Duque do Olivares, que, vendo n'ellas a influencia jesuitica, monastica e clerical, expediu uma carta regia contra clles, ordenando se devassasse do seu procedimento, não lhes valendo immunidades, e que fossem punidos no juizo secular.

Arguciosamente andára Olivares desconfiando dos jesuitas, especialmente, porque estes, increpados havia mais de cincoenta annos, como causadores não só da perda de D. Sebastião, cuja educação fôra confiada aos jesuitas Camaras, mas da lusida nobreza do reino, morta ou prisioneira em Alcacerkibir, defendiam cada vez com mais ardôr a crença da vinda do Encoberto, que n'este tempo já não era symbolisado por D. Sebastião, mas pelo Duque de Bragança. Assim tentavam elles desviar da Companhia a feia nota de culpados no desastre de Africa, lisonjear aos principes nacionaes de quem muito poderiam esperar, e tomar vingança das extorsões de Caslella ás ordens religiosas portuguezas.

Além do pulpito, do confessionario e da educação dada á mocidade, interpretavam com admiravel astucia e habilidade os textos biblicos, como favoraveis á vinda de um principe portuguez, e justificativos do motim de Evora. Em quanto esta cidade exclama:

Imple facies eorum ignonimia: et quaerent nomen tuum, Domine. (Salmo 82 v. 17),

responde Margarida de Saboya ao rei:

Reges eos in virga ferrea, et tamquam vas figuli confringes eos (Salmo 2 v. 9).

Em quanto o reino brada a el-Rei:

Quoniam circumdederunt me canes multi: concilium malignantium obsedit me (Salmo 21 v. 17),

Philippe III responde:

Convertimini filii hominum. (Salmo 89 v. 3).

As profecias do Bandarra, as revelações do irmão Simão Gomes, do padre Leão Henriques e de Luiz Alvares, e as Anacephaleoses do Bocarro:

«Da aurora as terras e do oriente os mares,

«E todo o Globo occidental, espera

«Por seu dominador ao Lusitano

«Que restaure em seu seculo o de Jano»

eram armas que jogavam destramente os jesuitas contra Castella.

Decorridos eram quatro mezes de inuteis tentativas para socegar o povo de Evora especialmente, e o de outras terras do reino. Achava-se em Evora o conde de Linhares, ultimo enviado pacificador, em quanto para as fronteiras portuguezes marchavam já dous exercitos demasiado numerosos para tão pequena empreza.

Soberbo e orgulhoso Linhares, queria que os representantes do povo eborense, de saco e cordas, como Egas Moniz, fossem pedir perdão a Philippe III a Madrid.

Prestaram-se João Barradas e Sizenando Rodrigues. Antes porém de partirem, aconselhados pelos jesuitas, receiosos de que o espectaculo feudal terminasse tragicamente em um patibulo, negaram-se ao desempenho da palavra dada.

Estamos no primeiro de janeiro de 1638. Se o leitor quer obter miuda informação do andamento dos negocios, entre commigo no collegio da Companhia.

É de manhã. Alli estão na cella de Sebastião do Couto, Sizenando e Barradas, Gaspar Correia e Manuelinho.

-- Por modo nenhum, senhores do povo. Que?! pois não vêdes n'esse chamamento um laço armado á vossa liberdade e á vossa vida? dizia Sebastião do Couto.

-- É, sem duvida alguma, sim, senhores, acudiu Manuelinho. Não ireis a Madrid, mas dizer ao conde de Linhares que vós já não quereis ir.

-- Notae, porém, sr. D. Mendo da Gama, que a nossa palavra está dada e que...

-- Nada importa que lhe dissésseis que sim. Dizei-lhe agora que não, que o povo de Evora se oppõe, e que vós, como seus representantes, obedeceis a suas ordens e não quereis ir. A causa da patria, senhores, se não está perdida já, para isso se encaminha a passos largos. Deixa o reino perder uma boa occasião de arrancar do escudo de suas armas o leão castelhano. Prefere a escravidão á liberdade! Nação de ilotas que se deixa morrer de pura ignavia, e que, como a luz amortecida, vasquejou ao patriotico sopro que lhe demos, para voltar ao seu morrer de cada momento. Vergonha!

XXII

Um auto de fé na Inquisição de Evora

«No ve la ceguera de su pensamiento.»

GIL VICENTE.

Na noite do dia primeiro de janeiro de 1638 fôra accommettida pelo povo de Evora a casa em que habitava o conde de Linhares. Heroica foi a defensa, em que tomou não pequena parte D. Francisco Manoel de Mello, o vernaculo escriptor, que no dia seguinte foi enviado pelo conde a Madrid de passagem por Villa Viçosa.

Em quanto o Duque de Bejar e D. Diogo de Cardenas se aprestam em Badajoz para marchar sobre Evora com tres mil homens de tropas, se não guerreiras ao menos vistosas; em quanto Diogo Fernandes Salema, corregedor da côrte, é enviado com varios juizes a Evora, para syndicar e castigar aos cabeças de motim; em quanto no dia 16 de março d'este anno é publicada a sentença de morte contra João Barradas e Sizenando Rodrigues, com pregões e altas vozerias; em quanto o pobre Antão Vasques, o athleta mechanico, leitor do edicto do Manuelinho na Praça e outros desgraçados são enforcados n'esta cidade, em desaggravo da catholica magestade offendida; em quanto o leitor não toma conhecimento do destino dos mais importantes personagens d'esta historia; e em quanto não somos forçados a deixar esta cidade de Evora, bem será que assista, no dia 2 de Maio de 1638, a um espectaculo, sobre barbaro, vergonhoso para a dignidade humana.

Rompe a manhã: as torres e o zimborio aguçados da cathedral de Evora começam a retractar-se no azul do ceu de um bello dia do mez das flores; os sinos de Nossa Senhora do Anjo e de Neutel principiam a tocar, enviando, antes das ave marias, o som de suas vozes pelas campinas do Alemtejo. Annunciam aos eborenses auto de fé.

No vasto pateo da Inquisição d'esta cidade acham-se por dez horas da manhã os padres de S. Domingos, os de S. Francisco e os de outras ordens religiosas, e muitas pessoas qualificadas da cidade. Soam na Sé as onze horas; abre-se a portaria d'aquelle tribunal, e começam a sair d'elle em procissão os tolerados executores da permanente hecatombe.

Os primeiros que sáem são os dominicos, com a bandeira do Santo officio na frente; seguem dous condemnados ao fogo, Francisco Pestana, sapateiro, de Faro, e Catharina Ferreira, natural de Arraiollos, vestidos de pano pardacento, descalços, com samarras, carochas e sambenitos de baeta amarella e encarnada, vendo-se seus retractos ao natural cercados de chammas e diabos na frente e na rectaguarda da samarra, em que se lêem seus nomes, patria e crime. Adiante d'estes caminha um frade com um crucifixo erguido e vollado para os padecentes, a quem acompanham duas pessoas da terra na qualidade de padrinhos. Escarneo! dous padrinhos! para que?

Após estes caminhava outro frade com uma estatua na ponta de uma haste de madeira, vestida como os dous padecentes: e, em seguida, um familiar do Santo officio, alto e reforçado, com um caixão negro ás costas, pintado de chammas, tições e diabos, e sem letreiro algum.

Vêm apoz estes os inquisidores, seguindo depois o povo já convidado, já curioso. Este prestito funebre, esta vergonhosa procissão desce pela rua da Sellaria, corta pela rua de Burgos, Praça do Peixe, Porta Nova, S. Domingos, rua da Carta Velha, de Alconchel, Praça, rua do Paço, dos Infantes, Porta de Moura, rua da Mesquita, Castellos, e, proseguindo em frente, entra outra vez na do Paço e dirige-se á egreja de S. Francisco. Aqui estão já as auctoridades seculares esperando a procissão. Tomam logares, e começa a ceremonia religiosa consistente no sermão do auto da fé.

Sobe ao pulpito o jesuita padre Manoel Tinoco. Ouçamol-o:

« Lapidem, quem reprobaverunt aedificantes, hic factus est in caput anguli, a Domino factum est istud, et est mirabile in oculis nostris.

«Illustrissimos senhores inquisidores: são estas palavras do Psalmo 117, que compos hu dos mais esclarecidos auós q o Messias Christo Jesu Senhor Nosso teue, qual foi David, Rey no estado, valeroso na pessoa, na prophecia diuino.»

Assim começou o jesuita, terminando d'este modo:

« Rasão de queixa têm algus Christãos, que se queixão da muila brandura, que vsa conosco este santo Tribunal, sendo tão conhecido por gente que se quer por mal, & que com a indulgencia & perdão nenhua emenda tem: mas a verdade he, que tão bem se enganaõ, porque causas da fé, não se querem com rigores...

«E vos, mofinos obstinados, que afferrados a vossa pertinacia não quizestes confessar vossas culpas pedindo perdão d'ellas, caminhai, caminhai para o fogo: já vejo ateado em vos o do inferno, & que em breves horas achareis em Tribunal julgandouos, a quem naõ quizestes reconhecer na cruz remindouos. Ecce vos accendentes ignem accincti flãmis ambulate in lumine ignis vestri. Parece que vos estava vendo Isaias tão bem vestidos, como mereceis, afogueados, & já que não quizestes a luz da fé, que a egreja santa vos ensinou, & no baptismo prometestes, ireis guiados com o fogo, que acendestes, ao inferno que vos esperava...»

