A Noite Nunca se Importa
Por Rui Catalão

Sub-ascensão, semi-queda e o equilíbrio trapezista da música de dança em Portugal ou ainda a história possível de um movimento à procura da sua história.

A história da música de dança em Portugal nem dez anos ainda tem. Criou-se no entanto um circuito de discotecas, bares, lojas de discos, DJ e produtores, agências de promoção e editoras. O crescimento tem sido acidental e a evolução imprevisível. O que inicialmente é uma referência ou novidade é esquecido rapidamente e por vezes nem chega a instalar-se. O período tristonho que actualmente se vive, depois da depressão que fez abanar o seu establishment, deve-se em muito ao facto de, apesar da inegável especificidade deste movimento, a música de dança nacional ser ainda subsidiária de duas grandes correntes que a inspiraram: a americana, pelo lado da produção musical, e a britânica, se tivermos em linha de conta não apenas os seus artistas mas também a sua dinâmica de espectáculos e de veiculação iconográfica. Para se ter em linha de conta esta dicotomia, basta atentar na pouco significativa penetração da música de dança alemã em Portugal, a maior produtora desta área musical na Europa. A linha alemã, apesar de ter uma forte componente popular, mais fácil de ser entendida por um público menos exigente e menos conhecedor, nunca singrou, com a ténue excepção de DJ como Sven Väth, que de qualquer maneira nunca conquistaram o protagonismo que lhes é reconhecido noutros países.

Outra grande dificuldade encontrada, nomeadamente por aqueles que se iniciam neste meio, é a de penetrarem num circuito densamente codificado, feito de relações interpessoais e de uma espécie de onda humana que se desenvolve a partir de cúmplicidades, de influências da noite, daquilo a que os ingleses chamam hype, ao ponto dos media pouco influírem nessa dinâmica. Enquanto jornalista, pude assistir a monumentais flops, apesar dos meios excepcionais que muitas vezes envolviam. Pelo contrário, soube muitas vezes à última hora (o que quer dizer, quando as festas já se estavam a realizar) de eventos onde se concentravam largas dezenas ou até milhares de pessoas. Como explicar esta discrepância? A resposta é simples: há quem conheça os meios e que os domina. A actual (ou recente) cultura underground tem os seus próprios meios, o seu circuito de contactos mais ou menos anónimos. É uma teia complexa, que envolve pessoas directa ou indirectamente ligadas à música, que escolhe a sua exclusão, e que integra as pessoas/grupos/tribos que escolhe. Esta ética da marginalidade noctívaga foi a responsável pelo crescimento da música de dança em Portugal e foi também ela que criou um impasse, quando o seu crescimento permitiu dar um passo em direcção a uma visibilidade (nomeadamente dos media), para a qual não estava preparada. O movimento da música de dança portuguesa cresceu com uma velocidade que dava indícios de uma mudança de paradigmas nos gostos musicais de um público alargado. No entanto, tal como o "boom" do rock português nos anos 80, as expectativas estavam longe de corresponder à realidade do que se tinha criado e podia desenvolver-se. Não é só a habituação do público português por que ainda tem que se esperar, é o próprio meio da música de dança que tem de concretizar a sua formação e desencantar novas formas de criatividade e sedução do público e novos valores, agora que o efeito de choque da novidade se diluiu.

