DJ's
- AS NOVAS ESTRELAS
Por Rui Miguel Abreu
Os Reporter Estrábico definiram recentemente num concerto toda esta problemática
dos Dj's recorrendo a imagens do famoso Padre Marcelo Rossi e a um sample de
voz onde uma criança confessa "Pai, eu não quero ser DJ"
ao que uma outra voz, adulta, responde "Trabalha, trabalha, trabalha nessa
mix" levando novamente a criança a responder "Pai, tenho medo
de não acertar a batida." É óbvio que tratando-se
dos Repórter Estrábico, a questão foi abordada com ironia,
mas também com uma certo tom mordaz. Porque, hoje em dia, ser DJ pode
de facto ser uma carreira de futuro e tal implicação acarreta
responsabilidades e ansiedades semelhantes às que o discurso da criança
no concerto do grupo portuense dava expressão.
O DJ tem obviamente as suas raízes nos animadores de rádio norte-americanas dos anos 50. Até ao nascimento do rock and roll, a rádio era um meio essencialmente familiar, onde a música, as notícias e as novelas radiofónicas partilhavam idêntico peso na programação. Com os anos 50 e o crescente sentido de contra-cultura, os divulgadores da revolução rock and roll - como o mítico Wolfman Jack - adquiriram o estatuto de figuras dessa mesma contra-cultura e começaram aí o longo caminho em direcção à imposição de uma noção de gosto nas suas selecções musicais.
Por outro lado, e mais ou menos ao mesmo tempo, na Jamaica, os sound systems, basicamente discotecas ambulantes, começavam a atrair cada vez mais público e os DJ's, os homens por trás da selecção musical particular de cada sound-system, conquistavam igualmente o estatuto de estrelas sendo cada um responsável por selecções de música específicas, ou seja, pela construção de um estiloe pela identidade do próprio sound-system.
Os emigrantes jamaicanos nos Estados Unidos, como Kool Herc, levaram esta noção e pelos anos 70 ajudavam ao nascimento do hip hop. E o DJ-ing evoluiu então em dois ramos mais ou menos separados. Por um lado um estilo mais tecnicista, associado ao hip hop, onde o Dj se afirmava como músico, através de uma enorme dose de inventividade, colando breaks, fazendo scratch e assim erguendo uma nova realidade sónica. Por outro lado, junto das comunidades gay de Nova Iorque e pelo lado do funk e do disco sound, gente como Dave Mancuso no mítico The Loft e Larry Levan no não menos mítico Paradise Garage lançavam as bases do moderno DJ construtor de sets e atmosferas, divulgador de estilos e criador de êxitos pelo trabalho insistente nas pistas de dança.
Com a década de 80 o hip hop solidificou-se e a figura do DJ mais tecnicista impôs-se definitivamente. No final da década, a explosão do Acid House lançou de forma inequívoca a outra linhagem de DJ's. O caminho foi longo e levou à criação, já na década de 90, de uma verdadeira indústria que se manifesta não apenas na agressiva política dos super-clubes, mas também na verdadeira enchente a que o mercado hoje assiste com Mix CD's assinados por DJ's e complexas linhas de merchandising. Ou seja, antes mesmo do DJ como criador, o trabalho do DJ como "seleccionador" de música alheia também carrega em si uma marca de autor. Seleccionar é quase idêntico a criar. Gilles Petterson, um famoso DJ que é também o homem do leme da etiqueta Talkin' Loud, chama a este "seleccionar" um sugestivo "joining the dots", procurar os pontos de ligação muitas vezes não apenas dentro de um só estilo (house, techno, jungle...) mas também dentro de estilos diversos e épocas distantes.
Hoje o DJ é uma figura omni-presente. Não apenas na área da música de dança, mas transcendendo géneros. Projectos como Portishead organizaram colisões entre o DJ e orquestras sinfónicas, grupos pop como Sugar Ray incluem um DJ, e mesmo em contextos como o jazz, a música contemporânea ou o heavy metal começa a ser quase vulgar o recurso a DJ's e tecnologia a si adjacente.
Depois da implementação dos DJ's e das técnicas por si desenvolvidas, deu-se o passo seguinte para a produção. A passagem, primeiro dentro do universo do hip hop, do DJ para o campo da produção (graças ao seu conhecimento profundo da estrutura da música e à educação intensa dos seus ouvidos nas leis dos breakbeats) foi natural e os seus frutos ditam hoje a primeira força musical na indústria norte-americana. Hoje em dia, em certas áreas demúsica, as palavras "DJ" e "Produtor" são mesmo quase sinónimos. O último grande campo que resistia à conquista do DJ está finalmente a ser ocupado. Falamos de encarar, finalmente, o DJ como músico. Aí o trabalho de "crews" como os Invisibl Scratch Piklz, Beat Junkies ou X-Ecutioners tem desenvolvido um trabalho intenso e a imposição do conceito de "turntablist" é hoje uma realidade, com eventos como o campeonato da DMC a ganharem crescente popularidade.
Actualmente, DJ's como Carl Cox, por exemplo, são tratados como verdadeiras estrelas pop. E depois de um longo período de anonimato, em que o DJ nunca era tão importante como a música que passava, hoje o nome do DJ funciona quase como uma chancela de qualidade superior à própria música que decide escolher. Os DJ's são estrelas, atraem públicos na ordem dos milhares de pessoas e ganham cachets idênticos aos de muitas bandas de rock.
DJ Spooky fala ainda do DJ como um "curador da história aural", uma espécie de arquivista com uma noção muito própria da história das músicas sobre as quais a sua actividade mais directamente incide. Graças a este papel, editoras de jazz como a Impulse, a MPS ou a Blue Note, de easy listening como a Phase 4 da Decca ou de Disco como a Prelude têm assistido nos últimos anos a um verdadeiro renascimento, impondo no mercado uma série de reedições com material cuja selecção está intimamente ligada às preferências dos DJ's e cujo público preferencial são outros DJ's.
Concluindo-se, o DJ veio a revelar-se, à beira do século XXI, como um verdadeiro balão de oxigénio da indústria musical, alguém cuja educação musical, imaginação e princípios se tem revelado como fonte inesgotável de criatividade no campo das músicas normalmente associadas às pistas de dança. Mas neste momento a verdade é que o DJ já transcende todas e quaisquer fronteiras. Uma prova final? Na Red Bull Academy of Music, um seminário para DJ's com base na Alemanha, os Invisibl Scratch Piklz de Q-Bert e Mixmaster Mike anunciaram para breve um espectáculo em que esta crew irá executar obras juntamente com a San Francisco Symphony Orchestra...