«E vós piissimo Jesu, peço-vos lhe deis a efficacia de vossa divina graça para que com effeito tenham contricção de seus peccados e vos amem o q lhe resta de vida, como a seu Deus & Redemptor, para que assim grangeem a eterna. Ad quam nos perducat, qui cum Patre, & Spiritu sancto regnat in perpetuum. Amen...»

Ahi tem o leitor uma amostra do discurso do padre Manoel Tinoco. Ahi tem uma linguagem toda fogo e escarneo! em que se promettem branduras e se dão rigores! Miseria humana!

Mas assistamos já agora ao tragico fim dos dous condemnados.

Sae da egreja a procissão para o Rocio. Lá estão já tres fogueiras por accender, tres montões de achas alcatroadas sobre uma especie de tarima de madeira, do centro das quaes sae uma haste de ferro mais alta do que um corpo humano. A multidão é enorme para assistir ao espectaculo! Deveria ser o contrario; mas não assistiam os romanos outrora nos circos aos milhares, ao despedaçar dos escravos pelas feras da Numidia? Não sentiam elles prazer intimo ao ouvir o rugir do leão e o exhalar do ultimo suspiro das victimas? Não correm tambem aos milhares os hespanhoes, nossos visinhos, ainda hoje ás praças de touros para ver estripar cavallos e matar bois? É que o povo, educado assim, acostuma-se desde criança a encarar sem a barbaridade inherente os espectaculos ainda os mais atrozes e deshumanos. Assim se explica a concorrencia numerosa entre nós até ha poucos annos, graças á nossa civilisação, que baniu o saião deshumano, ao espectaculo da forca! Olhavam para ella aquellas massas com a indifferença com que presenciariam em vespera de romaria o correr canas e frangos. A morte de um homem era para ellas como a de um irracional. Não viam na victima um similhante, e nem pela mente lhes passava sequer a ideia de que aquella scena se intitulava exemplificadora e reformadora dos bons costumes! Esta era e é a verdade. O argumento do exemplo era contraproducente, porque esmagava o sentimento.

Chegado alli o funebre cortejo, os dous infelizes, obstinando em não dizer mentiras, com uma leve pancada no hombro de cada um foram relaxados ao braço secular, que sem detença os entregou aos carrascos inquisitoriaes. Amarrados pelos pés, mãos e pelo pescoço ao poste, ou haste de madeira da tarima, sendo a estatua cravada em uma outra ruma de achas alcatroadas, os algozes d'aquellas victimas sem culpas lançaram-lhe logo o fogo.

Ouviu-se um leve borborinho, um breve susurro em toda aquella multidão, que, por melhor se collocar e ver arder aquelles corpos, o produzia, conchegando-se. Uma famarada escura envolveo logo os corpos das pobres hostias innocentes e da estatua, que aos pés tinha o caixão pintado de preto com seus ossos; depois, dissipados aquelles rolos de negro fumo, foram substituidos por allas de fogo avermelhado, que se ateiaram rapido nos miseros padecentes...

Os gemidos, os gritos agudissimos vindo do intimo de seus peitos; o estalido das achas ardentes; o psalmear hypocrita dos frades e o cheiro nauseante d'aquelles corpos a arder, no silencio que reinava em torno, eram verdadeiramente horrorosos!...

Depois... nada mais. A procissão desfilou para o Santo officio, levando em triumpho a imagem do Senhor Jesus dos queimados, do Homem-Deus, que prégou sempre a caridade e o amor do proximo e que morreu em uma cruz para redemir o genero humano da escravidão da idolatria, das trevas da ignorancia, e da religião do desamor!

Cobri-vos de crepes, dignidade e supremacia humanas!

XXIII

Manuelinho

«E o povo, por ironia,

«Manuelinho lhe chamava:

«E dizidor, inspirado,

«Toda a gente o reputava:

«Ninguem sabia o motivo

«Porque perdêra a razão,

«Ou qual seja a sua terra,

«Qual foi sua educação:

«Bem nascido parecia.»

PIZARRO -- Romanceiro

Portuguez, 2º

No anterior capitulo assistiu o leitor no Rocio da cidade de Evora a um auto de fé do Santo officio. Alli viu desfazer dous corpos e exhalar o derradeiro suspiro duas victimas do nefando tribunal, e alli viu queimar uma estatua e a ossada do homem que aquella figura representava. Soube quem foram aquelles dous desgraçados; e, porque os inquisidores adrede occultaram o nome da victima queimada depois de morta e quiçá enterrada, serei eu quem lhe diga o seu nome, se a sua perspicacia o não descobriu ainda. Era D. Miguel de Salamanca o disfarçado peregrino a quem Manuelinho envenenára, envenenando-se, na casa dos tratos da Inquisição. Occultára-lhe aquelle tribunal o nome de proposito, porque se não podesse dizer em tempo algum que a Inquisição de Evora assassinára um enviado da Hespanha.

E pois que o leitor já conhece o fim d'aquelle personagem d'esta historia, e já viu como a heroica tentativa do povo eborense, mantendo-se por mezes, na esperança de que o reino quebrasse de vez as cadeias que o agrilhoavam á Hespanha, começava já a se approximar do termo, vejamos nós leitores, o que terá succedido aos demais individuos que tem visto n'este livro e de quem não sabe ainda o final destino.

Havia quasi dous mezes que a justiça de Castella procurava cuidadosa as duas auctoridades do povo, João Barradas e Sizenando Rodrigues, a quem já queimara em estatua e por cujas pessoas offerecia premios até. De Manuelinho não fizera caso a justiça porque, ou como elle previra passára por louco sem imputação a seus olhos, ou porque se escondêra para fugir á acção da justiça: Sizenando e Barradas estavam evidentemente homisiados; e, quanto aos jesuitas, Alvaro Pires saiu de Evora sem se saber para onde, bem como Sebastião do Couto, que até vinte e quatro de março teimava em não querer ir a Madrid, onde era chamado com pretexto attendivel, e para onde chegou a sair Gaspar Correia, que lá esteve um anno, voltando em junho de 1639, e indo depois para S. Fins, onde se achava ainda em setembro.

E porque o leitor quererá saber tambem onde param os personagens homisiados, acompanhe-me á rua Oriental de Diana e entremos na casa que hoje tem o numero 3. Alli se escondem Sizenando, Barradas e Manuelinho.

Em uma casa bastantemente espaçosa, mobilada ao gosto da épocha, passeiam e conversam os tres heroes da nossa historia.

-- Sim, mas, se até hoje nos hemos podido occultar, talvez o não possamos fazer d'ora avante; parecia responder a pergunta já feita, João Barradas.

-- Se não fôra o estado de fraqueza de Constança ainda hoje deixariamos Evora, disse Sizenando.

-- Deixaremos, sim, que não ha outro partido a seguir, respondeu aos dous Mendo da Gama. Deixaremos esta terra em que vivi tanto tempo, errante após uma sombra e uma ideia, animado pelo calor interno da vingança, demonio horrivel que não concede treguas, e que muda de côr como o camaleão, ora apresenlando-se a espumar sangue, ora sorrindo alegre como o anjo da guarda da patria.

Quando eu menos já o esperava, quando, perdida a esperança de vingar meu pae e minha pobre irmã, estendi o meu odio aos caslelhanos invasores, eis que o destino me arrasta pelos cabellos aos carceres da Inquisição de Evora o assassino dos meus!.. Esse lá jaz sem vida no pó das campas... vinguei meu pae. E a patria, a bella patria de tão grandes homens, tira de terra occidental, inveja de estranhos, esta prefere a vida do escravo, o açoute do Senhor e a fome ao viver do homem livre, ao mandar e á abundancia!... Patria dos fortes, cobre de crepes as quinas de teu brasão.

Portugal! Lutaste com a poderosa Roma e desfalleceste como ella no amollecimento de virtudes civicas! És cadaver com vida, minha patria; o frio das campas entorpece-te os membros; careces do surge et ambula de um redemptor, que faça o milagre que nós outros não podémos, nós que por tanto tempo floreámos a bandeira da independencia. Deixemos Evora, deixemos, meus amigos, e busquemos algures lugar seguro onde não possa chegar a vingança do algoz castelhano. Que projecto haveis João Barradas?

-- Se tiveramos haveres consideraveis fôra de parecer que deixassemos Portugal; assim, não me occorre destino algum, que melhor convenha.

-- Haveres!? Sim, haveres já eu tive abundantes, mas ha mais de trinta annos que para elles morri... Ha mais de trinta annos que se riscou da lista dos fidalgos portuguezes o nome de meu pae e o meu, e são hoje do estado as vastas terras de Pena de Alfange... Já lhe não tenho direito. E que tivesse! somos escravos... Prescreveu o meu direito, que não quiz fazer valer depois da catastrophe de Pena de Alfange, contentando-me apenas com salvar d'aquella casa algumas joias e dinheiro contra a vontade de meu pae, que já se consumiu; conservo sómente uma cruz de brilhantes que foi de minha mãe... o mais tudo acabou...

-- E quem habita hoje o vosso castello? perguntou contristado e curioso Sizenando.

-- Quem ? Reptis e aves nocturnas, unicos moradores de paredes arruinadas...

-- E não mais alli voltaste? perguntou Barradas.