Duas histórias distintas servem para ilustrar este impasse de crescimento: Na Primavera de 1997, um grupo de DJ portugueses e ingleses reuniu-se e criou A Companhia da Música, instalando-se no espaço antes ocupado pelo Climacz (uma discoteca na Estefânia onde tinha despontado três anos antes o fenómeno "after-hours" em Lisboa). A novidade que traziam era explosiva: o hardstep jungle, um novo estilo de música, rápido, agressivo e muito divertido, que aliava à complexidade e riqueza formal do drum'n'bass uma vitalidade directa que facilmente podia ser adoptada pelos ravers e noctívagos saturados com a tecno ou a house. Paul Bellamy e Zebadee eram alguns dos nomes desta equipa, que não só revelava uma grande qualidade na escolha musical como um grande apuro técnico. Para além dos after-hours, propunham-se a abrir durante as tardes, em que os miúdos podiam mais facilmente frequentar, convivendo ao mesmo tempo com uma inédita paisagem musical. As festas organizadas resultaram todas num fiasco, havia menos pessoas entre o público do que entre a equipa da casa. Numa das últimas madrugadas, encontrei um grupo de pessoas que costumava frequentar o DNA, um pequeno clube do Cacém apenas frequentado por aqueles que não distinguiam as novas formas musicais de uma certa forma de estar na noite diferente dos circuitos habituais. Eles não se integravam no que havia, criavam a sua própria atmosfera de cumplicidades, mas eram poucos e, passadas algumas semanas, A Companhia de Música fechava (mais de um ano depois, o próprio DNA fechava, dispersando-se esse grupo por alguns espaços do Bairro Alto). Ainda no mesmo ano, mas já no Verão, formava-se a Cool Train Crew, que no Johnny Guitar (rebaptizado Ciclone para o efeito) veio desencadear num jovem e diversificado público o interesse pelo jungle e pelo drum'n'bass. O calor de fornalha das sessões no Ciclone, com as pessoas quase por cima umas das outras, e os menos felizes à porta na esperança de poderem entrar, marcava um brutal contraste com o desalento de A Companhia de Música;

Nesse mesmo ano, depois de ir a uma festa de "Goa-trance" nos arredores de Palmela, dirigi-me a uma festa que se organizava em Brejos de Azeitão. Apesar de ser promovida por uma nova produtora de espectáculos, a VIP Club, a produção da festa era monumentalista, tinha sido escolhido o pavilhão de exposições AERSET, contratados os melhores e mais famosos DJ do X-Club (nessa altura o maior fenómenos de popularidade de música de dança em Portugal), havia ambulâncias e uma equipa enorme de seguranças com um sistema de intercomunicadores que lhes permitia comunicar uns com os outros. O investimento que se tinha feito apontava para milhares de pessoas mas apenas algumas centenas por lá tinham passado. Já era de manhã quando, depois de muito correr ao longo da noite, procurando resolver problemas que seriam infinitamente maiores se tivesse a massa humana por que esperava, me sentei à entrada do recinto com um dos organizadores da festa, Nuno Braz. Era um jovem empresário ainda mal refeito do pesadelo que estava a viver. Esperava chamar o público que habitualmente frequentava as festas do X-Club, tinha investido milhares e agora mal podia conceber o pesadelo em que se enfiara voluntariamente. Como prémio de consolação restavam-lhe os pés a sangrar, uma vez que nem tinha escolhido o calçado mais conveniente. Trocámos números de telefone mas nunca mais soube dele ou da sua produtora.

Muitos outros exemplos poderiam ser dados para mostrar até que ponto é lento o processo de solidificação de um projecto. E mesmo quando se instala, é difícil manter a sua credibilidade e sobreviver às inconstâncias de um público que se alimenta de um entusiasmo fugaz, depressa se aborrecendo. Parafraseando um grupo muito dado à noite mas pouquíssimo interessado pela música de dança electrónica, "a noite nunca se importa", nem pelas suas vítimas nem pelos seus ídolos de prazo limitado.

