Sub-ascensão, semi-queda e o equilíbrio trapezista da música de dança em Portugal ou ainda a história possível de um movimento à procura da sua história.
A história da música de dança em Portugal nem dez anos ainda tem. Criou-se no entanto um circuito de discotecas, bares, lojas de discos, DJ e produtores, agências de promoção e editoras. O crescimento tem sido acidental e a evolução imprevisível. O que inicialmente é uma referência ou novidade é esquecido rapidamente e por vezes nem chega a instalar-se. O período tristonho que actualmente se vive, depois da depressão que fez abanar o seu establishment, deve-se em muito ao facto de, apesar da inegável especificidade deste movimento, a música de dança nacional ser ainda subsidiária de duas grandes correntes que a inspiraram: a americana, pelo lado da produção musical, e a britânica, se tivermos em linha de conta não apenas os seus artistas mas também a sua dinâmica de espectáculos e de veiculação iconográfica. Para se ter em linha de conta esta dicotomia, basta atentar na pouco significativa penetração da música de dança alemã em Portugal, a maior produtora desta área musical na Europa. A linha alemã, apesar de ter uma forte componente popular, mais fácil de ser entendida por um público menos exigente e menos conhecedor, nunca singrou, com a ténue excepção de DJ como Sven Väth, que de qualquer maneira nunca conquistaram o protagonismo que lhes é reconhecido noutros países.
Outra grande dificuldade encontrada, nomeadamente por aqueles que se iniciam neste meio, é a de penetrarem num circuito densamente codificado, feito de relações interpessoais e de uma espécie de onda humana que se desenvolve a partir de cúmplicidades, de influências da noite, daquilo a que os ingleses chamam hype, ao ponto dos media pouco influírem nessa dinâmica. Enquanto jornalista, pude assistir a monumentais flops, apesar dos meios excepcionais que muitas vezes envolviam. Pelo contrário, soube muitas vezes à última hora (o que quer dizer, quando as festas já se estavam a realizar) de eventos onde se concentravam largas dezenas ou até milhares de pessoas. Como explicar esta discrepância? A resposta é simples: há quem conheça os meios e que os domina. A actual (ou recente) cultura underground tem os seus próprios meios, o seu circuito de contactos mais ou menos anónimos. É uma teia complexa, que envolve pessoas directa ou indirectamente ligadas à música, que escolhe a sua exclusão, e que integra as pessoas/grupos/tribos que escolhe. Esta ética da marginalidade noctívaga foi a responsável pelo crescimento da música de dança em Portugal e foi também ela que criou um impasse, quando o seu crescimento permitiu dar um passo em direcção a uma visibilidade (nomeadamente dos media), para a qual não estava preparada. O movimento da música de dança portuguesa cresceu com uma velocidade que dava indícios de uma mudança de paradigmas nos gostos musicais de um público alargado. No entanto, tal como o "boom" do rock português nos anos 80, as expectativas estavam longe de corresponder à realidade do que se tinha criado e podia desenvolver-se. Não é só a habituação do público português por que ainda tem que se esperar, é o próprio meio da música de dança que tem de concretizar a sua formação e desencantar novas formas de criatividade e sedução do público e novos valores, agora que o efeito de choque da novidade se diluiu.
