EDITORAS INDEPENDENTES: MITOS E REALIDADES
Por Hugo Panzer


"Nem tudo o que luz é ouro." Isto é, que critérios podem avaliar a natureza "independente" de uma editora discográfica? O que significa "independente" neste contexto?
Uma resposta algo linear e formalista dir-nos-á que editoras "independentes" são aquelas que funcionam à margem do circuito das grandes editoras, multinacionais ou não.
Uma outra resposta, mais elaborada em termos de ideologia e prática musicais, afirmará que editoras "independentes" são as que editam a chamada "música independente", seja lá o que isso for. E esta ideia contagia o comércio de venda de discos, é só reparar, nas discotecas, nas secções que alinham o material discográfico proveniente da dita área "independente".
De tudo isto resulta, muitas vezes, na cabeça de certo tipo de consumidores de música, a ideia de que se é "independente" o produto é aceitável, se não o é o produto não tem qualidade. O problema é que, quando nos lembramos do facto de grupos como os Clash, Siouxsie & The Banshees, Wire e muitos outros terem publicado a totalidade ou parte da sua mais apreciável música em grandes editoras, tudo isto se torna algo confuso. E é, por isso, natural que alguns pensem que esta etiqueta "independente" é mais uma etiqueta balofa, mistificadora e oportunista que só existe para captar o interesse (e os tostões) de alguns incautos. Neste contexto, é interessante dar uma vista de olhos pelos tops de vendas de editoras "independentes" em qualquer período histórico. Jason Donovan ao lado dos Crass, Kylie Minogue a par dos Pere Ubu, etc. e etc. Ao fim e ao cabo, com excepção de alguns mecenas endinheirados, e numa situação de economia de mercado, o objectivo de todas as editoras é ter lucros, ou pelo menos não ter prejuízos.
E voltamos ao provérbio citado no início, que, por outras palavras, significa que é necessário separar o trigo do joio. Quem tiver uma ideia da evolução da indústria discográfica desde as primeiras décadas deste século até aos nossos dias não pode deixar de assinalar a importância das verdadeiras editoras independentes (sem aspas) no desenvolvimento das mais variadas formas de música popular (blues, jazz, rhythm n' blues, rock and roll, etc.). Como um pequeno contributo para assinalar essa importância, aqui ficam algumas notas históricas, e não só, sobre esse fenómeno da edição discográfica independente.

1. Por volta de 1953-1954, momento do nascimento do rock n' roll, existem nos E.U.A. cinco grandes editoras. No entanto desde a década de 20 surgem editoras regionais/locais que têm como objectivo publicar certos géneros musicais (blues e jazz por exemplo) cultivados essencialmente por músicos negros. Veja-se o caso de editoras como a Chess e a Atlantic.

2. As grandes editoras não dormem, o racismo existe também na indústria discográfica e elas atacam o mercado da chamada "race music" (a tal música feita por negros para um público negro minoritário). Por vezes a táctica das grandes editoras é mais refinada, pegam nos originais e sujeitam-nos a versões feitas por músicos brancos que adoçam (isto é, e literalmente, branqueiam) esses originais. E até chegam a criar editoras subsidiárias para captar essas franjas marginais do mercado discográfico.

3. Na década de 50, o advento do rock and roll é acompanhado por uma cada vez maior actividade de pequenas editoras que começam a disputar os tops com as grandes editoras. Muitas daquelas pequenas editoras começam a funcionar como trampolins para as carreiras de sucesso de muitos artistas: veja-se o caso de Elvis Presley, que começa a gravar para a Sun Records de Memphis e que, após a edição de cinco singles, se passa para a grande RCA.

4. Essencial para a sobrevivência das pequenas editoras independentes é o papel de disc-jockeys radiofónicos. Alan Freed, de 1952 até finais da década, recusa-se a passar nos seus programas as versões revistas das grandes editoras, optando pelos originais produzidos pelas independentes. Resultado disto, no final da década, Alan Freed é acusado pelas grandes editoras de receber dinheiro para passar os discos dos concorrentes e é condenado.


5. Um exemplo de como o aparecimento de editoras independentes se verifica noutros géneros musicais servindo outros desígnios é a criação nos finais dos anos 50, da editora Saturn pelo músico de jazz Sun Ra. Aqui, o principal objectivo é o controlo artístico e estético da produção musical do artista (o que nem sempre aconteceu com muitas editoras independentes).

6. Com altos e baixos chegamos a 1976. É curioso como alguns iluminados ignorantes se referem a este período do punk/new wave como o do aparecimento das editoras independentes, fazendo tábua rasa de décadas de história. É verdade que muitas pequenas editoras surgem nessa época trepidante. Os Buzzcocks, os Fall, os Cure e muitos outros começaram por editoras independentes. Curiosamente, os Sex Pistols não... Mais uma vez, as grandes editoras não estão a dormir: ou correm a assinar contratos com os novos artistas ou fundam as habituais editoras subsidiárias. Os tubarões nunca querem perder pitada do banquete.

7. Por tudo o que se disse, é necessário saber até que ponto uma editora é independente desde logo em termos formais e quantas editoras apresentadas ou percepcionadas como independentes o são na realidade?

8. Em termos de matéria musical produzida a verdadeira independência está por um lado na liberdade de criação e, por outro lado, na distribuição significativa do produto discográfico pelos consumidores. Por isso a produção independente deverá criar redes de distribuição independentes e eficazes. Pregar no deserto pode satisfazer o ego e ser sinal de integridade, mas não capta adeptos nem contribui para uma mudança assinalável de mentalidades.

9. Não se deve ser dogmático nem acreditar em mitos sem fundamento - na verdade nem tudo o que é mau nos chega das grandes editoras e nem tudo o que é bom nos vem das editoras independentes. Desconfio que grande parte dos aberrantes tops dos reis da música nacional é proveniente das editoras independentes!

10. Nos nossos dias, como no passado, a existência de editoras verdadeiramente independentes é importante. Ao relembrar o que se passou durante o designado boom do rock português nos inícios da década de 80, podemos ficar com uma ideia do papel nefasto que a quimera de assinar por uma grande editora representa. Ao fim e ao cabo continua a haver um grande diferença entre fazer música simplesmente com o fito de ganhar dinheiro, como se poderia ganhar em qualquer outra profissão, e fazer música por prazer. E continua a haver uma grande diferença entre dirigir uma editora por critérios puramente contabilísticos e de distribuição de dividendos e dirigir uma editora motivado por opções artísticas mais ou menos desinteressadas. O pior é que mesmo os mais idealistas esbarram sempre com o problema do dinheiro. Volta e meia, uma pequena editora até consegue alcançar um estatuto semelhante aos das grandes editoras (veja-se o caso da Island e da Virgin).

Em resumo, uma editora independente, quer ao nível formal quer ao nível artístico, pode ser uma opção viável em termos económicos. Para muitas formas de expressão musical pode ser a única saída possível ainda que se sujeitem nos termos actuais a uma promoção e divulgação residuais. Quem se abalança numa aventura destas é melhor ter em conta o aviso que se encontra à entrada do Inferno de Dante: quem lá entrar é melhor perder logo toda a esperança. E, "last but not least", os "vinilmaníacos" bem podem agradecer a muitas editoras independentes, principalmente na área da chamada dance music, o facto de as velhinhas rodas pretas não terem sofrido o mesmo destino dos dinossauros.

P.S.
- Pergunta: "Há algum país em que praticamente toda a produção musical, desde há quase 40 anos, assenta em editoras para todos os efeitos independentes?"
- Resposta: "Sim, a Jamaica."
Pensem neste exemplo.

 

Espaço 1999