Com António Cunha à sua frente, a Kaos iniciou em finais de 1992 a actividade de música de dança em Portugal, concentrando-se no centro-norte do país, realizando eventos e iniciando a edição de discos. As festas em castelos de província tornaram-se de tal maneira eufóricas que até convenceram a susceptível imprensa britânica, a viver dos destroços da cena balear (nas ilhas espanholas) e na ressaca das raves, transformadas em lúgubres celebrações do submundo. O nova-iorquino Rob Di Stefano, criador da influente editora Tribal (hoje Twisted) e que desde o início colaborou com a equipa da Kaos, não escondeu o seu entusiasmo, tendo considerado o país um "paraíso" para a cena de música de dança. O que levou a companhia de António Cunha e de Tó Pereira (também conhecido por DJ Vibe) a organizar em 95 uma espécie de "Magical Mistery Tour" dos anos 90, baptizada significativamente de "A Paradise Called Portugal". Tratava-se de uma excursão de uma semana em que todos os dias se realizava uma festa num local diferente. A "pureza" que os estrangeiros encontravam no nascente movimento permitiu à Kaos trazer alguns dos melhores DJ internacionais, que ficavam encantados e "publicitavam" as maravilhas do que em Portugal se estava a criar. A impulsionar a força do movimento, os Underground Sound of Lisbon lançaram um tema, "So get up", que se tornou um sucesso de vendas internacional. Com letra do californiano Darin Pappas (que depois se assumiu como um dos melhores letristas de hip-hop através dos Ithaka), "So get up" celebrava a vida à beira dos dias do apocalipse e era uma mensagem para todos os jovens aprenderem a afirmar-se, mesmo que o dia de amanhã se apresentasse nebuloso. Este discurso foi interiorizado com o tempo e a música de dança mais as suas festas tornou-se uma nova fonte de esperança e de júbilo para uma geração sem causas ou grandes expectativas. Os USL dispersaram-se depois: Rui Silva afirmando-se como produtor da Kaos e remisturador de faixas de pop; Tó Pereira, que já tinha participado nos LX-90 (transição da pop para a dance-music inspirada no fenómeno Madchester, quando os grupos de rock do norte da Inglaterra se entusiasmaram pelo movimento acid-house) afirmou-se depois como o primeiro DJ português no circuito internacional de house.

Por essa altura, outro DJ de renome e que fez parte do grupo inicial da Kaos, João Daniel, criou a Question of Time para lançar discos e organizar festas, motivado pelo sucesso "underground" das sessões de "after-hours" que vinha oferecendo acompanhado de uma equipa de jovens DJ no Climacz, uma discoteca de Lisboa que ficava numa subcave no Largo D. Estefânia. Outra personagem importante foi a sua mulher, a britânica Paula Fox, cujo conhecimento da cena no seu país ajudou a dar os primeiros passos de "dance music" em Portugal. João Daniel viria depois a implementar no Café Central uma vivência menos pesada da música de dança, embora insistindo no tecno-trance. De resto, João Daniel foi um dos primeiros cultores da música de dança como hoje a conhecemos, através do Pravda, uma discoteca que ficava na Caparica. E lançou ainda duas faixas relevantes, "The Way" e "... To Eden", revelando em cada uma destas, dois produtores de talento, respectivamente A. Paul e Model 9000 (Nuno Lopes, que também lançou o duplo-maxi "Perceptions", estando à frente, três anos depois, do projecto "Noites Longas" da Sony, em que eram assinadas remisturas de dança da música popular portuguesa).

Luís Leite, Mário Roque, Tó Ricciardi e Rui Vargas são nomes igualmente fundamentais e que ajudaram à eclosão da música de dança, fosse em discotecas de Lisboa (Alcântara, Kremlin, Frágil) fosse em clubes da linha do Estoril. Estes DJ tinham um substrato especial, fizeram a transição de géneros como o funk ou a pop electrónica para a música de dança electrónica com a uma vertente abstracta. Os DJ pioneiros foram também aqueles que mais facilmente integraram novos paradigmas musicais, uma vez que fizeram sempre do seu trabalho uma relação entre o reconhecimento do público e o perfume da novidade. O DJ "artista", com um estilo definido, em Portugal foi uma experiência funesta.

Em 96, o X-Club, ajudado por jovens promessas e alguns dos mais experientes DJ portugueses (Mário Roque depois baptizado X-Man e Luís XL Garcia) explodiu com grandes produções de tecno. Na Figueira da Foz, e com a presença do mais popular DJ internacional, Carl Cox, estiveram nesse ano presentes 14 mil pessoas. O sucesso crescente criou ambições desmesuradas e no Verão do ano seguinte foi organizada no Algarve um festival, "Neptunus", onde participaram quatro dezenas de artistas, muitos deles DJ de top internacional. A falta de experiência descambou em desastre. Inéditas situações de violência, desorganização e falta de condições logísticas resultaram num pesadelo, que desacreditou a produtora. Sucedeu-se depois a experiência da editora X-Club, com a chancela da multinacional MCA (também a Kaos entretanto se tinha aliado à Vidisco num acordo de distribuição de CD mais generalistas).

