A
Crítica
por Bruno Bènard-Guedes
"real art is (...) a representation of things that cannot be seen except by the intellect"
Ananda K. Coomaraswamy, Christian and Oriental Philosophy of Art, p. 11, Dover Publications, New York, 1956
1. A História provou-o vezes sem conta: cruzar o inconciliável é, por definição, desafio pleno de riscos e pode causar traumatismos irrecuperáveis nos organismos envolvidos. E, no entanto, alguém / um dia / algures / de alguma forma ousou sabotar a providência tutelar do bom senso e inventou a crítica de arte. Plano sensível e plano inteligível fundiam-se, então, de forma simbólica - o primeiro expresso pelo segundo, tornando visível o invisível ou, na desejada analogia com o vector musical, confirmando o silêncio como fonte primeira de legitimação de todo e qualquer poema sonoro.
2. Um plano de confronto de interesses anímicos que se quer, tanto quanto possível, consciente da maior das suas limitações: o facto de toda a possibilidade opinativa (e, em particular, a opinião sobre arte) ser, invariavelmente, reticente. A subjectividade de qualquer escrito que preveja um julgamento de valores é intransponível - está-lhe nos genes. O grau em que esta se manifesta depende, tão somente, da capacidade de manipulação dos critérios críticos de cada um. É essa a arte possível ao profissional desta área - a sindérese, essa miraculosa síntese de todas as coordenadas emocionais e racionais (nas subespécies estética, histórica, cultural, científica, social, económica, etc...) que, quando reunidas em perfeita harmonia, convocam a justiça crítica definitiva (ou o mais aperfeiçoado dos seus protótipos).
3. Mas a arte é também um poço de intrigas e inquietações. No apogeu da sua capacidade de contínua provocação socio-cultural deve esta ser capaz de pôr em evidência o mínimo denominador de sensibilidade comum a cada indivíduo da espécie humana, do mais atento consumidor à mais empedernida das almas.
A arte questiona tudo e todos, inclusivamente a si própria. Quem se deixa, naturalmente, atrair por tamanho projecto inquiridor é a ciência oficial da idade dos porquês, a filosofia. Prova inquestionável disso mesmo são os diálogos recorrentes que especuladores profissionais como Deleuze, Foucault ou Dérrida mantiveram com obras de arte.
4. Ideal seria que os próprios artistas expusessem as ideias subjacentes aos seus programas criativos em vez de se limitarem a sugeri-las. Muitos o fizeram, permitindo novas formas de encarar o gesto da criação, detectáveis de forma tácita nas suas próprias obras. Exemplos cabais dessa filosofia de entendimento conjuntural programada de dentro para fora and back again são Amadeo de Souza Cardoso, Sasha Frere-Jones, Paul Klee, Adolfo Luxúria Canibal, Peter Bogdanovich, J.P. Simões, Eça de Queiroz ou Sean O'Hagan.
5. Seja de que perspectiva for (interna, externa ou mista), a missão da crítica resume-se, no meu entender, a duas palavras: contrariar o inefável. Provar que uma imagem não vale necessariamente mais que mil palavras e que as nossas emoções devem exigir todo o manancial expressivo capaz de derrubar a tentação fácil da sua utopia comunicacional intrínseca. Isto para que a última palavra possa caber sempre ao ser supremo, o ser com capacidade crítica.
6. A capacidade crítica bem modelada é, acima de tudo, uma questão
de educação - educação-ética, mas também
educação-razão e educação-sabedoria. Ou seja,
um background em dose certa e um complemento interpretativo treinado com assiduidade,
quer pela via poética, quer pela via prosaica. Em última instância,
o poder de filtrar factos e constatações pelo mecanismo do bom
senso e pelo quadro de critérios do inconsciente (pertinência das
ideias estéticas em jogo, grau de desafio às normas vigentes,
orientação da exploração ideológica, etc...)
que regulam cada profissional.
7. Um dos sintomas que melhor explicam a distracção generalizada da crítica dos dias que correm é a incapacidade de reflectir sobre a essência primeira do objecto pensado. O espelho dessa carência é a profunda leviandade com que a crítica tende a tratar a matéria prima do seu trabalho
Por outro lado, a própria exigência dos leitores (ou o que resta dela) não é, regra geral, cúmplice de desafios maiores. O consumidor habitual da opinião crítica assume-se interessado em fugir à letargia medíocre e intelectualmente castradora do grande mercado, mas fá-lo de um modo nem sempre muito empenhado. Isto leva a que, do outro lado da barricada, se tema arriscar mais do que meio passo de cada vez. Aí reside outro paradoxo incorrigível da maior parte da crítica contemporânea: o medo do cariz pedagógico e do risco divulgador. Resultado disso é a acomodação no interior das pseudo-hipóteses de vanguarda, numa vanguarda de segunda linha, já estabelecida, já rendida aos encantos de quem opta por não a questionar, enfim, uma vanguarda que já deixou de lutar pelo seu estatuto. E é aí, então, na vanguarda já digerida e aprovada pelo mercado, que a crítica se sente confortável. Daí até à criação dos seus próprios dogmas dista um breve passo - e de sentidos teimosamente treinados para a previsibilidade se recebem os paradigmas emergentes.