Duas
histórias distintas servem para ilustrar este impasse de crescimento: Na
Primavera de 1997, um grupo de DJ portugueses e ingleses reuniu-se e criou A Companhia
da Música, instalando-se no espaço antes ocupado pelo Climacz (uma
discoteca na Estefânia onde tinha despontado três anos antes o fenómeno
"after-hours" em Lisboa). A novidade que traziam era explosiva: o hardstep
jungle, um novo estilo de música, rápido, agressivo e muito divertido,
que aliava à complexidade e riqueza formal do drum'n'bass uma vitalidade
directa que facilmente podia ser adoptada pelos ravers e noctívagos saturados
com a tecno ou a house. Paul Bellamy e Zebadee eram alguns dos nomes desta equipa,
que não só revelava uma grande qualidade na escolha musical como
um grande apuro técnico. Para além dos after-hours, propunham-se
a abrir durante as tardes, em que os miúdos podiam mais facilmente frequentar,
convivendo ao mesmo tempo com uma inédita paisagem musical. As festas organizadas
resultaram todas num fiasco, havia menos pessoas entre o público do que
entre a equipa da casa. Numa das últimas madrugadas, encontrei um grupo
de pessoas que costumava frequentar o DNA, um pequeno clube do Cacém apenas
frequentado por aqueles que não distinguiam as novas formas musicais de
uma certa forma de estar na noite diferente dos circuitos habituais. Eles não
se integravam no que havia, criavam a sua própria atmosfera de cumplicidades,
mas eram poucos e, passadas algumas semanas, A Companhia de Música fechava
(mais de um ano depois, o próprio DNA fechava, dispersando-se esse grupo
por alguns espaços do Bairro Alto). Ainda no mesmo ano, mas já no
Verão, formava-se a Cool Train Crew, que no Johnny Guitar (rebaptizado
Ciclone para o efeito) veio desencadear num jovem e diversificado público
o interesse pelo jungle e pelo drum'n'bass. O calor de fornalha das sessões
no Ciclone, com as pessoas quase por cima umas das outras, e os menos felizes
à porta na esperança de poderem entrar, marcava um brutal contraste
com o desalento de A Companhia de Música;
Nesse mesmo ano, depois
de ir a uma festa de "Goa-trance" nos arredores de Palmela, dirigi-me
a uma festa que se organizava em Brejos de Azeitão. Apesar de ser promovida
por uma nova produtora de espectáculos, a VIP Club, a produção
da festa era monumentalista, tinha sido escolhido o pavilhão de exposições
AERSET, contratados os melhores e mais famosos DJ do X-Club (nessa altura o maior
fenómenos de popularidade de música de dança em Portugal),
havia ambulâncias e uma equipa enorme de seguranças com um sistema
de intercomunicadores que lhes permitia comunicar uns com os outros. O investimento
que se tinha feito apontava para milhares de pessoas mas apenas algumas centenas
por lá tinham passado. Já era de manhã quando, depois de
muito correr ao longo da noite, procurando resolver problemas que seriam infinitamente
maiores se tivesse a massa humana por que esperava, me sentei à entrada
do recinto com um dos organizadores da festa, Nuno Braz. Era um jovem empresário
ainda mal refeito do pesadelo que estava a viver. Esperava chamar o público
que habitualmente frequentava as festas do X-Club, tinha investido milhares e
agora mal podia conceber o pesadelo em que se enfiara voluntariamente. Como prémio
de consolação restavam-lhe os pés a sangrar, uma vez que
nem tinha escolhido o calçado mais conveniente. Trocámos números
de telefone mas nunca mais soube dele ou da sua produtora.
Muitos outros exemplos poderiam ser dados para mostrar até que ponto é lento o processo de solidificação de um projecto. E mesmo quando se instala, é difícil manter a sua credibilidade e sobreviver às inconstâncias de um público que se alimenta de um entusiasmo fugaz, depressa se aborrecendo. Parafraseando um grupo muito dado à noite mas pouquíssimo interessado pela música de dança electrónica, "a noite nunca se importa", nem pelas suas vítimas nem pelos seus ídolos de prazo limitado.
Com
António Cunha à sua frente, a Kaos iniciou em finais de 1992 a actividade
de música de dança em Portugal, concentrando-se no centro-norte
do país, realizando eventos e iniciando a edição de discos.
As festas em castelos de província tornaram-se de tal maneira eufóricas
que até convenceram a susceptível imprensa britânica, a viver
dos destroços da cena balear (nas ilhas espanholas) e na ressaca das raves,
transformadas em lúgubres celebrações do submundo. O nova-iorquino
Rob Di Stefano, criador da influente editora Tribal (hoje Twisted) e que desde
o início colaborou com a equipa da Kaos, não escondeu o seu entusiasmo,
tendo considerado o país um "paraíso" para a cena de música
de dança. O que levou a companhia de António Cunha e de Tó
Pereira (também conhecido por DJ Vibe) a organizar em 95 uma espécie
de "Magical Mistery Tour" dos anos 90, baptizada significativamente
de "A Paradise Called Portugal". Tratava-se de uma excursão de
uma semana em que todos os dias se realizava uma festa num local diferente. A
"pureza" que os estrangeiros encontravam no nascente movimento permitiu
à Kaos trazer alguns dos melhores DJ internacionais, que ficavam encantados
e "publicitavam" as maravilhas do que em Portugal se estava a criar.
