ALGUMAS NOTAS A PROPÓSITO DA MORTE DO ROCK
Por Adolfo Luxúria Canibal

 

A morte do Rock!!! Eis algo de que ouço falar há pelo menos 20 anos, do crítico mais professoral ao cíclico puto-com-a-mania-que-é-reguila. E de cada vez que a sentença surge blindada como uma certeza definitiva, reaparece o Rock mais resplandecente que nunca, a fintar as vozes agoirentas que lhe celebram as pompas fúnebres. Mas afinal o que é isso do Rock? Que coisa é esta que se presta a tamanha confusão obituária.

É na perspectivação histórica que devemos procurar a sua delimitação, os contornos deste corpo mutante que se transfigura a cada investida. E aí, se a célebre noite de bebedeira reportada por Boris Vian, em que o Sr. Rock e o Sr. Roll cruzaram os seus delírios alcoólicos, pode ser adoptada como uma bela e divertida lenda para situar a sua origem, a sua génese, de um ponto de vista musico-sociológico, deve antes ser encontrada na apropriação da música negra, sobretudo a mais ritmicamente electrizante e sexualmente apelativa, como o Rythm'n'Blues por parte de uma juventude americana branca recentemente autonomizada como classe consumidora, na sequência do baby-boom do pós-guerra.

São estas as duas premissas que vão manter uma constância, ainda que com oscilações, no posterior desenvolvimento do género - o branqueamento da música negra e o ter como destinatário um auditório juvenil. E é do seu confronto dialéctico que vai sair a evolução do Rock ao longo dos seus 50 anos de existência, como pode ser facilmente demonstrado com exemplos avulso retirados das suas diversas fases criativas. No entanto, para não sobrecarregar o que se pretende ligeiro, fixemo-nos apenas nos dois momentos mais fracturantes da sua história - o British Beat e o Punk Rock.

Quando o Rock & Roll, limpo de intérpretes negros, temática domada pela decência branca e estrutura formatizada, se transforma em Twist e invade as ilhas britânicas, vai despertar a curiosidade da juventude inglesa sobre os ritmos negros que lhe pressente na base. É a esta descoberta dos Blues e consequente vontade de os reproduzir, tentando a fidelidade, como os Bluesbrakers do John Mayall, ou assumindo a sua inépcia de ingleses brancos, como os Beatles, que se deve o multifacetado caldeirão baptizado de British Beat. E é o mesmo British Beat, por sua vez exportado para a América como a nova música juvenil, que, apropriado pela juventude americana, origina um dos arquétipos do género, cujos representantes mais famosos, os Byrds, ainda são matéria de revisão frequente por celebridades tão desiguais como os REM ou Alex Chilton.

Quanto ao Punk Rock, nascido da recusa da juventude em identificar-se com as formas adultas que o Rock tomava, ao pretender a seriedade no concubinato com a música sinfónica e com o Jazz ou na pura ostentação de virtuosismos instrumentais recém-adquiridos, assume como programa de acção a procura no passado da força e da imediatez juvenil que acabariam por o definir. É assim que, a par da revisão do velho Rock & Roll e do próprio British Beat, vai mais uma vez buscar inspiração à música negra, o que no caso do Punk britânico passa também pela tomada de assalto do Reggae jamaicano, até aí circunscrito aos bairros de imigrantes da capital inglesa.

Estes dois exemplos são elucidativos, até pelo seu carácter de ruptura, do papel das referidas premissas nas mutações do género. O resto são continuidades, revisões de revisões, desenvolvimentos e exploração de particularidades, adição e ingredientes... É o que forma a míriade de estilos, alguns já anacrónicos outros ainda com elevada potencialidade, com que os enciclopedistas e outros classificadores gostam de sub-dividir o Rock.

E se olharmos para o presente, com a juventude transformada de grupo consumidor emergente em paradigma social, verificamos que, de Nick Cave, na leitura mítica de branco australiano do Gospel e Blues rural, passando por Jon Spencer, aplicado na desconstrução do Blues eléctrico, ou pelos Soul Coughing, às voltas com a sua síntese impressionista de Jazz, Funk e Rap, até aos Massive Attack e toda a onda de Bristol, a depurar no alambique galês o Dub e o Reggae dos imigrantes antilheses, ou à cena Drum'n'Bass, encarnada na perfeição por Goldie, essa mestiçagem do Dub com stress branco, o Rock continua vivo e recomendável e igual ao que sempre foi: revisão de música negra para consumo de juventude branca.

 

Espaço 1999