-- Ai! voltei, voltei e voltaria ainda hoje se a acção do tempo não prostrára aquelle palacio.

-- Que! pois deixaram desabar o vosso castello? Ninguem mais o habitou?

-- Ninguem. Foi o cumprimento da ultima vontade de meu pae...

-- Porém, sr. D. Mendo da Gama, vós podeis intentar haver os vossos bens.

-- Haveria, sim, se tiveramos um rei portuguez. Agora, meus amigos estou velho e é já cumprida a minha missão na terra... Vejo no horisonte do minha breve vida a sepultura, e quiçá nas ruinas do castello de Pena de Alfange. Ninguem me conhece por ahi; julgam-me morto ha muitos annos... pois serei morto para a nobreza do reino.

-- Não penseis em morrer; esta tentativa ha de fructificar um dia; a dormente nação ha de acordar, creio-o intimamente, e então, vós sereis o possuidor da casa de Pena de Alfange.

-- Sim, é possivel o que dizeis, respondeu a Barradas, Manuelinho ; eu, porém, não chego lá: aproxima-se o meu fim: ralam-me ha tempo desgostos muito grandes... é forçoso que desappareça da terra um assassino... E calou-se e soluçou e caiu sobre um tamborete, meditabundo, correndo-lhe pelas faces, prematuramente cavadas, duas lagrimas volumosas.

N'isto entrava na sala um sujeito conhecido.

-- Aquelle é o porteiro de S. Francisco! Exclama o leitor, admirado.

É, sim, é aquelle. Abandonando o convento para servir melhor senhor, está como d'antes ás ordens de Manuelinho. Serve agora ao reputado louco, como outr'ora ao activo fidalgo, ao famoso caçador de feras d'aquem e d'além Guadiana.

-- Senhor Sizenando, a senhora D. Constança chama por vossa mercê, disse o ex-porteiro.

Sizenando foi ao chamamento, e Barradas acompanhou-o, e Manuelinho, ouvindo aquella antiga voz sua conhecida, disse:

-- Hei mister falar-te, meu bom servidor.

-- Mandae me, respondeu aquelle.

-- Sabes que me affeiçoei a esta gente e que, já agora, quinhoarei a sorte d'elles? Pois bem, meu amigo, espero de ti um serviço.

-- Em quanto eu viver e a vida me servir para alguma cousa serei todo vosso.

-- Obrigado. Has de ir a Lisboa. Conheceste-me rico e poderoso e serviste uma das melhores casas d'este reino. Hoje serves a sombra do herdeiro d'essa casa, meu pobre amigo! Has de ir a Lisboa trocar por dinheiro corrente n'estes reinos a ultima joia d'aquella casa... Has de vender lá a ultima alfaia da casa de Pena de Alfange...

-- Obedecerei, disse o velho criado, triste.

-- Persegue o odio de Castella a essa pobre gente... Ha já entre elles um recemnascido... não tem haveres alguns... coitados! é preciso que lhes valha o senhor da casa de Pena de Alfange, disse, tristemente sorrindo.

-- Irei quando o ordenardes.

-- Ainda hoje, respondeu Manuelinho. E olhando em volta e vendo que estavam sós, tirou do peito uma cruz pendente de cordão de seda, que parecia ter sido verde. Encarou-a com um sorriso que as palavras não descrevem, beijou-a, contemplou-a outra vez extactico, em quanto uma lagrima teimosa caía sobre ella, como para lhe juntar mais uma perola de subido preço, brilhante d'alma, sem valor no mercado, e entregou-lh'a depois de a rebeijar.

Ahi tem o leitor quem era o Manuelinho d'Evora, quem era o louco que durante trinta e sete annos viveu vida errante, despojado de familia, de bens e até do proprio nome! Alma vasada em molde antigo, chegando mais tarde ao castello de Pena de Alfange depois da conhecida catastrophe, preferiu respeitar a ultima vontade de seu pae, a fruir a posse da grande casa que era sua! preferiu comer o pão negro da desdita ignorado, morto ante-tempo, a viver entre regalos n'um tumulo, que tal se lhe afigurava o seu palacio! Preferiu deixar-se conduzir pela mão da vingança por terras de Hespanha no encalço de Manoel de Vilhena, a ser o alvo dos commentos da maledicencia! Quando perdeu a esperança de reivindicar seu pae e sua irmã, quiz reivindicar a liberdade da patria, que elle tanto amava; e, quando, depois de apodado, de escarnecido, viu baldados seus esforços heroicos, abre a sua alma ao affecto da desgraça, manda vender a ultima joia, que fôra de sua mãe, para soccorrer no exilio aquelles que com elle tentaram libertar Portugal! Nobre e excellente alma!

XXIV

Uma familia de Ciganos

«Não acceitam jugo ou laço,

«Querem livres ter o braço,

«E livres querem morrer.»

MENDES LEAL -- CanticoS.

O castello feudal de Pena de Alfange, de que o leitor se deve lembrar ainda, situado nas margens do Guadiana, vae ser de novo o theatro da acção d'esta historia. Mui differente o encontrará agora do que foi ha trinta e sete annos. Aquella porta de carvalho, chapeada de ferro, que dava entrada para o vasto pateo, desappareceu, e apenas subsistem chumbados ás hombreiros os grossos gonzos de ferro batido. Silvas, hera pelas paredes, figueiras bravas, arbustos de toda a casta e herva tolhem a livre entrada ao visitante. Entremos por este trilho cotiado. Da escadaria de marmore restam apenas os vestigios em que assentavam os degraus, que foram arrancados. Os dous castellos lateraes, por sua fortaleza e segurança, ainda se conservam de pé e menos mal conservados: a parte apalaçada, onde foram os aposentos de Leonor da Gama, onde existiu a sala dos retratos, que o leitor conhece, só conserva erguidas as paredes, havendo-lhe desabado os tectos e os pavimentos.

Grandes tufos de hera viçosa se debruçam agora d'aquellas janellas d'onde outr'ora Leonor extactica contemplava o castello fronteiro, e arbustos diversos, nascidos nas fendas das paredes, abriram n'ellas brechas enormes, que ameaçavam prostral-as. Pardaes damninhos habitavam de dia aquellas ruinas e de noite as corujas, morcegos e outras aves noctivagas.

A parte do palacio, que fôra a sala dos retratos conservava ainda não só metade do pavimento, mas a parte correspondente do tecto, que, por ser abobadilha, não caíra de todo.

Entremos nos jardins. Faz pena ver aquillo! cresceu descommunalmente a herva por entre as flores que abafou, estiolou e perdeu. Os arbustos fizeram-se arvores e as arvores tomaram proporções gigantescas. Cobras e lagartos restejam agora por alli, por aquelles densos recessos, como n'outro tempo passeiavam os ricos habitantes, os opulentos senhores... O canto dos rouxinoes foi substituido pelo pipitar e pelos trilos de aves damninhas. Tudo n'aquelle jardim soffreu mudança, tudo cedeu á instabilidade das cousas humanas...

Estamos em maio de 1639. N'aquellas ruinas espantosas vive, ou, melhor, abriga-se n'esta épocha uma familia nomada de ciganos.

Povo inculto e errante, oriundo do Egypto ou da India em tempos remotos, disperso como o judaico pela Europa e pelo mundo; Egypcios na Inglaterra, Tartaros na Suecia e Dinamarca, Gitanos na Hespanha, Zingaros na Italia, Turquia e n'outras nações, e Ciganos em Portugal, este povo selvagem entre os cultos, falando uma mistura da lingua do paiz em que vagueia e de um dialecto ou patois seu proprio; vivendo do roubo, lendo a buena dicha, crendo n'um reflexo da nossa religião ; suja e singularmente vestido, tinha nas minas do caslello de Pena de Alfange seis de seus membros n'aquelle anno.

Era uma pequena tribu de caldeireiros, escamoteadores e feiliceiros que, de tempo em tempo, lá saíam das ruinas e percorriam algumas terras tanto portuguezas como hespanholas.

Em que parte d'aquellas ruinas habitarão elles? e porque escolheriam tão ermo sitio? Naturalmente para melhor esconderem seus furtos e viverem cercados d'aquelle mysterio preciso a todos os que exercem bruxedos e feiticerias.

A parte em que habitam é a torre occidental do castello, a melhor conservada das duas. Entremos nós alli, e vejamos, leitores, esta familia de perto. São onze horas.

Um velho, alto e magro, sentado a um canto da casa tem sobre os joelhos uma creança com quem brinca. As barbas grisalhas e os cabellos brancos pendem-lhe em despenteados anneis até aos hombros e peito. A creança é formosa como um cherubim de nossas crenças. Era como a filha de Estella, de quem o mavioso Thomaz Ribeiro disse:

«Flor de neve com doirada coma».

Uma mulher, representando perto de quarenta annos, vestido o corpo gracioso e esbelto, de roupas de varias cores, muitos folhos e requifes, junto de uma fogueira cercada de panellas de barro, parece cuidar do jantar para aquella familia. Sentado no chão e perto de uma janeila, um outro homem exerce o mister de caldeireiro, batendo e ligando o cobre sem pregos e sem solda, processo desconhecido dos nossos officiaes d'aquelle officio. Um terceiro homem emprega-se em fazer odres e um quarto lê n'um livro de capa de pergaminho.

