RÁDIO EM PORTUGAL: O CAOS HERTZIANO
por Rui Miguel Abreu

 

A rádio foi em Portugal o meio de comunicação social que registou a mais rápida e espectacular evolução desde a abertura ao sector privado nos anos 80. Uma evolução que culminou no actual panorama, com novas estações e empresas a disputarem audiências num espectro algo caótico e, dizem muitos, mal regulamentado.

Devido à introdução tardia da televisão a rádio nunca perdeu o seu papel preponderante no tecido da comunicação social portuguesa. Tanto mais que a abertura das televisões ao sector privado conta ainda com poucos anos e não muito tempo antes os canais estatais de televisão continuavam a praticar horários de emissão que deixavam à rádio um alargado leque de exclusividade nas ondas hertzianas. Entende-se assim o peso mítico de nomes como o do Rádio Clube Português e o apego das pessoas à rádio. Aliás, no ano em que se comemora o primeiro quarto de século cumprido sobre o 25 de Abril de 1974, não é demais lembrar que a rádio foi usada como meio de dispersão da revolução com a famosa senha "escondida" no "E Depois do Adeus" interpretado por Paulo de Carvalho. No pós 25 de Abril a rádio desempenhou igualmente um papel activo na difusão dos ideais revolucionários, prova do seu poder de penetração junto das populações.

Com a chegada da estabilidade governativa, os anos 80 assistiram à explosão das chamadas Rádios Piratas. Um fenómeno com décadas noutros países (como Inglaterra, por exemplo), em Portugal só se entendia num panorama em que a liberdade garantia o acesso ao espaço hertziano. E de repente passou-se de um panorama de quase-deserto com pouquíssimas ofertas no espectro radiofónico para uma autêntica confusão em que rádios de bairro, de associações estudantis ou de simples curiosos enchiam o éter sem qualquer tipo de regulamentação criando um autêntico caos hertziano. Com a intervenção do Estado nessa área, muitas das Rádios Piratas desapareceram e outras deram lugar a Cooperativas mais profissionalizadas e sancioandas pela legalidade.


O panorama que hoje conhecemos começou a estabilizar-se no início da década de 90. E o meio rádio português tem-se revelado uma agressiva área de negócios com inúmeros projectos a nascerem, fecharem e mudarem de mãos todos os anos. Por outro lado, ao nível local, a rádio conseguiu realizar uma verdadeira regionalização que politicamente ainda não foi realizada. O fenómeno das rádios locais é claro e, talvez com maior impacto ainda do que a imprensa regional, conseguiu ir ao encontro das especificidades de cada região.

Vários projectos de rádio marcaram a era das estações Privadas em Portugal. Vários projectos e linhas de pensamento. Quer se goste ou não, rádios como a TSF, Correio da Manhã Rádio, Rádio Cidade ou XFM criaram estilos, descendências e, cada uma à sua forma e escala, tiveram impacto.

O caso da TSF é mais do que óbvio. Trata-se de uma rádio especializada em informação em que a animação musical é minoritária em termos de horas de emissão. Hoje em dia, esta é uma estação de referência com muitos profissionais reconhecidos no mundo do jornalismo.

No campo musical, cada um dos outros exemplos citados criou um estilo. Projectos como o Correio da Manhã Rádio marcaram decididamente o início dos anos 90. Pela sua equipa jovem passaram nomes como o de José Mariño (hoje na Antena 3), Margarida Pinto Correia (directora da revista "Cosmopolitan") ou José Carlos Cunha (da Rádio Comercial e um dos convidados deste debate). O CMR distinguiu-se da maior parte dos projectos seus contemporâneos por apostar em programas de autor e em música de qualidade abrindo de certa forma caminho para projectos como a XFM. No CMR, como noutros projectos contemporâneos, começaram igualmente a ensaiar-se os modelos de playslist que haveriam de colocar um decisivo ponto final na era dos programas de autor.

A empresa proprietária do Correio da Manhã Rádio adquiriu posteriormente a Rádio Comercial por via do processo de privatização de que havia sido alvo. O CMR acabou por se diluir no novo e mais amplo (porque também nacional) projecto da Rádio Comercial. Antes de chegar ao ponto em que se encontra hoje a Rádio Comercial trocou mais uma vez de mãos. Hoje em dia, Luis Montês, ex-director das extintas XFM e Rádio Energia, é o director da Rádio Comercial.