A impulsionar a força do movimento, os Underground Sound of Lisbon lançaram
um tema, "So get up", que se tornou um sucesso de vendas internacional.
Com letra do californiano Darin Pappas (que depois se assumiu como um dos melhores
letristas de hip-hop através dos Ithaka), "So get up" celebrava
a vida à beira dos dias do apocalipse e era uma mensagem para todos os
jovens aprenderem a afirmar-se, mesmo que o dia de amanhã se apresentasse
nebuloso. Este discurso foi interiorizado com o tempo e a música de dança
mais as suas festas tornou-se uma nova fonte de esperança e de júbilo
para uma geração sem causas ou grandes expectativas. Os USL dispersaram-se
depois: Rui Silva afirmando-se como produtor da Kaos e remisturador de faixas
de pop; Tó Pereira, que já tinha participado nos LX-90 (transição
da pop para a dance-music inspirada no fenómeno Madchester, quando os grupos
de rock do norte da Inglaterra se entusiasmaram pelo movimento acid-house) afirmou-se
depois como o primeiro DJ português no circuito internacional de house.
Por
essa altura, outro DJ de renome e que fez parte do grupo inicial da Kaos, João
Daniel, criou a Question of Time para lançar discos e organizar festas,
motivado pelo sucesso "underground" das sessões de "after-hours"
que vinha oferecendo acompanhado de uma equipa de jovens DJ no Climacz, uma discoteca
de Lisboa que ficava numa subcave no Largo D. Estefânia. Outra personagem
importante foi a sua mulher, a britânica Paula Fox, cujo conhecimento da
cena no seu país ajudou a dar os primeiros passos de "dance music"
em Portugal. João Daniel viria depois a implementar no Café Central
uma vivência menos pesada da música de dança, embora insistindo
no tecno-trance. De resto, João Daniel foi um dos primeiros cultores da
música de dança como hoje a conhecemos, através do Pravda,
uma discoteca que ficava na Caparica. E lançou ainda duas faixas relevantes,
"The Way" e "... To Eden", revelando em cada uma destas, dois
produtores de talento, respectivamente A. Paul e Model 9000 (Nuno Lopes, que também
lançou o duplo-maxi "Perceptions", estando à frente, três
anos depois, do projecto "Noites Longas" da Sony, em que eram assinadas
remisturas de dança da música popular portuguesa).
Luís
Leite, Mário Roque, Tó Ricciardi e Rui Vargas são nomes igualmente
fundamentais e que ajudaram à eclosão da música de dança,
fosse em discotecas de Lisboa (Alcântara, Kremlin, Frágil) fosse
em clubes da linha do Estoril. Estes DJ tinham um substrato especial, fizeram
a transição de géneros como o funk ou a pop electrónica
para a música de dança electrónica com a uma vertente abstracta.
Os DJ pioneiros foram também aqueles que mais facilmente integraram novos
paradigmas musicais, uma vez que fizeram sempre do seu trabalho uma relação
entre o reconhecimento do público e o perfume da novidade. O DJ "artista",
com um estilo definido, em Portugal foi uma experiência funesta.
Em
96, o X-Club, ajudado por jovens promessas e alguns dos mais experientes DJ portugueses
(Mário Roque depois baptizado X-Man e Luís XL Garcia) explodiu com
grandes produções de tecno. Na Figueira da Foz, e com a presença
do mais popular DJ internacional, Carl Cox, estiveram nesse ano presentes 14 mil
pessoas. O sucesso crescente criou ambições desmesuradas e no Verão
do ano seguinte foi organizada no Algarve um festival, "Neptunus", onde
participaram quatro dezenas de artistas, muitos deles DJ de top internacional.
A falta de experiência descambou em desastre. Inéditas situações
de violência, desorganização e falta de condições
logísticas resultaram num pesadelo, que desacreditou a produtora. Sucedeu-se
depois a experiência da editora X-Club, com a chancela da multinacional
MCA (também a Kaos entretanto se tinha aliado à Vidisco num acordo
de distribuição de CD mais generalistas).