-- Tão entregue a leituras andaes, que bem se vê não quereis ser sábio de má morte, disse para este que lia, o velho que brincava com a creança. -- Nem vêdes como esta creança se ri para mim! -- Sempre queria saber que livro é esse que tão longe vos tem de nós todos.

-- E a Chronographia de Manoel de Figueiredo, impressa em Lisboa por Jorge Rodrigues em 1603, respondeu o distrahido ledor.

-- Ora deixae-vos de aslrologias judiciarias e vêde vosso filho como brinca formosamente.

-- Que quereis?! A nobre Hespanha força-me, como a todos nós, a mudar de nome e de profissão, não só para lhe escaparmos ao paternal cuidado, como para alcançar a propria sustentação, respondeu o interrogado, pousando o livro e indo para o velho e para o filhinho.

-- É verdade, sim, disse tristemente o velho. Já nada temos.... Tudo se gastou... já nada possuo que vos possa dar...

-- Não faleis n'isso. Depois do que por nós haveis feito, dever nosso é, que somos novos e vigorosos, trabalhar para alimentar e defender o homem generoso que se privou do ultimo objecto querido, que possuia, em proveito nosso.

-- Obrigado. Assim será já agora que esta vida teima em não deixar um corpo myrrado e com pouco vigor...

Era meio dia pelo sol. A mulher tinha prompto o jantar. Poz a mesa sobre uma especie de arca velha e, momentos depois, aquella familia tomava a refeição do meio dia.

Tudo alli era pobre... Uma parte da casa estava dividida por uma especie de biombos de chita, que a separavam em quatro partes, ou camaras em que dormiam aquelles indivíduos Algumas cadeiras ordinarias, feitas de madeira e de uma especie de buinho, ou junco, que nasce nas pequenas ribeiras do Alemtejo, adornavam aquella habitação.

Durante o jantar poucas falas trocou aquella pobre familia. Carinhos da mãe para o filho e pouco mais.

Volveu rapida a tarde porque se toldára o céo por grossos cúmulos e nimbos, anoitecendo cedo. Accendeu-se uma candeia de ferro, que alumeou aquella estancia. A mãe recolheu-se a um d'aquelles quartos, cujas paredes eram pannos de chita, levantado nos braços o filho meio dormente, e tres homens, sentados em volta da arca, que lhes servia de mesa, conversavam.

-- Vae-se demorando o Bernardo, e nós sem noticias algumas de Evora e de Lisboa, dissera o velho.

-- É verdade, não sei de minha familia, acudiu o que lêra a Chronographia de Manoel de Figueiredo.

-- Nem eu tampouco da minha, accrescentou o que fazia odres.

-- Se o esforçado D. Antão de Almada não me acode com mais alguma noticia, meus amigos; se o plano d'elles melhormente combinado do que o nosso, não tiver um melhor exito, estamos perdidos todos, porque mais dia menos dia seremos descobertos e mortos... E depois as privações que temos... Valha-me Deus! dizia o velho.

N'este comenos ouviram-se passos na escada que dava subida para a torre.

-- Se fosse Bernardo! exclama o velho.

-- Elle já tinha tempo de voltar de Serpa. E os tres homens ergucram-se e caminharam para a escada, levando a luz o que lêra a Chronographia.

-- Quem sobe? perguntou este.

-- Gente amiga, com boas novas, respondeu de baixo o que subia.

-- Bem vindo sejas, disse o velho. E voltando-se para os dous, accrescentou:

-- E que eu já nada possua! E que eu não possa recompensar tão valiosos serviços como os que me tem prestado este homem!

Bernardo chegou acima, entregou ao velho uma carta, e uma a cada um dos dous, trazendo mais uma caixinha para a companheira d'aquelles homens. Esta, ao ouvir dizer ao recemchegado que para ella trazía uma caixa, vinda de Lisboa, veio de lá do seu quarto de cortinas pressurosa para saber o que conteria.

Em quanto cada qual se entrega á leitura, a mulher abre a caixa e vê logo ao de cima um papel que dizia: Para minha filha.

-- Bemdito seja Deus, exclama, olhando para o céo -- Uma carta de meu pae!

Ao ouvirem esta exclamação os tres homens caminharam para ella anciosos por saber o que a carta dizia. Em todos aquelles rostos reluzia a alegria, o contentamento, a satisfação. A mulher leu:

-- Com que prazer te escrevo, minha boa filha! Eu que não pude saber de ti, depois d'aquelles fataes acontecimentos em que eu tão mal avisado andei! E eu que te suppunha morta! Approvo o teu casamento, abençôo meu neto e minha filha, para quem envio essa lembrança. Ai! acautelae-vos, acautelae da Hespanha, que nem já perdoa aos seus affeiçoados. Escreve-me pela mesma via, que eu outro tanto farei. A pessoa intermediaria em Serpa é a todos os respeitos excellente. Não será facil descobrir-se o vosso paradeiro. Correm por aqui mui vagamente umas novas que vos poderiam favorecer, se não foram impossiveis. Aguardemos melhores tempos. Teu pae que muito te estima -- André de Moraes Sarmento.

Este papel, que mostrava ser escripto á pressa, trouxe a felicidade a Constança, que o leitor já certamente descobrira, bem como deve saber quem são todos aquelles falsos ciganos expatriados.

Dentro da caixa vinham vinte moedas de ouro. Estava remediada por algum tempo aquella gente.

D. Mendo da Gama arranjára em Serpa um velho amigo da maior confiança, por intermedio do qual se correspondiam elle e os Juizes do Povo de Evora expatriados, e por elle escrevêra Constança Sarmento ao pae uma carta, em que lhe contava tudo o que passára, depois que fôra salva das chammas por Sizenando até que, disfarçada em cigana, se abrigava com o marido e já com um filho nas ruinas de um antigo palacio sobre o Guadiana.

As cartas de Evora diziam aos fugitivos que já não era tão intensa a perseguição da auctoridade em os prender, por julgar que teriam deixado o reino, e de Lisboa a D. Mendo da Gama respondia em cifra João Pinto Ribeiro, annunciando-lhe já a conspiração, e convidando-o a prégar nas terras propinquas a mesma cruzada que prégara em Evora, agora disfarçado em cigano, como alli em louco, promettendo-lhe soccorros pecuniarios mui brevemente.

Este conjunto de novas arrancou a tristeza áquella gente, que viu n'ellas a aurora da redempção.

XXV

Guerras da independencia

«Pagou El-Rei fazendo-lhe largas mercês.»

Portugal restaurado -- 1.º -- 253.

Real! Real! por D. João IV rei de Portugal -- haviam bradado em Lisboa quarenta patriotas, operando a mais espantosa mudança de que falam historias, expulsando á ponta da heroica espada o governo de Philippe III, e acclamando seu legitimo soberano ao Duque de Bragança, oitavo em sua série.

Foi Evora uma das primeiras terras que seguiu Lisboa. D. Mendo da Gama, instruido por João Pinto Ribeiro, quando, deputado da Junta conspiradora, viera a Villa Viçosa, achava-se n'esta cidade desde o primeiro dia de Dezembro de 1640, nos Paços do Conde de Vimioso; e com elle e com o Marquez de Ferreira e outros nobres fizeram nesta cidade a acclamação, segunda feira, tres de dezembro do mesmo anno, e partiram logo para Villa Viçosa.

Manuelinho, ou D. Mendo da Gama, que ambos valem o mesmo, saira do seu arruinado castello, deixando alli João Barradas, Sizenando Rodrigues, Constança Sarmento e seu filho, e viera com o seu antigo e leal servidor para Evora, recommendando áquelles que não deixassem o esconderijo, em que estavam, sem aviso seu.

Em Villa Viçosa foi D. Mendo da Gama apresentado pelo Marquez de Ferreira e pelo Conde de Vimioso a D. João IV, que, instruido succintamente da sua lamentavel vida e dos serviços prestados á patria, para logo lhe prometêra a restituição de sua casa de Pena de Alfange.

De Villa Viçosa para Lisboa, onde el-Rei entrou na manhã de quinta feira seis do mesmo mez, fazia parte da commitiva o heroe da nossa historia.

Terminára o anno de 1640, o começára o de 1641 sombrio e tenebroso.

Do Terço que D. João da Costa levantou em Evora fazia parte D. Mendo da Gama, commandando uma companhia.

Eram decorridos mezes; e Mendo da Gama que apezar dos annos queria achar occasião de pôr seu peito aos pelouros castelhanos em defensa da patria, achando-se na guarnição de Elvas em outubro de 1641, saiu d'ella para a empreza de Valverde. Foi a companhia de D. Mendo da Gama uma das primeiras a investir as trincheiras d'aquella villa. O valor, a constancia e coragem, desenvolvidas pelo commandante á frente da sua companhia, tal animo insuflaram nos seus, que o avançar e subir dos bravos portuguezes aos baluartes bem se poderia comparar ao crescer de rio caudaloso, galgando tapumes marginaes, alagando campos, subindo sempre, a despeito das grandes enxurradas, que dos altos montes sobre elle descem, tentando, inutilmente, reprimir-lhe a subida, e dando-lhe, ao contrario, mais alento e corpo.

A companhia de D. Mendo era como o rio; quanto mais sobre ella chovia a resistencia, tanto mais heroismo no acommetter! tanta mais audacia no subir ás trincheiras!

Trincheiras e baluartes iam sendo tomados pela heroica companhia ao tempo em que por outras partes era entrada a Villa, porque sempre o conseguir nos portuguezes foi consequencia do emprehender.

