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David
vs Golias O Rap em Portugal neste final de milénio |
Em primeiro lugar uma advertência, este é um texto de alguém que percebe o rap no universo mais largo que é o hip hop. A indústria musical tem tentado e tem conseguido com algum êxito fazer exactamente o contrário, descontextualizar o rap, servi-lo em pratos separados das outras componentes do hip hop, mas se tentarmos ir por aí a nossa percepção do movimento, o significado e a importância do mesmo serão somente uma miragem. Imagem difusa e descolorida de uma realidade rica e bastante interessante.
Tendo
esta noção tornar-se-á mais inteligível aquilo que
se dirá em seguida!
O
hip hop como cultura tem vários níveis de entendimento, existem
vários planos ou camadas que se relacionam entre si: aspectos económicos,
aspectos artísticos, aspectos sociais, etc. O hip hop como movimento existe
e cria a sua própria dinâmica, interage com factores externos e internos
como os media, o Estado, as editoras discográficas, os consumidores, os
criadores, etc. Dessa interacção constante vai-se desenvolvendo
e vai-se modificando.
O
hip hop sempre foi marcado por uma constante e rápida evolução,
e se pensarmos só no rap, na componente musical do hip hop, e quiçá
a mais conhecida, aí então, o desfile de sub-géneros, de
variados estilos, de maneiras diferentes de encarar a música saltam aos
olhos mesmo dos observadores mais desatentos.
A
importância da grande indústria não é de desprezar,
antes pelo contrário. O seu papel cada vez maior vem marcar a forma como
o movimento se vem desenvolvendo nestes últimos anos. O domínio
da grande indústria marca, não só a criação
artística, mas também o modo como se passa a encarar essa criação
artística. Esta acção desgastante leva o movimento a olhar
um pouco para dentro, a tentar perceber os danos infligidos por esta indústria
eminentemente parasitária. A produção rapológica é
marcada neste final de milénio pelo alinhamento ou pelo não-alinhamento
com a grande indústria discográfica. Aos alinhados passou-se a denominar
de rap industry ou mainstream aos não-alinhados recorre-se frequentemente
ao termo undergound ou hardcore. Esta discussão não é pacífica,
e muito menos é definitiva, mas é seguramente interessante! A rap
industry move-se por interesses eminentemente económicos, por seu lado
o undergound tem por base interesses artísticos e culturais. Muitas vezes
encontramos exemplos que ultrapassam um pouco esta simples divisão, como
projectos artisticamente válidos a correrem do lado da rap industry trazendo
algo de novo ao todo, e projectos marcadamente underground a pautarem-se por uma
certa estagnação... Não estamos perante universos estanques,
mas sim perante conjuntos que se intersectam.
Este
combate nem sempre honesto, e obviamente desigual entre os dois modos de ver a
música rap e de perceber o seu desenvolvimento, tornam evidente uma indústria
que para melhor gerir os seus lucros necessita de controlar certas variáveis
tentando para tal influenciar o público consumidor. Em termos curtos e
sucintos, diria que se trata de uma batalha desigual pelo controlo e gestão
da informação. É esta informação que em última
análise permitirá ao público decidir. E é por isso
que eu digo que o combate é desigual! A informação é
um bem precioso, e os meios e a logística ao serviço da grande indústria
são incrivelmente mais poderosos que aqueles nas mãos do underground,
mas tal não nos permite falar em determinismo.
Se
a Rap industry tem ao seu serviço um arsenal mediático de peso,
tem meios de difusão e de produção únicos, o underground
possui uma ligeireza de meios e um poder de finta cada vez maior, e este David
possui uma arma que o Golias há muito ambiciona, o poder de criação!
É
no underground que o rap se cria e recria. É neste caldo em permanente
efervescência que se cruzam estilos, se experimenta, se inventa. O underground
possui a liberdade criativa que tanta falta faz à grande indústria
discográfica
Esta tenta ripostar contratando os talentos nascidos
e criados no underground mas este é rápido e criativo, ligeiro,
vivendo num estado de permanente criação, pensando no futuro, sem
problemas de ir ao passado. A grande indústria vive prisioneira do presente,
tentando por todos os meios ditar as modas, decretar o que é o verdadeiro
rap, mas sendo sucessivamente ultrapassada por um cada vez mais ágil e
consciente underground.
Talvez
esteja a ser demasiado optimista, mas é esta visão das coisas que
me faz acreditar, podem pensar que é só uma questão de fé,
também pode ser, mas é uma convicção baseada em factos!
Não acredito numa total prevalência quer da Rap Industry quer do
underground, penso isso sim que o primeiro vive parasitariamente em função
do outro. Também não acredito num underground fechado, isolado,
crente dos seus trunfos, olhando egocentricamente para o seu próprio umbigo,
com tendências dogmáticas. Acredito sim num underground consciente
das suas potencialidades, conhecedor da sua importância artística,
sem complexos de superioridade, organizado, mas ao mesmo tempo livre de quaisquer
inibições ou dogmas. Livre para criar, livre para inovar, livre
para errar e tentar outra vez. Livre!