Recentemente, a Media Capital/SOCI, Grupo detentor da Rádio Comercial adquiriu igualmente a Rádio Cidade. Esta rádio foi erguida com base num popular modelo brasileiro que provou ser uma fórmula de sucesso. Música popular, animação de antena constante, contacto directo com os ouvintes e programas de auscultação do gosto popular são algumas das características de um projecto que, a nível local, disputou audiências aos maiores projectos de rádio.

Pela XFM passou alguma da mais arrojada música que as antenas de rádio portuguesas já transmitiram. O autodenominado projecto de rádio "para uma imensa minoria" contou com colaboradores prestigiados como Ricardo Saló (hoje na TSF), António Sérgio (que regressou à Rádio Comercial) ou Isilda Sanches (actualmente na Rádio Marginal e outra das convidadas deste debate). Para lá das razões administrativas ou executivas que levaram à falência desta proposta, ficou a prova de que nem só de playlists mais ou menos baseados nos modelos americanos de Top 40 pode viver uma estação recuperando e revitalizando o conceito do programa de autor com resultados bastante satisfatórios.

Actualmente, o Estado detém o controle da RDP, grupo que conta com a Antena 1 (mais voltada para a informação e para a música portuguesa), Antena 2 (música clássica) e Antena 3 (rádio jovem). Nas mãos da Igreja continua o Grupo Renascença com a RFM, o Canal 1 da Renascença e, lançado mais recentemente, o projecto Mega FM. Os restantes operadores são privados.

No final da década o fenómeno a que se assiste na rádio é o da normalização, para o que em muito terá contribuído a difusão das playlists. Por oposição ao denominado programa de autor - em que uma personalidade se revela através da sua escolha pessoal que poderá obedecer ao seu gosto particular ou a um conceito que se quer explorar (música de um determinado género, época ou país, por exemplo) - a playlist procura normalizar o tipo de sons que se podem ouvir numa determinada estação. Recorrendo a um número constante de temas, que vão sendo lentamente rodados sendo progressivamente substituídos por novidades, as playlists seguem diversos critérios, sendo os de popularidade os mais comummente utilizados. Os temas dos tops têm entrada garantida nas playlists. E uma permanência prolongada nestas mesmas playlists significa uma passagem potencialmente satisfatória pelos tops. Ou seja, dois universos que se regeneram mutuamente. Com as playlists, com sistemas de rodagem aperfeiçoados por computadores que ditam o número de vezes e as horas a que cada tema passa, a personalidade do apresentador passa para segundo plano. Já não é o seu gosto pessoal que está em causa, mas os objectivos comerciais da estação.

O caso extremo das rádios de playlist é o das rádios computorizadas. Geralmente no caso de estações temáticas - como a Rádio Nostalgia, pioneira neste formato, a Romântica FM, a Rádio Comercial da Linha ou a Memória FM - a animação é minimizada ao máximo e a "estação" é operada de um pequeno espaço onde um computador com uma memória generosa vai debitando música e anúncios sem interferência humana "em directo". No fundo, este conceito de estações vai beber à ideia da companhia Muzak que nasceu com o propósito de fornecer a espaços funcionais (fábricas, elevadores, hotéis, bares…) música "enlatada" ambiente. Nestas rádios o leque de temas é geralmente reduzido, pelo que passam bastantes vezes as mesmas músicas. Para pessoas que querem apenas ouvir o que já conhecem.

Actualmente, a entrada nas playlists das estações de maior audiência é disputada com agressividade pelas editoras musicais que nessa actividade investem dinheiro, tempo e recursos humanos com o objectivo de fazerem os seus discos venderem e assim obterem o retorno dos seus investimentos. Mas com o "números clausus" das playlists as entradas não são fáceis. E, no panorama português como no internacional, a rádio é sem dúvida um dos veículos mais importantes para transportar um disco para o sucesso.

Não existe em Portugal nenhuma estação de rádio dedicada 100% à música pop portuguesa (entendendo-se aqui música pop como o amplo território onde se poderão avistar tanto os Excesso como Rui Veloso ou os Cool Hipnoise). Se por um lado o fenómeno que ficou conhecido pela onomatopeica designação Pimba se apoia muito na dedicação quase exclusiva a essa "escola" por parte de uma complexa rede das rádios locais, não existe real sustento radiofónico para outros fenómenos de produção, digamos assim, mais elevada como os GNR, os Xutos e Pontapés ou os Silence 4 que têm que disputar espaço nas playslists às Madonnas ou Metallicas internacionais. E se há quem defenda que essa disputa é apenas saudável e que com o nível técnico a que a música portuguesa já chegou é possível criar produtos de qualidade tão elevada como os que têm origem no estrangeiro, também não há como não reconhecer que essa disputa é inglória para quem, como os artistas portugueses, não disfruta do mesmo amparo televisivo (com MTV's e VH1's por exemplo) nem sequer dos mesmos budgets promocionais. Há por isso quem defenda que os casos de êxito massivo na música portuguesa acontecem não graças ás rádios, mas apesar delas.