Como se fugiram ao diluvio, os castelhanos retiraram a fortificar-se no reducto da egreja, entrada por toda a parte a Villa. N'ella mandou entrar as nossas tropas o commissario geral, Francisco Rebello de Almada. Grande erro foi aquelle, porque os hespanhoes nos fizeram grave damno pelas seteiras das casas, sendo elle o primeiro que caiu ferido na cabeça por uma bala. Quando D. Mendo da Gama o viu cair, olhando torvo a traiçoeira casa, brada sublime aos da sua companhia:

-- A perda d'este valente importa a ruina de quantos defenderem esta casa. Bravos portuguezes! segui-me!

O exemplo d'aquella bella figura de cabellos e barbas brancas, avançando denodado para a casa, por fórma enthusiasmou os seus, que, cinco minutos depois, voada em lascas a porta, D. Mendo entrava-a resoluto. Ai dos que a defendiam!. Mas, sorte quasi igual o esperava a elle na subida... Uma cutilada despedida de cima, do alto da escada, ao intrepido o prostrou mal ferido na cabeça, perdidos os sentidos, e banhado em sangue... Os nossos, alucinados com aquelle desastre, galgam instantaneos a escada, amparando nas espadas as cutiladas despedidas de cima, e penetram o primeiro pavimento. Alli se achavam oito homens em defensa desesperada. Nenhum pôde resistir muito tempo á furia dos nossos valentes. Foram todos degolados, correndo os nossos a conduzir o semi-morto commandante. No retrocesso já o não acharam caido, mas amparado nos fortes braços do ex-porteiro de S. Francisco de Evora.

A este tempo tocavam as trombetas portuguezas a retirar, por ordem de Martim Affonso de Mello, e o pequeno grupo de portuguezes, trazendo em braços a D. Mendo da Gama, eram recebidos por um esquadrão de D. João da Costa fóra da Villa. onde se postára para evitar maior damno aos nossos.

Conhecido o valor de D. Mendo da Gama na entrada de Valverde, tanto de Martim Affonso de Mello como de D. João da Costa, não lhes soffreu o animo deixarem no esquecimento as façanhas do nosso heroe. Teve d'ellas conhecimento el-Rei, o qual, ao tempo em que enchia de largas mercês aos filhos de João Mendes de Magalhães, que lá ficou morto, restituia tambem a D. Mendo da Gama toda a sua casa de Pena de Alfange, cujo legitimo senhor se averiguára ser.

O ferimento recebido era grave. Carecia o ferido de bom tractamento e muito descanço para lhe poder resistir. Pedira a D. João da Costa que o mandasse transportar, acompanhado de seu velho servidor, ás ruinas de Pena de Alfange, onde gente amiga o tractaria, e donde, restabelecido, voltaria á lucta contra Castella.

Concedeu-se-lhe a pedida licença, e Martim Affonso de Mello mandou-o levar n'umas andas ao seu arruinado castello em companhia do Bernardo, do ex-porteiro de S. Francisco. Chegados a Pena de Alfange os conductores do ferido foram encaminhados á escada que conduzia á torre, levando-o em braços.

Grande foi o espanto de Bernardo ao chegar acima, áquella casa que o leitor conhece. Em vez de Barradas ou de Sizenando Rodrigues foram recebidos, mal imagina o leitor por quem! por André de Moraes Sarmento e por seu neto, o pequeno Vasco! Constança estava doente, e as duas auctoridades do povo tinham ido para a guerra, a despeito da recommendação que lhes fizera Manuelinho de não deixarem aquelle lugar. Mas não cabia em animos patriotas aquella ignavia! Apenas poderam deixar entregue Constança aos cuidados do pae, que alli viera parar sacudido da Hespanha e temeroso dos nossos, os dous voaram a Elvas Tinham saido havia dous dias. A doença de Constança mais era saudade e cuidados na vida do esposo do que enfermidade real. Ao saber que alli estava D. Mendo da Gama ferido, Constança teve forças para vir ao encontro do padrinho de seu filho, e para lhe pestar os serviços de uma boa enfermeira.

Já não respirava tanta pobreza aquella habitação. D. Mendo da Gama foi deitado n'um leito meio decente que alli havia. Mui fraco vinha o ferido. Poucas palavras soltára pelo caminho, vindo quasi sempre de olhos fechados. Alli, ao sentir o bem estar de um melhor leito, abriu os olhos e conheceu onde estava. Tomou alento ao ver-se em sua casa e ao fitar Constança e seu filho, que ella lhe mostrava ao collo:

-- Louvado seja Deus! exclamou elle. Julguei que vos não veria mais! Onde estão os meus amigos? perguntou.

-- Onde os chamava o dever de portuguezes, respondeu Constança. Foram para a guerra e deixaram-me com meu pae.

-- Ah!! Fizeram bem, disse o doente, fechando os olhos e caindo em prostração.

Os quatro homens que trouxeram as andas, retiraram para Olivença, ficando apenas o ex-porteiro dos franciscanos.

Decorreram quinze dias. Ao cabo d'este periodo eram notaveis as melhoras de D. Mendo da Gama. O grande ferimento da cabeça cicatrisava a olhos vistos, graças ao cuidadoso tratamento de Constança.

Bernardo, ao ver aquellas melhoras, saiu um dia do castello em busca de noticias de Barradas e de Sizenando, de quem se não sabia nada.

Pouco tempo depois já Manuelinho se levantava convalescente, e não tardou muito o restabelecimento completo.

Um dia conversava elle com André de Moraes Sarmento, a quem dizia:

-- Sim, mas olhae bem que vos não desculpaes, Sarmento. Portuguez como vós sois, occasionardes os infortunios de tantos em Evora!... Vêde vossa filha, o que por vossa causa soffreu ! Sizenando, Barradas, eu e tantos, que por escaparmos á morte tivemos de fugir e de nos esconder!.. Não falando em Antão Vasques e n'outros do povo, que na forca pagaram o que deviam de amor a Portugal... Deveis ter remorsos, Sarmento, deveis.

-- Mas não faleis mais n'esse passado, instava o ex-corregedor.

-- Não falarei; mas sempre vos digo que um homem, valido como vós ainda sois, devia ha muito estar alistado n'um Terço portuguez.

-- Sabendo quem eu sou, escuzar-me-hão, desconfiados de mim.

-- Mudae de nome e de provincia; na Beira e no Minho combate-se como no Alemtejo.

André de Moraes, envergonhado com aquellas reprehensões e resolvido a tomar as armas contra Castella que tão zeloso serviu, só ponderou:

-- Eu não tenho duvida alguma eu me ir alistar nos Terços da Beira. É meu amigo o Governador de Alfaiates, Braz Garcia de Mascarenhas, e esse me receberá; mas quem ha de aqui ficar com minha filha?

-- Alguém ficará, não temaes por ella; e, por vol-o certificar, logo que chegue Bernardo, esse zeloso e leal amigo ficará em Pena de Alfange em quanto nós a deixamos. Eu volto ao meu posto.

-- Pois quereis voltar? acudiu admirado Sarmento.

-- Volto á lucta em quanto poder luctar. Demasiado santa é a causa da patria para eu por ella não fazer o sacrificio da vida.

Ouviram-se passos: chegava Bernardo com boas novas de Campo-maior, onde os que foram auctoridades do povo de Evora, faziam parte da guarnição, e se mantinham com muito valor. Além das novas dos dous, outra de muita importancia trazia para D. Mendo da Gama. Era uma carta do punho de D. João IV, louvando-lhe os brios, encarecendo-lhe os serviços prestados desde 1637, e mettendo-o de posse absoluta de sua casa de Pena de Alfange. Ao acabar de lêr a carta de el-Rei, Manuelinho teve grande contentamento; mas, como quem já esperava aquelle resultado, e talvez não contasse muito com a vida, disse:

-- Amigos! Fez-me el-Rei justiça inteira. Estou de posse d'esta casa. Cumprindo e respeitando a ultima vontade de meu pae, vou ordenar a edificação de uma outra proximo deste arruinado palacio, onde vivamos todos, se todos vós me quizerdes acompanhar até ao fim da breve vida.

-- Tanto vos devemos quando pobre que não podemos abandonar-vos rico. Serão tambem vossos os nossos cuidados, respondeu Constança.

-- Eu só vos deixarei em morrendo, acudiu Bernardo.

-- E eu se não voltar da guerra.

-- Da guerra?! Pois tambem quereis ir, meu pae?. E deixar-me?

-- Vamos ambos, respondeu D. Mendo da Gama.

-- Oh! Meu Deus! Meu Deus! exclamou afflictissima Constança, correndo em lagrimas e soluços, com o filho nos braços, ao seu quarto de cortinas.

-- Bernardo! disse o senhor d'aquellas terras; a patria chama por mim, que ainda tenho vida. Ficarás aqui com a senhora D. Constança até que chegue Sizenando Rodrigues, que brevemente virá. Apezar da escacez de operarios, que andam na guerra, quero que se construa uma habitação n'estas terras, no lugar que D. Constança escolher. Eu vos mandarei dinheiro e homens para que essa construccão tenha lugar o mais depressa possivel. Tomarás posse em meu nome de todos os meus bens, para o que te deixarei procuração e amplos poderes. Superintenderás na edificação, e ajustarás servidores para esta casa. Que nada falte a esta senhora. De mim saberás amiudadas vezes, pois que a distancia é curta e eu virei mesmo quando o facho da guerra andar menos acceso.