Surgiram as compilações e qualquer dos DJ de renome portugueses tem pelo menos uma. A proliferação de compilações, de que resultaram alguns grandes sucessos de vendas, veio revelar-se um presente envenenado. Para não perderem este comboio, as pequenas editoras de música de dança passaram a lançar os seus temas em edições generalistas sem antes passarem pela edição em vinil. Como ainda não tinha sido criado um circuito próprio de dança, desvalorizou-se a importância do máxi enquanto ferramenta do DJ a favor das edições em CD de vários artistas. O resultado é que apesar dos muitos produtores que viram os seus temas lançados, não deram continuidade ao seu trabalho e nunca chegaram a ter qualquer reconhecimento. Sem a protecção de um movimento solidificado, deu-se um passo no escuro. Não só ficou por conquistar um potencial público nacional, como se abriu mão do mercado internacional.

Zé Mig.L, um produtor que se estreou exactamente em editoras do Benelux (Minimalistix, DJax Up Beats) foi um dos poucos a romper fronteiras, apesar de o ter feito no circuito restrito da tecno minimal. Diversos artistas da Kaos seguiram o veio da Tribal/Twisted, mas já sem o impacto dos USL, que só o ano passado regressaram com um original, "Are You Looking For Me", que de qualquer maneira reanimou o interesse dos media anglo-saxónicos.
A lição dos USL não ficou na memória dos artistas portugueses e os próprios USL parecem tê-la aproveitado parcimoniosamente. A música na maioria das festas tornou-se brutal, perdendo-se muito desse lado risonho e descontraído que assistiu ao nascimento do movimento. Com o fim das grandes festas, criaram-se acontecimentos mais pequenos, em clubes e locais à beira da praia. A Kaos, que deu depois origem à produtora de espectáculos Friends, é um exemplo disso, uma vez que depois de várias experiências acabou por se fixar no Rock's, em Gaia. Em ambientes mais urbanos, diversificou-se também a apetência por novas correntes estéticas (que em termos de edições só foram exploradas pela Khami Khazz, uma etiqueta da NorteSul; pela Lupeca, de Pedro Passos; ou pela Symbiose, onde se destaca Alex FX). À eclosão dessas tendências (jungle, big beat, trip-hop, house de fusão, etc), acrescente-se ainda o progressivo sucesso do "Goa-trance", com um estilo de música menos agressivo, cujo psicadelismo resulta em algum revisionismo "hippie". O "Boom Festival" foi nos últimos dois anos a celebração máxima deste culto musical.

Outra novidade é a integração dos ritmos ou modos de produção da música de dança em projectos enraizados na pop (Três Tristes Tigres), no acid-jazz/hip-hop (Cool Hipnoise) ou até na música tradicional (Megafone, de João Aguardela). Mais populistas, os fenómenos de boys-band e girls-band têm vindo a criar um público muito jovem que no entanto se interessa mais pelo formato tradicional da canção. Os Lunáticos foram nesse aspecto pioneiros. Nesse grupo, pontificava Alex Santos, um dos pioneiros da Kaos, editora que o ano passado fez lançar ainda o álbum de house e jungle de outro jovem, Paul Jay's.

A música de dança tem uma apetência universalista que nem mesmo o jazz (enraizado na música negra norte-americana) ou a pop (oriunda das culturas juvenis anglo-saxónicas) conseguiram generalizar. A tecno, a house, o jungle ou o big-beat são formas musicais alheias à nacionalidade e, tal como em outros países sem expressão fora das suas fronteiras, esperava-se que a música de dança portuguesa se disseminasse, mas isso nem veio a acontecer em Espanha, com a excepção de edições pontuais. O esforço de internacionalização - que implica, mais do que sucessos ocasionais, a criação de um circuito com promotores, editoras e distribuidoras - é ainda a prova de força por cumprir de um movimento que atravessa um impasse de crescimento. Alguns dos melhores DJ e produtores portugueses criaram uma credibilidade e profissionalismo que no entanto ainda não criou uma diferença marcante. É essa diferença que definirá o futuro internacional ou meramente localizado da música de dança. Entretanto, a costela africana do mundo lusófono continua por ser aproveitada...

Espaço 1999