O
rap, assim como o jazz, ou o Rock'n'Roll, têm como berço os EUA,
mas fruto de uma sociedade cada vez mais global, pelo menos em termos ocidentais,
vão fazendo parte do quotidiano de um número cada vez maior de pessoas
espalhadas pelos quatro cantos do planeta. Se ao princípio o molde é
importado dos States, rapidamente vai tomando formas específicas dependentes
das características dos mais variados pontos e locais de assimilação.
O rap, elemento farol da cultura hip hop, vai também fazer esse périplo,
percorrendo o mundo amadurecendo e enriquecendo-se: Japão, Brasil, Reino
Unido, África do Sul, França, Polónia, Coreia Do Sul, Alemanha,
Espanha, Portugal, etc., etc.
Portugal
não foge à dicotomia acima descrita entre o underground e o mainstream.
Da intersecção dos dois resultou o seminal álbum Rapública,
já lá vão cinco anos! Desde aí até agora temos
vindo a assistir a profundas alterações quer de um lado quer do
outro. O experimentalismo calculado da grande indústria leva-a a apostar
seguidamente no colectivo Black Company com resultados comerciais satisfatórios,
mas marca também a cisão entre os interesses do underground e os
interesses primariamente económicos da indústria discográfica.
Desse embate o underground tira a primeira lição: há que
aprender a nadar para sobreviver num mar infestado de tubarões.
E
é com algum orgulho que diria que o underground português tem conseguido
manter-se à tona, tentando e encontrado parcerias que não só
a subserviência às grandes editoras, tentando criar mais que tudo
um sentimento, diria, de classe.
A
primeira reacção de qualquer organismo que sofre um ataque é
organizar a defesa. Ainda me lembro do modo como os jornais e mesmo a televisão
se abriram fazendo reportagens na tentativa de mostrar o que os já luso-africanos
vinham fazendo aqui e ali, mas especialmente nos arredores da capital, Lisboa.
O rap nasce negro mas a sua essência é multicultural, multirracial.
Mas o preconceito, o dogma, começa a enraizar-se em termos mediáticos:
o rap é percebido como «música para pretos»! Esta ebulição
inicial, rapidamente é substituída por um quase apagamento, por
um desaparecimento, diria quase uma invisibilidade. Dada a miríade de grupos
que vão surgindo os media optam por eleger dois ou três representantes,
que por muito que quisessem já não representam aquilo que se ia
fazendo no underground. Do rap fica o seu carácter contestatário
- o seu lado social. Relegado para segundo plano fica o seu carácter artístico.
Nos
anos dourados do Gangsta Rap o movimento sofre as mais variadas críticas,
sendo depois relegado para um gueto onde Rap rima com violência, ódio
racial, e outros disparates do mesmo género. Onde estavam os jornais e
a televisão quando era preciso esclarecer? Em vez de tentar perceber a
essência e o conjunto do movimento, o que foi feito foi uma redução
e uma generalização a todos os níveis descabida! Um erro
deste género só foi possível porque nos media a paixão,
ou mesmo, o respeito pelo género, roçou o total desinteresse. O
que diriam esses críticos se o tão omnipresente rock (ou pop-rock)
fosse julgado e criticado tendo em vista o trabalho de projectos menos interessantes?
Os críticos em Portugal (e não só
) olharam para umas
quantas árvores, tiraram-lhes as medidas, e disseram-nos que tinham visto
uma floresta, da qual nem tinham gostado muito
O que aconteceu aos media
foi apenas isto, ficaram reféns de um mau julgamento. E pior que isso fizeram
o público refém dum preconceito artístico, que permanece!
É
contra este status quo que o underground tem vindo a lutar já lá
vão quatro ou cinco anos! Apesar de tudo tem vindo a crescer em todos os
aspectos. No plano de criação artística o rap made in Portugal
ainda não possui uma produção constante, mas talvez não
seja este o principal combate a desenvolver. Neste momento desenvolve-se especialmente
a auto-produção e a auto-divulgação. A tecnologia
actual possibilita a abertura de uma frente de batalha que o underground não
desdenha. A produção de mixtapes tem vindo a crescer com nomes como
Dj Bomberjack, ou Dj Kronik, ou Dj Cruz, que para além de misturarem sons
reconhecidos de todos (rap feito lá fora), dão-se ao trabalho de
produzirem temas com grupos e projectos locais, na sua maioria novos nestas lides.
O poder da mixtape é largamente conhecido no seio do hip hop, mas só
recentemente começamos (aqui) a perceber realmente a sua importância.