Oito dias depois estava em Pena de Alfange Sizenando Rodrigues. D. Mendo e Sarmento tinham ido para a guerra, e passados quinze dias dava-se principio á construccão do novo palacio, com operarios velhos e achacosos, que já não podiam ser alistados nos Terços, servidos de rapazes ainda debeis para as armas. Com o material do castello arruinado as obras cresciam rapidas por forma que, seis mezes depois da tomada de Valverde, em maio de 1642, a nova habitação estava quasi concluida, sendo então visitada por D. Mendo da Gama, que de Olivença a viera ver.

XXVI

Tomada de Cheles

Ninho feito pega morta.

Rifão Popular.

Está concluido o palacio de D. Mendo da Gama a mui pouca distancia do antigo. Não houve festa alguma na inauguração da residencia; nem a guerra nem os desgostos do fidalgo a consentiam. Uma triste commemoração, com tudo, ordenára o descendente de D. Mendo Alão, tronco d'aquella familia.

Benzida a capella do palacio, onde se via da parte esquerda um tumulo, singelo na fabrica mas elegante mais do que os lavrados pela renascença, D. Mendo ordenára a trasladação para elle dos restos mortaes de sua irmã Leonor.

Certa noite, acompanhado do capellão do palacio, de Sizenando e de Bernardo, o fidalgo, vestindo armas, crepes da tristeza no rosto, subiu áquella parte do antigo castello, que fôra a sala dos retratos, cujo pavimento não desabára totalmente, como o leitor estará certo lembrando a descripção d'elle, quando alli viveu a familia de ciganos.

Á luz de archotes os quatro homens penetraram uma porta que dava para a sala. Não havia do pavimento d'esta mais que uma parte escassa, a que deixava approximar de um aro de madeira onde se viam ainda fragmentos de um retrato em tela. Para a banda do Guadiana era um abysmo espantoso, Tinha desabado a parede de alto a baixo, e havia mesmo algum perigo em se estar alli, porque aquelle pavimento podia aluir de repente, sepultando os quatro no rio. O vento soprava forte de sueste n'aquella noite. Quando a rajada vinha, era de ver como ao clarão incendido dos archotes aquelles homens similhavam fantasmas das ruinas, convertidos pouco depois, ao amortecer das luzes, em vaporosos seres, mal desenhados da pouca luz nas trevas do pequeno recinto!

O fidalgo approximou-se do quadro de madeira e procurou n'elle, como seu pae outr'ora, o botão ou mola que o abria como porta. Achando-o, o fragmentado quadro cedeu patenteando aquella porta que o horrorisára em 1600, e que n'aquelle momento fez recuar espavoridos os homens que o acompanhavam... Lá estavam dentro entalados nas aberturas da parede dous cadaveres de mulher, conservando um d'elles ainda, cousa notável! parte das faces ressequidas e grande porção das louras e compridas tranças... Mendo da Gama caíu de joelhos diante do pouco que restava de sua querida irmã, e os homens que o acompanhavam fizeram o mesmo... Erguendo-se breve, triste como a noite, disse para o capellão:

-- Fazei o que vos pedi.

O padre começou então a deslocar aquelle esqueleto, murmurando: -- Memento mei Deus; quia ventus est vita mea. Nec aspiciat me visus hominis. De profundis clamavi ad te Domine, e a metter os ossos n'um caixão forrado de veludo preto....

Quadro singular! O fidalgo, Sizenando e Bernardo haviam emudecido. Não se ouvia senão o murmurar do levita e o sibilar do vento. Dissereis, ao ver aquelle espectaculo, ser elle congragação diabolica, banquete feiticeiro, tripudio macabro de duendes incubos...

Feita a exhumação, aquella ossada foi de noite mettida no tumulo que se lhe mandára fazer na capella da nova egreja.

Alguns dias depois, habitando o novo palacio aquella familia, a quem se aggeiçoára D. Mendo na desgraça, este saiu para a guerra, que mais e mais se ateiava em toda a fronteira portugueza. D. Mendo, ao despedir-se de seus amigos, dissera ao pequeno Vasco Rodrigues Sarmento, beijando-o carinhoso:

-- Adeus, senhor de Pena de Alfange: e partira a cavallo, caminho de Olivença. Quem a distancia já lhe reparasse no semblante notaria n'elle grande, profunda tristeza... e vel-o-ia lá d'onde Pena de Alfange só deixava já ver no horisonte os cunhaes erguidos do antigo castello e as chaminés da nova habitação, volver para traz um olhar significativo... Era um adeus, sem duvida...

Chegára a Olivença o heroe da nossa historia. Allí encontrára o Monteiro-mór resolvido a tomar Alconchel aos castelhanos.

Entrou logo na empresa D. Mendo da Gama, saindo na direcção d'aquella Villa com quinhentos infantes, governados por D. Diogo de Menezes. Rompendo-lhes o sol antes de se approximarem da Villa retiraram para Valverde.

Não soffrendo aquelles animos resolutos o deixarem passar algum tempo sem tomar um desforço qualquer de castelhanos, amanheceram um dia sobre Cheles, povoação hespanhola para lá do Guadiana. Cheles, a que deu o nome ao castello feudal de Manoel de Vilhena na margem do rio, ia ser acommettida pelos defensores de D. João IV.

Tomados os caminhos por soldados nossos, para vedarem qualquer soccorro dos castelhanos, investiu D. Diogo de Menezes as trincheiras. Na frente e a seu lado ia D. Mendo da Gama.

Precavidos d'esta sortida os castelhanos defenderam-se bravamente no primeiro impeto das forças portuguezas.

Ai! mas alli se viu n'um instante o que é defenderem homens livres o solo da sua patria contra assalariados invasores!

O ataque começára de noite ainda, e, quando a primeira luz da manhã alumeava aquelles sitios, era muito para se ver o espectaculo da lucta! Trombetas e tambores tocando a avançar, detonações successivas das descargas de mosquetaria, susurro immenso de centenares de vozes, umas de alento aos timidos, outras de raiva e de maldição contra os fortes e corajosos constituiam tão indescriptivel estrondo dentro de uma cinta de fumo escuro em volta de toda a povoação, na qual apenas se via o fuzilar das explosões dos tiros, como o choque concentrico de nuvens electricas na atmosphera, ou vasta ceara madura, incendiada em volta, e prestes a ser presa das chammas, como a povoação de Cheles o sería brevemente!

D. Mendo da Gama luctou muito tempo ao lado de D. Diogo de Menezes contra o inimigo, até que uma eventualidade, das muitas que as guerras têem, o afastou n'um teimoso e pertinaz avançar, despedindo golpes de espada para um lado e outro. Seguiam-no os da sua companhia, animados de tanta audacia, quando uma bala, quasi á queima roupa, o feriu no peito. Sentiu D. Mendo o ferimento; e, como na edade em que tinha vinte annos, perde o sangue frio, avança para o castelhano que lhe atirára, com a rapidez que teria o recochete da bala que lhe entrou no peito, e despede-lhe á cabeça tão forte cutilada que o craneo do misero rangeu, golfando sangue e baqueando instantaneo em terra, caindo tambem sobre elle quasi morto o valentissimo D. Mendo da Gama.

Voaram os nossos a erguel-o moribundo; e, em quanto alguns formaram em volta uma muralha de defensa, exhalou elle o ultimo suspiro nos braços dos seus soldados, podendo apenas fazer testamento nuncupativo, em que instituia por seu universal herdeiro a seu afilhado Vasco Rodrigues Sarmento...

Assim acabou aquella atribulada vida, que apenas deslisou serena e tranquilla até aos vinte annos, para ser até ao final momento um oceano tormentoso de desgostos, de magoas e de afllicções... Grande no amor da patria, na saudade dos seus, na vingança e no amor a seus amigos, D. Mendo da Gama, o Manuelinho de Evora o, louco, o dizidor de necedades, morreu defendendo a patria, e legando a uma familia pobre a vasta casa que possuira!

Devia morrer satisfeito como quem viu coroado do melhor exito os seus esforços de toda a vida, já desaggravando os seus na morte de Manoel de Vilhena, já vendo no throno portuguez um descendente legitimo da nobre bastardia do Mestre de Aviz.

Epilogo

Para não faltar a nenhum dever de historiador, romancista, ou como melhor devamos dizer, informarei ao leitor do destino que tiveram as demais personagens d'este livro.

André de Moraes Sarmento morreu um anno depois n'uma entrada que fizera na Hespanha. Deu-lhe o cantor de Viriato honrada sepultura na praça de Alfaiates. Acabou ás mãos dos hespanhoes o que tão affeiçoado lhes fôra, quando defendia a patria, que opprimira em Evora!

João Barradas e Sizenando Rodrigues, Constança Sarmento e seu filho viveram ainda largos annos na abundancia, deixada a guerra, em que o Juiz e o Escrivão do Povo de Evora, como para se representarem, sustentavam uma companhia a expensas da casa de Pena de Alfange, e da qual Barradas saira um dia por fórma ferido, que viveu privado do exercicio do braço esquerdo durante sua vida.

