O PANORAMA EDITORIAL PORTUGUÊS - Momentos de glória...
Por Rui Miguel Abreu


Para se iniciar da "melhor" forma este texto poder-se-ia dizer que as relações entre artistas e editoras asssumem praticamente tantas formas quantas a soma de editoras e artistas existentes. E estas especificidades assumem características ainda mais "específicas" (passe obviamente a redundância) quando se fala dos diferentes países para onde a indústria global da música se estende.

Mas há obviamente pontos de contacto, fórmulas, "modus operandi" quase estandardizados nestes modos de relacionamento entre artistas e editoras. Falando do caso português, onde os apoios estatais à edição musical são quase nulos e onde nem sequer existe um ambiente fiscal especial nesta área (com o IVA aplicado no comércio dos discos a ser um dos factores responsáveis pelo elevado preço dos CD's), é possível dizer-se que se vive um momento especial à beira do século XXI.

A indústria musical portuguesa passou, em primeiro lugar, a ser digna desse nome. Editoras diferentes, com posturas diferentes, catálogos diferentes e estratégias diferentes operam neste momento no mercado nacional com resultados e objectivos também, como é natural, diferenciados.

Apontando a lente do nosso olhar para o início dos anos 80, a época apontada normalmente como o "boom" da indústria, quando a música deixou de estar especificamente ao serviço de uma renovação das mentalidades obviamente ligada à revolução, entende-se que, em duas décadas, foram dados passos de gigante. A indústria nacional, conseguiu nomeadamente a proeza de todos os anos registar um crescimento positivo, crescimento esse que chega mesmo a contrariar a tendência doutros mercados a nível europeu.

A palavra que mais facilmente descreve o mercado português em inícios da década de 80 é "ingenuidade". Nesse momento aprendeu-se, um pouco à força, a fabricar grupos, a inventar fenómenos com esses grupos, a procurar soluções para estruturar carreiras. E dado o carácter específico do caso português - uma revolução recente, um incendiar dos ideais, um clima político pouco propício ao desenvolvimento da pop que a conjuntura poderia ver como um "luxo burguês" - a verdade é que se pode dizer que se aprendeu muito em pouco tempo. Inventou-se uma modernidade, inventou-se uma forma "portuguesa" de se estar na música. Enfim, inventaram-se os anos 90.

O caminho que hoje os grupos têm que percorrer para chegar aos discos continua no entanto a ser complicado. Mesmo com a entrada das multinacionais no nosso mercado e a abertura dessas multinacionais a catálogos portugueses e mesmo com a disseminação das independentes, os grupos e artistas que procuram o amparo de uma editora para se lançarem numa carreira discográfica continuam a ter que percorrer um "calvário" mais ou menos longo para se afirmarem.

Nos anos 80 os chamados Concursos de Música Moderna (de que ainda sobrevivem alguns exemplares) serviram como o grande balão de oxigénio da indústria, revelando novos grupos que depois iam sendo "pescados" pelas editoras. Nos anos 90, as formas de um grupo chegar às editoras têm sido mais variadas.

Os concursos continuam ainda a ser capazes de revelar bandas (Blind Zero e Silence 4 revelados pelo Termómetro Unplugged), mas a imprensa, a rádio, os concertos ao vivo (com a disseminação de Festivais a criarem mais palcos para novos valores se apresentarem - e felizmente, hoje já não é incomum ver um grupo sem disco nem contrato a tocar para grandes multidões: Belle Chase Hotel, Gift ou Coldfinger são exemplos recentes possíveis) e a opção das maquetes são outras vias possíveis.

Esta última forma de apresentar às editoras o trabalho de novos grupos tem sido a mais comum para levar novos valores à edição. Qualquer editora com catálogo nacional tem um vasto depósito de propostas com que os grupos procuram influenciar os respectivos responsáveis pelos gabinetes de Artistas e Reportório (A&R). Com a crescente acessibilidade de tecnologia de gravação caseira e a aumenta de oferta de estúdios e consequente baixa de preços, hoje em dia uma gravação decente pode estar ao alcance de qualquer tipo de bolsa. Um efeito lateral desta "democratização" do acesso à tecnologia de gravação reside no facto de com tantas ofertas (há editoras onde chegam mais de uma dezena de novas maquetes por dia... ) ser difícil dar a devida atenção a todas as propostas.

Por isso mesmo, os grupos passaram igualmente a cuidar a imagem das próprias maquetes e já não é invulgar quem leve essa atitude até ao fim, apresentando produtos que, tanto ao nível do som como da imagem, estão já muito próximos da forma final. Esta tem sido aliás uma tendência das editoras, ou seja, investir em grupos cujo conceito apresenta já um grau de desenvolvimento bastante avançado. Isto significa não apenas ideias em relação à imagem que se cola à música (é cada vez mais impossível vender música sem imagem, nesta época de tecnologias multimédia e televisão "around the clock"), mas também as estruturas que um grupo precisa para sobreviver ao nível do agenciamento (gestão de carreira ao vivo) e management (gestão de carreira). Por isso mesmo, muitos gabinetes de A&R têm começado a procurar fornecedores "exteriores" de novo talento, apostando em grupos que apresentam já todos os elementos que acreditam ser necessários à sustentação de uma ou mais edições discográficas (conceito, música, imagem, agenciamento...).

O aumento do número de propostas (são hoje editados mais discos de música feita em Portugal do que em qualquer outro momento da nossa história) também levou à elevação do nível de complexidade e sofisticação destas propostas. Os vídeo-clips de produção nacional começam a libertar-se da condição de "parentes pobres" dos vídeos que todos os dias vimos em canais como a MTV, a qualidade técnica dos discos (com as editoras a recorrerem cada vez mais frequentemente a produtores de renome internacional) também cresceu (já não é possível dizer-se se um disco foi gravado em Portugal pelo som de bateria, como acontecia até há bem pouco tempo) e a nossa música compete, em termos de qualidade, cada vez mais em pé de igualdade com a música que as multinacionais todos os dias disponibilizam no nosso país.

O que nos leva á questão da internacionalização. Essa continua a ser a grande mácula do nosso mercado, a sua relativa pequenez. Para muitos grupos, a ideia de uma carreira internacional continua a ser uma quase-obsessão. Neste caso, as multinacionais não se têm revelado propriamente a porta mais directa para isso acontecer (ao exemplo dos Madredeus, sustentado por uma multinacional, pode contrapor-se o de Dulce Pontes, lançado por uma independente) e a língua escolhida para os grupos se expressarem também não parece ser um factor decisivo (os casos mais óbvios de internacionalização têm quase todos o português como língua primeira de expressão). A resposta está obviamente na procura de mercados específicos (como foi o caso dos Madredeus com o mercado de World Music e New Age) e aí os novos esforços na área das chamadas músicas de dança parecem os que mais avançadamente se posicionam para a conquista dos mercados exteriores.

Tendo tudo isto em conta, é no entanto impossível negar que, apesar do panorama televisivo estar hoje mais pobre no que à hipótese de divulgação de música diz respeito, o número de "fenómenos" de vendas tem aumentado. E a indústria mostra até sinais de renovação ao mostrar-se permeável à consagração de novos valores, havendo grupos a atingirem esta condição de fenómeno logo ao primeiro disco. Isso tem-se revelado como um dos principais factores de renovação das caras no palco nacional da música, porque as editoras têm aprendido que nem só os artistas que já por cá andam há alguns anos conseguem vender e isso tem levado à assinatura de muitos contratos.

O momento que a música nacional atravessa é de relativa glória, enfim. Resta saber mantê-lo.

 

Espaço 1999