Este modo de divulgar o género possibilita um contacto, um canal comunicativo
entre o criador e o público, torna visível o trabalho do Dj/produtor
que de outro modo permaneceria obscuro num mercado onde as formas de expressão
e de informação são bem adversas para os seguidores do hip
hop. A auto-produção permite ganhar uma certa escola em termos criativos,
mas como os meios envolvidos não são naturalmente excessivos, permite
também uma certa inovação sem medo de errar, uma descontracção
criativa altamente benéfica, não esquecendo o reconhecimento granjeado
pelo público conhecedor. A auto-divulgação permite controlar
melhor aspectos relacionados com o design, o preço, os locais de venda,
etc. O mercado das mixtapes cria a possibilidade do rap se desenvolver sem grandes
constrangimentos, sem os problemas que normalmente decorrem da relação
com as grandes editoras, numa palavra tornam o underground independente!
Mas
o problema da criação de um mercado de mixtapes passa pela existência
de locais de divulgação, de locais receptivos à sua exposição
e venda, e tratando-se de um mercado tão específico tal tarefa não
é fácil
Ora a existência destes locais são um
dado novo na história do rap/hip hop lusitano. Estes lugares não
são muitos mas são bons. São essencialmente lojas como a
Godzilla, a Big Punch ou a Station que vêm dar um outro folgo ao underground
hip hop. São locais de comércio, é certo, mas que não
vivem apenas do comércio. Perceberam que apostando no underground a médio/longo
prazo teriam um desenvolvimento mais sustentado. Assim sendo estas lojas também
servem de local de reunião e de convivo de todos aqueles que se interessam
pelas diversas facetas do hip hop especialmente o rap (Deejaying e Emceeing) e
Graffiti. O que para os media não existe (porque não se fala) torna-se
claramente visível por estes lados: desde os flyers a anunciar uma festa,
a fanzines, revistas estrangeiras de difícil acesso, naturalmente as mixtapes,
vinil e cd's de rap internacional, vídeos, posters, etc. No caso da Godzilla,
o seu catálogo de hip hop é tão importante que se dá
ao luxo de patrocinar os dois (e únicos ?!) programas de rádio na
área da Grande Lisboa. Aliás, já que falamos de rádio,
convém perceber também a importância destes dois programas
no consolidar do underground, na sua comunicação com o exterior
e com o interior, numa palavra expondo o que se vai fazendo por aqui e dando-nos
a ouvir o que se vai fazendo lá por fora!
Aos
poucos parece que se vão construindo as bases para a existência de
um movimento hip hop com pernas para andar. O êxito do movimento vai estando
cada vez mais nas mãos daqueles que acreditam nele e menos no poderio da
grande indústria. A existência de um underground forte e produtivo
é essencial para que se possa pensar em termos de futuro, o velho dogma
do sucesso a qualquer preço, do contrato milionário com uma grande
editora, vai desaparecendo dos sonhos daqueles que se movem pelos caminhos do
rap em Portugal. A grande prioridade é a existência de um público
que sabe o que quer, de um público consciente daquilo que é o hip
hop como cultura, cada vez mais exigente em relação àquilo
que ouve, e àquilo que quer ouvir, existindo esse núcleo duro em
termos de consumidores os criadores hão-de aparecer! É claro que
existe uma certa dialéctica entre consumidores e criadores: a criação
não vive (em termos de cultura hip hop) fora da realidade que a rodeia,
o acto criativo é influenciado e influencia o meio, por isso quanto maior
for o elo, o cordão que liga público e criador maior consistência
terá o produto final. Não digo que o rap tenha que ser escravo das
circunstâncias, deve, antes estar atento à realidade circundante
modificando-a e alimentando-se dela.
Se os States são um pouco o balão de ensaio daquilo que será o hip hop do futuro então a percepção que vou tendo permite-me concluir que se vivem momentos de alguma reflexão sobre o que nos reserva o futuro. Se por um lado em termos comerciais nunca estivemos tão mal representados, por outro lado nunca se fez tanto dinheiro. Do lado da indústria vivem-se momentos dourados com nomes como Puff Daddy e afins, querendo fazer-nos crer que o futuro está ali, mas para a maior parte daqueles que acreditam na força da cultura hip hop os tempos são de reflexão e de união, na tentativa de criar as auto-defesas contra o vírus economicista aniquilador do poder criativo do hip hop. E neste campo nós aqui em Portugal não estamos tão atrasados. Possuímos estruturas mais frágeis, é certo, mas não ficamos prisioneiros das circunstâncias: o underground já não é inocente, mas o mainstream também não é tão forte como lá fora. Ou seja, para dar o passo em frente não precisamos de dar os passos em falso que se deram lá fora, há que arrepiar caminho, percebendo e tirando lições dos erros alheios. Por isso o futuro está em aberto. E nunca como hoje o futuro depende de nós. Depende da nossa vontade, depende do envolvimento e conhecimento do que representa a cultura hip hop. Depende da nossa capacidade em exigir mais e melhor. Depende da nossa capacidade em nos unirmos, depende da nossa vontade e habilidade criativa. Que dependa de nós, amantes do género, o futuro do hip hop em Portugal, é esse o meu maior desejo para o próximo milénio!
May the force be with u!
Emanuel Ferreira'99