Bernardo, o mau porteiro de frades, o excellente amigo, viveu muitos annos n'aquella casa de Pena de Alfange, sempre lembrado da memoria do seu amigo D. Mendo da Gama, de quem apenas subsistia a ossada n'um tumulo na egreja do novo palacio, mais sumptuoso do que o de sua irmã, com esta inscripção em caracteres gothico-romanos :

AQVI . IAZ . D.MENDO . DA . GAMA . QVE . PASSOU . EM . EVORA . POR . UM . ORATE . DONATARIO . E . SENHOR . DESTA . CASA . E . TERRAS CIRCVNVISINHAS . MORREV . NA . ENTRADA . DE . CHELES . AOS . CASTELHANOS . EM . 1643 AÑOS .

FIM.

NOTAS

Viva o Manuelinho!............................. pag. 8

Quem fosse Manuelinho, o heroe d'esta novella, não se póde affimar de um modo peremptorio. Eu creio com D. Francisco Manoel de Mello que Manuelinho fosse, de facto, um dizidor d'aquelles tempos, idiota ou nescio, como hoje diremos, de quem os da Companhia de Jesus finoriamente se aproveitaram para o dar como auctor e cabeça do motim. Uma certa ordem que presidiu ao governo democratico durante uns seis mezes em Evora basta para isto crermos. Mas, pergunta a musa da tradicção patriotica, não será Manuelinho um louco fingido? Influenciado por ella, como Pizarro e outros, considero o um fidalgo portuguez, como o leitor viu n'este livro. Mas, porque é possivel ter elle sido um official mechanico, aqui porei o que se lê por letra de Manoel Severim de Faria no Livro das Eleições dos Irmãos da Misericordia de Erora, de 1632, a fl. 76. Depois de nomear os nobres irmãos, começa a nomear os mechanicos assim:

-- M.el miz de Euora --

Sería este Manoel Martins de Evora, que em 1637 só apparece assignado -- M.el Martins -- o Manuelinho? É de notar que, apontando-se a todos, ou a quasi todos, os seus officios, a M.el miz de Euora não se indica nenhum.

Era Gaspar Correia........................... pag. 105

Como documento interessante, e até hoje inedito, é digno de leitura o seguinte, comprobativo de minhas asserções :

«No mez de Agosto de 1637 publicando-se em Evora hua ordem de S. M.e em que mandava escrever as fazendas de todos os seus vassallos portuguezes para lhe darem os quintos dos rendimentos por hua vez se perturbou de maneira o povo que ouverão de matar o corregedor, foi a cabeça hu borraceiro por nome Sizenando Glz de maneira que queimarão os papeis e contas do real da agua, e quarta parte do cabeção das sisas, sem quererem pagar cousa nenhua e governou o povo até novembro do mesmo anno em que tudo se tornou a compor e vierão empregar tudo.... o Cabido nisto para que o povo se aquietasse. Os Padres da Comp.ª e em especial o p.e Sebastião do Couto, sem poderem acabar nada com o povo, o Conde de Bastos, D. João de Castro, Governador e viso rey que tinha sido deste reyno, D. Lourenço de Castro, seu f.° assi mesmo o Conde de Basto, D. Francisco de Mello Marquez de Ferreira, D. Rodrigo de Mello, seu irmão, D. Lourenço de Portugal, Conde do Vimioso, o Arcebispo de Evora D. João Coutinho. Ouve nestas revoltas cousas mui notaveis e entre ellas mandou o povo sahir da Cidade ao Provincial de S. Francisco da Provincia do Alemtejo por mandar aos frades que não absolvessem aos amotinados e a frei Manoel de Macedo, a quem a Princesa tinha mandado a Evora &. Seguirão o exemplo de Evora quasi iodas as villas principaes do Alemtejo tirando Elvas e Estremoz, Villa Viçosa e Borba.

Em Portalegre se fizerão grandes desatinos queimarão-se cartorios soltarão-se os presos &. No Algarve foram ainda maiores porque tirando Lagos todos se amotinarão. Pella Beira fizerão o mesmo Abrantes, Covilhã, Fundão e todas as terras por li visinhas. Na cidade do Porto tambem alguns queimarão de noite na Ribeira (?) a casa da Almotaçaria e os livros do real da agua e poserão papeis que avião de queimar a todos que tratassem de pagar os outros tributos que os que deixarão os reis deste reyno até se unir a Castella. O Padre Provincial da Companhia, Pedro da Rocha poz obediencia e pena de excommunhão ipso facto incorrenda a quem ou directe ou indirecte, approvasse o que fazião os povos diante de seculares e prendeo em Evora ao P.e Francisco Frias Lente de Casos e Professo natural da Villa de Estremoz propugnando na Sé o 3.° domingo do Advento, disse algumas cousas pelas quaes foi julgado delinquir nesta materia &.

Foi solto era Março de 1638 por ordem de S. M.e que o deu sem culpas e continuou com a sua cadeira. Soltaram-no antes que se desse conta ao Padre Provincial logo que chegou a ordem de el Rey.

No mesmo mez de Novembro de 1637 escreveu S. M.e uma carta ao Padre Pedro da Rocha, Provincial da Companhia que lhe mandasse a Madrid os Padres Sebastião do Couto, Alvaro Pires, Diogo de Areda, Gaspar Corrêa porque se queria aconselhar com elles o que devia fazer nestas cousas do reyno por suas muitas letras, prudencia e experiencia, porem elles temendo-se não estivessem falsamente malsinados com S. M.e tratão de se escusar da ida, e ainda no dia em que isto escrevo, que são 24 de Dezembro de 1637 não são partidos. Partio o Padre Alvaro Pires em principio de Janeiro de 1638 não se sabe para onde foi, o padre Gaspar Correa por fevereiro chegou a Madrid. Os Padres Diogo da Areda foi sem embargo o segundo. O Padre Couto não foi até 24 de março... foi só a Madrid o Padre Gaspar Corrêa esteve lá hu anno, veio por Junho de 1639 o foi mandado para S. Fins e lá estava em Setembro de 1639.»

Codice C III / 2-15

Manoel de Escobar, segundo declaração

do P.e Antonio Franco que

affirma ser aquelle o auctor.

Eram essas á entrada da rua da Cadeia........ pag. 126

Ao poente da Praça de Evora deveriam estar situadas estas casas; porque d'estas palavras de D. Francisco Manoel -- «Duvida-se se a furia do fogo ou dagente, andou mais prompta em sua ruina. O corregedor alterado, confuso & medroso intentaua escapar a vida, que pode comseguir, ajudado de algus nobres, & religiosos, que logo o soccorrerão, & industriosamente o trespassaram ao Convento do S. Francisco» se colhe que d'aquelle indo deveriam estar situadas, porque, se fora do opposto, estando a Praça coberta de povo revoltoso, sería impossivel ao corregedor atravessal-a, ainda que usasse de todas as industrias, visto que os populares o queriam colher á mão, e teriam o cuidado de espreitar bem quem da casa saísse. Se, porém, não estariam onde conjecturalmente as colloco, seriam sem duvida umas das que, já n'este seculo, foram demolidas para n'aquelle chão se construir a casa do sr. J. M. da Silva Mattos.

As prophecias do Bandarra..................... pag.126

Além d'estas prophecias muitas mais se fizeram e correm impressas. Das muitissimas manuscriptas são curiosas estas:

«começara la uentura «del imperio mas lusido «deste imfante esclarecido «que promete la escritura «Si se apura, 40 vezes 40, «si la cuenta «pelos anales he visto «del nascimento de Christo «iuntos com outros quarenta

Do Hermitão de Monserrate

Cod C V / 1-2 da Bibliotheca,

Pub. Eborense a pag. 199.

«No ueram de 1637 emque Euora se alevantou aos 21 de agosto neste tempo aparecerão nas praias de Cezimbra costa do mar 13, ou 14 seixos piquenos e ouados, com huas letras de releuo, que diziam -- o duque --

Idem et ibid.

«Do Reino apotestade anda encuberta «na propria patria o Rei anda escondido «e por hu modo estranho e nunca ouvido «que se ha de eternizar he couza certa.

Do P.e Rodrigo da Conceição

irmão do bispo d'Elvas.

O mesmo Cod. a pag. 316.

Na torre mouchinha........................... pag. 134

É muito conhecida da tradição eborense esta chamada torre mouchinha, sem, comtudo, ser grande o numero dos que a conheceram. Chamada mouchinha, ou mochinha, talvez por existir ha muitos annos incompleta, decotada, mocha, existiu no quintal das casas em que hoje habita José Maria Penedo, proximo ao Collegio da Companhia. Foi provavelmente uma das torres romanas, que orlavam a cidade, porisso que exactamente por alli passava a muralha construida pelo grande povo. Foi demolida já n'este seculo, e talvez no primeiro quartel d'elle ahi por 1809, 1810, ou 1811.

Penetremos no palco.......................... pag. 170

Além do que existe, e no texto se aponta, ainda existem tambem muitos carceres, que ha pouco visitámos. Em dous d'elles leem-se nas paredes muitas inscripções, escriptas pelos presos com lapis, carvão, tijolos, etc. Tantas são e tão ligadas umas ás outras, que por isso é mui difficil separal-as. São orações a todos os santos e santas, monologos religiosos, etc. Não têem, porém, uma data, um nome, um signal qualquer, que indique por quem foram escriptas. Vê-se, comtudo, que são da primitiva, porque apparecem debaixo de uma grossa camada de cal composta de muitas camadas ordinarias, que facilmente destacam em grandes porções, patenteando aquelle desabafar dos presos, com que pretendiam certamente captar a benevolencia dos inquisidores.