Estas ideias têm estado na base de uma ampla discussão pública onde se tem questionado a validade das playlists, o papel do Estado na regulamentação da orientação das rádios e, claro, as famosas e nunca cumpridas quotas de difusão, mesmo nas rádios controladas pelo Estado. Se a intervenção estatal directa através da criação de leis levanta questões complexas aos apologistas da liberdade e a quem acredita que a música portuguesa não deve sobreviver à custa de nenhum género de proteccionismo, por outro lado como não estabelecer uma relação directa entre a saúde das indústrias musicais francófonas e castelhana e a enorme penetração das músicas locais nas playlists dos respectivos países?

Passando dos territórios ainda assim menos mal tratados da pop e do mainstream nacional para a música das minorias, independentemente da sua origem geográfica, o panorama é ainda mais desastroso. Com a falência da XFM, onde se ancoravam muitos dos novos rumos da música contemporânea, e não apenas da pop, as imensas minorias que nessa estação se viam reconhecidas têm lamentado a perda do seu farol radiofónico. Em Inglaterra, onde o espectro radiofónico é apertadamente vigiado, os concursos para novas frequências são abertos com limites rígidos. Ou seja, abre-se um concurso para uma nova rádio local de jazz ou de pop-rock ou de desporto e não para uma nova rádio cuja orientação será determinada pelos seus donos. Por outro lado, quem ganhar o concurso não fica automaticamente com uma estação de rádio assegurada pois tem ainda de enfrentar um período de teste em que as suas emissões e programação são observadas por comissões especializadas que só ao fim de algum tempo emitirão o aval definitivo. Em Portugal nada disso existe. O Estado não determina a orientação de nenhuma rádio de cariz comercial. No limite teórico poderemos vir a ficar com 300 rádios a tocar os mesmos 50 discos. Por outro lado, na rede de emissoras controladas pelo Estado, só a Música Clássica recebe honras de exclusividade com a dedicação a tempo inteiro da Antena 2 a este universo. Onde ficam o jazz, as vanguardas, as músicas étnicas? Em pequenas ilhas e guetos encerrados aqui e ali em horários proibitivos.

Caso completamente único é o das rádios universitárias. Inexplicavelmente, não existe uma rede nacional de rádios universitárias que pudesse dotar o nosso país, do Minho ao Algarve, de uma alternativa e de uma voz para toda uma geração. Ao contrário, mais uma vez, de países onde as indústrias musicais vivem saudavelmente, como os Estados Unidos, e onde essas rádios funcionam como viveiro de uma série de correntes musicais que se movimentam nas margens do mainstream.

Pertencendo a Rádio Universidade Tejo à memória, restam a Rádio Universitária do Minho e a Rádio Universidade de Coimbra, entidades que sobrevivem à custa do amadorismo e da imaginação dos estudantes e que ainda assim vão proporcionando a quem as ouve algumas das melhores horas de rádio disponíveis. Sem dotação de subsídios que permitam uma maior profissionalização destas rádios e sem se prever a abertura de mais rádios universitárias, há aqui um inteiro segmento de população que não encontra um espelho ao nível radiofónico. Talvez por isso em anos recentes se tenha assistido ao triste espectáculo das festas estudantis animadas por boçais artistas oriundos de zonas musicais esquecidas pelo bom gosto. Pelo contrário, a subida do nível qualitativo de celebrações estudantis em cidades como a de Coimbra tem uma relação íntima com a existência nessa cidade de uma activa rádio operada por e para universitários. Não será de descurar aqui a culpa de algumas academias menos enérgicas no facto de não existirem mais Rádios de cariz universitário.

O panorama de rádio em Portugal é assim o de um imenso caos, onde as poucas ideias inovadoras são copiadas até à distorção dos propósitos originais, onde raramente se desbrava novo território e onde o conceito de serviço público parece completamente posto de lado. Mas enquanto o Ministério da Cultura patrocinar em rádios do Estado programas da autoria de apresentadoras de televisão cujo elevado mérito cultural é obviamente indiscutível, nem tudo estará perdido. Ou será o contrário?

Espaço 1999