Surgiram as compilações
e qualquer dos DJ de renome portugueses tem pelo menos uma. A proliferação
de compilações, de que resultaram alguns grandes sucessos de vendas,
veio revelar-se um presente envenenado. Para não perderem este comboio,
as pequenas editoras de música de dança passaram a lançar
os seus temas em edições generalistas sem antes passarem pela edição
em vinil. Como ainda não tinha sido criado um circuito próprio de
dança, desvalorizou-se a importância do máxi enquanto ferramenta
do DJ a favor das edições em CD de vários artistas. O resultado
é que apesar dos muitos produtores que viram os seus temas lançados,
não deram continuidade ao seu trabalho e nunca chegaram a ter qualquer
reconhecimento. Sem a protecção de um movimento solidificado, deu-se
um passo no escuro. Não só ficou por conquistar um potencial público
nacional, como se abriu mão do mercado internacional.
Zé
Mig.L, um produtor que se estreou exactamente em editoras do Benelux (Minimalistix,
DJax Up Beats) foi um dos poucos a romper fronteiras, apesar de o ter feito no
circuito restrito da tecno minimal. Diversos artistas da Kaos seguiram o veio
da Tribal/Twisted, mas já sem o impacto dos USL, que só o ano passado
regressaram com um original, "Are You Looking For Me", que de qualquer
maneira reanimou o interesse dos media anglo-saxónicos.
A lição
dos USL não ficou na memória dos artistas portugueses e os próprios
USL parecem tê-la aproveitado parcimoniosamente. A música na maioria
das festas tornou-se brutal, perdendo-se muito desse lado risonho e descontraído
que assistiu ao nascimento do movimento. Com o fim das grandes festas, criaram-se
acontecimentos mais pequenos, em clubes e locais à beira da praia. A Kaos,
que deu depois origem à produtora de espectáculos Friends, é
um exemplo disso, uma vez que depois de várias experiências acabou
por se fixar no Rock's, em Gaia. Em ambientes mais urbanos, diversificou-se também
a apetência por novas correntes estéticas (que em termos de edições
só foram exploradas pela Khami Khazz, uma etiqueta da NorteSul; pela Lupeca,
de Pedro Passos; ou pela Symbiose, onde se destaca Alex FX). À eclosão
dessas tendências (jungle, big beat, trip-hop, house de fusão, etc),
acrescente-se ainda o progressivo sucesso do "Goa-trance", com um estilo
de música menos agressivo, cujo psicadelismo resulta em algum revisionismo
"hippie". O "Boom Festival" foi nos últimos dois anos
a celebração máxima deste culto musical.
Outra novidade
é a integração dos ritmos ou modos de produção
da música de dança em projectos enraizados na pop (Três Tristes
Tigres), no acid-jazz/hip-hop (Cool Hipnoise) ou até na música tradicional
(Megafone, de João Aguardela). Mais populistas, os fenómenos de
boys-band e girls-band têm vindo a criar um público muito jovem que
no entanto se interessa mais pelo formato tradicional da canção.
Os Lunáticos foram nesse aspecto pioneiros. Nesse grupo, pontificava Alex
Santos, um dos pioneiros da Kaos, editora que o ano passado fez lançar
ainda o álbum de house e jungle de outro jovem, Paul Jay's.
A música de dança tem uma apetência universalista que nem mesmo o jazz (enraizado na música negra norte-americana) ou a pop (oriunda das culturas juvenis anglo-saxónicas) conseguiram generalizar. A tecno, a house, o jungle ou o big-beat são formas musicais alheias à nacionalidade e, tal como em outros países sem expressão fora das suas fronteiras, esperava-se que a música de dança portuguesa se disseminasse, mas isso nem veio a acontecer em Espanha, com a excepção de edições pontuais. O esforço de internacionalização - que implica, mais do que sucessos ocasionais, a criação de um circuito com promotores, editoras e distribuidoras - é ainda a prova de força por cumprir de um movimento que atravessa um impasse de crescimento. Alguns dos melhores DJ e produtores portugueses criaram uma credibilidade e profissionalismo que no entanto ainda não criou uma diferença marcante. É essa diferença que definirá o futuro internacional ou meramente localizado da música de dança. Entretanto, a costela africana do mundo lusófono continua por ser aproveitada...