Na Bibliotheca de Evora guardam-se hoje algumas d'aquellas porções de cal, contendo parte das inscripções ás vessas.

Conduzi-o In pace............................ pag. 187

Não é phantasia romantica esta asserção. Quando no Lyceu Nacional de Evora, antiga Universidade creada pelo Cardeal D. Henrique, se fizeram, ha já annos, algumas obras de alvenaria, ao baterem os pedreiros em certa parte da parede de uma das aulas, e ao ouvirem o soturno responder do écho, annunciando a existencia de um vão, praticaram n'ella um buraco, e descobriram de facto uma casa sem portas ou janellas e sem luz alguma.

Á luz artificial, que produziram, encontraram no pavimento duas ou mais ossadas humanas!.. Este vão corresponde ao atrio da Casa Pia, onde estaciona a sentinella que está de guarda ao Governo Civil. Mede mais de oito metros de comprido sobre cinco do largo

Era aquelle vão o In pace da Companhia. Os In pace eram prisões e tumulos a um tempo. Os religiosos culpados eram alli introduzidos por uma estreita abertura, dirigindo-se-lhes a formula: -- Vade in pace. A crueldade monastica não fazia differença da romana. Nos primeiros tempos eram os culpados introduzidos alli com certo ceremonial, que por fim não existia. A proposito d'estas ceremonias se conta que um individuo, estranho á Companhia, e que alli se achava na cella de um seu amigo, ou parente, vira pelo buraco da fechadura passar em certa noite um enterro. Era um collegial, que assassinára a um certo Gamboa, de quem o jesuitas se desfaziam conduzindo-o com as ceremonias funebres ao In pace.

Os tumultos de Evora......................... pag. 205

É tambem digno de leitura este documento inedito, no todo, ácêrca dos tumulos:

«Motim de Euora

«No anno do 637 mandando El Rey escrever as fazendas de todo o homem d'este Reyno, querendo-se executar nacidade de Euora se leuantou o povo, e por meyo dos rapazes, e mais gente popular se fez resistencia ao executor do tributo, que era o C.or da cidade, entrarão nas cazas dos vereadores, tomarão os L.os da camera, fizerão officiais e na força do motim queimarão as cazas onde moraua o corregedor e vierão ao chão e salgarão-nas, que erão de Miguel de Vas.cos do Barboza, e Secret.ro de Estado. E entre outras coisas aconteceu, andar hu rapaz com hu asno, e hu ceirão cheyo de calhãos apregoando -- quem compra os calhaus.»

Cod. C V / 1-6 a folhas 60, da

Biblioth. Publ. d'Evora.

Um auto de fé da Inquisição de Evora......... pag. 227

Em 2 de Maio de 1638, sendo inquisidor geral D. Francisco de Castro, Bispo da Guarda, e prégando o P.e Manoel Tinoco, da Companhia de Jesus, houve um auto de fé em Evora.

«Sahirão neste Auto III Pessoas

«em que entrão as seguintes

Relaxadas em carne

«1 Francisco Pestana 15.º de x. v.

Sapatr.º n.al de Faro.

«2 Catherina Ferreira m.er de

Diogo Coua Tozador n.al de Arrayvolos.»

Cod. 106 / 1-38 da Bibliotheca

Publica de Evora.

Esta vergonhosa procissão desce pela rua da Sellaria ....................................... pag. 232

O rigor historico pedia que fizesso entrar na Sé o Tribunal do Santo officio, onde assistiria á missa conjunctamente com os condemnados, por quanto n'um Regulamento d'aquelle Tribunal de 1613 se lê, em cota marginal ad usum, o seguinte:

«... acabado de tanger a matinas vão os Inq.res deputados e promotor para a sé, e entrão pela porta principal, acompanhados dos offi.aes e entrão no choro onde fazem oração, e feita Cortezia ao Cabido q esta da banda Esquerda, se assenta o tribunal do S.to offi.º da banda direita. O Inq.dor mais antigo manda recado ao Presidente do Cabido p.ª se começar a missa e acabada lhe manda a lista. E por hum criado ao Marquez, Condes &»

«E parte o proprio p.ª Lisboa com Listas p.ª o Ser. Inq.dor Geral e Vice Rey»

Cod. C VI / 1-10 da Biblioth.de Evora,

pag. 21 e seguintes.

Sobe ao pulpito o Jesuita padre Manoel Tinoco, pag. 232

Os trechos que apresentei ao leitor do sermão do auto de fé de 2 de Maio de 1638 não são do Jesuita P.e Manoel Tinoco, porque não corre impresso, que eu saiba, nem o conheço manuscripto, mas do P. M. Fr, Antonio Coutinho, Commissario do Santo officio e Prior de S. Domingos de Evora, prégado n'esta cidade em 14 de Junho de 1637, e impresso em Lisboa por Jorge Rodrigues em 1638. Crendo eu que a inspiração d'aquelles evangelisadores fosse a mesma, puz nos labios de um o que outro dissera.

Era D. Miguel de Salamanca................... pag. 239

Em abono da verdade historica convém dizer aqui que a morte d'aquelle personagem nos carceres do Santo officio não passa de uma ficção, necessaria ao maravilhoso romantico d'este livro.

A cisterna que temos á portaria.............. pag. 163

Esta cisterna appareceu ha dous annos quando se metia um arco ogival no alpendre da egreja. Ficava por baixo do pavimento do mesmo alpendre. Foi entulhada.

A imagem do Senhor Jesus dos queimados........ pag 236

Ainda existe na egreja do collegio do Espirito Santo, dos jesuitas, como na Bibliotheca d'Evora o pendão do Santo officio e todos os paramentos com que se adornava o altar no Rocio em dia de auto de fé.

...por ser abobadilha........................ pag. 249

Não são conhecidas, ou quando menos, usadas para o norte do reino as abobadilhas. Em Coimbra e terras circumvisinhas nunca as vi construir. São ellas, porém, tão faceis de architectar, tão baratas e tão contra incendios que me não soffre o animo deixar de as aconselhar, e dizer mesmo como são feitas.

Tem os pedreiros de Evora tal uso em construir abobadilhas que, por maior que seja uma casa, a cobrem já sem a previa construção dos simples. É curioso ver este trabalho! -- Diga um mestre da arte o como se hão de construir:

«Abobadilhas, que se feichão em Igrejas, dormitorios, vãos de casas do tijolo, e gesso, quer dobradas, quer singellas, simprando o que baste, se pode vir fechando com tijolo rebatido; porque necessita ser todo inteiro, e bem cozido: andará o gesso em um alguidar, como fica dito, brando, e o tijolo esbarbado, e se vay ligeiramente engessando as juntas, ou baicho, e se vay fazendo como quem ladrilha, sobre o simples, e bem unido...» (Valerio Martins d'Oliveira -- Advertencia &. pag. 80).

Esta lingoagem deve ser entendida dos mestres do officio. Direi, comtudo, que não usam elles sómente o gesso, mas uma mistura de cal e gesso, tanto mais forte quanto mais gesso lhe lançam. Entram n'uma casa que tem de ser abobadilhada, em qualquer altura das paredes, e traçam n'ellas a lapis a fórma do arco. Isto feito, cavam nas paredes um sulco em que hão de assentar as primeiras fiadas de tijolos, que são postos a cutello, e successivamente vão pondo sobre a primeira as demais, seguindo o traço a lapis e pelo processo indicado nas Advertencias citadas: pondo com a colher nos topos do tijolo que ha de adherir, uma sufficiente porção de cal e gesso, e dando-lhe com o martello uma leve pancada para o ajustar aos que já estão collocados. A sesão faz-se instantanea, e o tijolo fica firme sem carecer de simples que por baixo o ampare. E assim se fecham grandes casas. Estas abobadilhas não servem só para singelos e leves tectos: por cima d'ellas se formam pavimentos de novos andares, enchendo-se, como eu presenceei na demolição de parte do convento de S. Francisco, os vãos sobre a abobadilha, até ser nivelada a parte superior, de cantaros de barro, panellas, alguidares contrapostos, etc., por fórma que o peso sobre a abobadilha seja diminuto. Por maior seguranra e forlaleza costumam reforçal-as, construindo-as com duas camadas de tijolo. Descrevo miudamente este systema porque é barato, facil, rapido, e, sobre tudo, á prova do incendios. Nas casas do Alemtejo e especialmente nas de Evora não póde haver incendios, que as destruam. Bom fôra que o praticassem em todo o reino. Como cousa bastante curiosa aqui transcreverei a Dedicatoria d'aquelle livro a S. José e as Endeixas ao mesmo Santo:

DECIMA

Te, Joseph, volo laudare, Nam laudem tacere nolo; Sede praeclarae laudis volo Te corona coronare; Hune Librum dedicare Tibi cupio, quo tibi plaudo, Nam exaudivi (et hoc claudo) Esse te laudem Justorum: Atqui tu es laus Sanctorum; Ergo laude laudem laudo.

ENDEIXAS

Senhor S. Joseph, Este livro he Do principio ao fim Todo vosso, assim Como certifica Quem vol-o dedica: Este he no emisferio O que não contradês Cousa alguma, que queira O vosso Valerio O vosso Martins, O vosso Oliveira.

Histórico.